sábado, 17 de julho de 2010

CXII - Acerca de esboços do uso da dicotomia indivíduo x sociedade na tentativa de decifrar as causas da angústia existencial individual.

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§ 112




Tipos de revisão [teórica] a serem evitados: (...) Coquetel teórico [ou ecumenismo]. Diz-se daquele estudo que, para atender à indisciplina dos dados, apela para todos os autores disponíveis. Nestes casos, Marx, Freud, Heidegger, Bachelard, Gramsci, Habermas, Foucault, Morin, Lyotard e muitos outros podem unir forças na tentativa de explicar pontos obscuros. (Alda Judith Alves-Mazzotti, A "revisão da bibliografia" em teses e dissertações: meus tipos inesquecíveis - o retorno, no livro A bússola do escrever)


A tentação de sermos espirituosos e concisos pode levar-nos à inverdade. Por mais elegante e resumida que seja, a brevidade nunca pode, pela natureza dos fatos, ter em conta todos os aspectos de uma situação complexa. Ao tratar de um tema com essas características, só se pode ser conciso à custa de omissões e simplificações. A omissão e a simplificação auxiliam-nos a compreender, contudo auxiliam-nos, em muitos casos, a compreender imperfeitamente, pois a nossa percepção pode limitar-se a noções definitivas e abreviadas, sem abarcar a da realidade vasta e ramificada, a partir da qual tais noções foram formuladas de modo bastante arbitrário. (Aldous Huxley, Regresso ao admirável mundo novo)


A sociedade não é diferente do indivíduo, e o indivíduo não difere da sociedade. A estrutura psicológica da sociedade reflete fielmente os mais recônditos pensamentos humanos. Os que insistem em afirmar que o indivíduo e a sociedade são entidades diversas, não refletiram adequadamente sobre o assunto. Além disso, é cômodo perpetuar a divisão; ela se adapta à nossa inércia psicológica, porque ao dizermos 'a sociedade deve mudar' nos absolvemos da necessidade de mudarmos como indivíduos. (Robert Powell, A mente livre - O caminho interior para a libertação)


O self se desenvolve no processo da interação simbólica. O indivíduo aparece como sujeito e como objeto da ação, emergindo simultaneamente com a configuração progressiva do "outro generalizado". (R. M. Frumkin)


Como o habitus é uma capacidade infinita de engendrar produtos - pensamentos, percepções, expressões, ações - cujos limites são fixados pelas condições histórica e socialmente situadas de sua produção, a liberdade condicionante e condicional que ele garante está tão distante de uma criação da novidade imprevisível quanto está de uma reprodução mecânica simples dos condicionamentos iniciais. (Pierre Bourdieu, Esboço de uma teoria da prática)

A capacidade repressiva de uma sociedade pode se manifestar de maneira sutil e dissimulada, conseguindo habitualmente a adesão de muitas pessoas de boa fé, mas gerando insatisfação entre os que dispõem de sentido crítico bastante para entender seus mecanismos. A conscientização em relação ao terror oculto é algo semelhante ao que A. J. Tougnbee reconhece como a perda do pecado original (A civilização posta à prova, 3. ed. São Paulo: Nacional, 1967). (Baldomero Cores Trasmonte , no verbete Terror do Dicionário de Ciências Sociais da UNESCO traduzido pepa FGV, 2.ed., 1989)


É importante salientar que eu não estou tratando aqui do conceito psicanalítico de angústia, mas sim de meus devaneios interpretativos pseudopsicológicos e pseudo-sociológicos. Se bem que, se queremos entender as raízes históricas da angústia, é inevitável que lancemos nossos olhos sobre a história do processo civilizador. Tudo o que eu disser a seguir provavelmente já foi muito melhor dito pela psicologia social, pela antropologia cultural, pela epistemologia genética, pela ciência da complexidade e pela cibernética social, disciplinas as quais eu nunca terei tempo de estudar (mas quem sabe tenha um dia...), além de tantas outras metanarrativas que se debruçaram direta ou indiretamente sobre a temática aqui tratada. O esboço de metanarrativa aqui apresentado é, comparada àquelas, mera brincadeira de criança, mero (e fajuto, aliás) malabarismo conceitual - mas brincar é importante para o desenvolvimento e para o auto(des)conhecimento (a (des)construção do self)...

O que eu pretendo nesse texto é reelaborar as idéias já apresentadas no capítulo VII e torná-las mais inteligíveis, ao custo do texto ficar mais longo. Eu reproduzirei o texto do capítulo VII em amarelo. De certa forma, o que é dito aqui é uma “resposta” ao que foi dito pelo Gabriel no texto “Garimpagem do recalcado – ensaios sobre o pensamento”, postado em seu blog.

O capítulo VII é um capítulo de extrema importância para mim, tanto que ele provavelmente é o capítulo mais citado (por meio de links) ao longo dos textos desse blog. Todavia, reconhecendo que ele é obscuro, o que eu pretendo consertar agora nesse capítulo CXII, embora eu saiba ser impossível transpor a minha linguagem e torná-la acessível ao senso-comum (que, obviamente, nunca lerá esse blog mesmo). Esse texto em particular, e esse blog em geral, não é um livro didático - embora eu me esforce para ser o mais claro possível, sendo às vezes propositalmente prolixo como forma de dar ênfase a alguns pontos: se você (garotinh@ inocente, garotinh@ juvenil) não entende alguma palavra, já estudar; se não quer estudar, então não leia e vá se alienar com algum produto da indústria cultural.

Para mim o presente capítulo é o 3° melhor desse blog, ficando atrás apenas do LXXXIV (2°) e do CI (1°). Sugiro ao leitor atenção redobrada na leitura. Se for para lê-lo superficialmente, nem leia. Eu compreendo que você tenha mais o que fazer.

Você ainda está aqui? Então vamos em frente...


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Como indicado pelo título, o que se pretende aqui é trazer luz sobre o fenômeno da angústia existencial do indivíduo mediante o estudo das relações entre indivíduo e sociedade. O que eu pretendo demonstrar aqui, e isso em oposição às conclusões do Gabriel, de quase toda auto-ajuda, do senso-comum, e de praticamente qualquer texto já escrito sobre angústia, é que as raízes da angústia existencial individual não estão no indivíduo, mas sim na própria sociedade. Da maneira mais maniqueísta e reducionista possível, podemos afirmar que o que eu estou fazendo é “jogando a culpa na sociedade”; todavia, mais adiante veremos que eu não faço exatamente isso, embora sinalize favoravelmente nesse sentido.

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As diferentes formas de desajustamento social não devem ser vistas como "erros" do sistema, mas sim como "resíduos" do "processo de (re)produção social" (o processo de produzir a vida social, e de reproduzir as suas próprias condições de produção). Esses resíduos - ou "produtos defeituosos" -, por sua vez, surgem naturalmente do desajustamento dos dispositivos de regulação do próprio processo produtivo. Como estes dispositivos, devido à presença de informações incompletas e viscosas, inerentes à realidade material na qual existe uma guerra eterna entre as forças e todas as formas de vida pela disputa do espaço-tempo (e por conseguinte da matéria)- o bellum omnium contra omnes - , jamais estarão perfeitamente ajustados, um certo grau de desajustamento social é, nesse sentido, "natural", portanto esperado a priori, e de forma alguma "um erro".

Esse primeiro parágrafo foi dedicado à sociedade.

Em oposição a uma visão estanque da sociedade, o que se busca salientar aqui é a sua dinâmica histórica, seu estado de permanente mudança. A vida social é constantemente produzida e reproduzida: ou seja, constantemente ela é produzida juntamente com as condições necessárias para uma nova produção. Essa necessidade de permanente reprodução reside, em última instância, na própria corporeidade dos indivíduos, que impõe demandas que precisam ser atendidas e re-atendidas diariamente. Esses conceitos de produção e reprodução eu devo à tradição marxista. O indivíduo precisa ser produzido diariamente (mediante o atendimento das necessidades diárias de alimentação, vestimenta, saúde, segurança, etc.), bem como permanentemente reproduzido (mediante a procriação).

Todavia, não vivemos num mundo idealizado, que funciona como um modelo matemático de precisão exata (e descrito por um conjunto de poucas equações), no qual todas as decisões são otimizadas (e simétricas) e tudo funciona da maneira mais perfeita possível (admito junto com Pitágoras que "Todas as coisas são assimiladas pelo número", porém, uma descrição detalhada das cibernéticas social e psicológica transcende a linguagem matemática e a capacidade computacional atualmente disponíveis). A “causa” dessa dissonância entre ideal e real é a própria materialidade do mundo, a qual determina um fluxo truncado de informações, causado pelo conflito permanente essencial à materialidade, e aqui eu remeto a Schopenhauer, bem como aos modelos econométricos dos neoliberais. Schopenhauer nos mostra (no livro II do Tomo I d’ O mundo como vontade e como representação) que há no mundo um permanente conflito, uma “guerra eterna”, entre as diferentes formas de vida, bem como entre as diferentes manifestações materiais. Cada ato que executamos encontra oposições. O próprio ato de respirar é um processo dialético (e aqui remeto a Hegel...) de “assimilação por dominação” (Schopenhauer) no qual o corpo absorve o oxigênio e o utiliza na manutenção do seu processo vital. Esse próprio ato de respirar enfrenta a “oposição” do oxigênio, o que por fim gera resíduos (radicais livres) que afetam negativamente o próprio organismo. Assim, o “preço” da sobrevivência a curto prazo é o comprometimento da vida do organismo no longo prazo. De forma análoga, o processo de duplicação do DNA, por não ocorrer num mundo idealizado de precisão matemática, mas sim num mundo material de “guerra eterna”, está sujeito a pequenos erros cada vez que ocorre. Como esse processo ocorre centenas de vezes por dia em nosso corpo (o qual, aliás, é praticamente reconstruído totalmente a cada quatro anos), esses erros vão se acumulando e se manifestam sobre a forma do envelhecimento, culminando ao fim no colapso do organismo (morte).

Ora, essa guerra eterna inerente à materialidade soma-se à atomização das decisões no sistema. O sistema é formado pelas inter-relações de suas partes, cada qual agindo de acordo com seus propósitos (instintos de auto-preservação e de reprodução, vontade schopenhauriana - também conhecida como "o querer-viver" (vide livro IV do O mundo...) - , vontade de poder nietzscheana, vontade de saber/poder foucaultiana, microfísica do poder, princípios e pulsões psicanalíticos: princípios do prazer e do nirvana, pulsão de morte, jouissance lacaniana, Eros e Tânatos, Anima e Animus junguianos, homeostase psíquica, economia libidinal, economia das trocas simbólicas, desperdício conspícuo, além da racionalidade microeconômica utilitarista voltada para o interesse próprio, ou, ainda, na linguagem usual: auto-estima, riqueza, poder, prazer, sexo, felicidade, etc.) e conhecimentos limitados: não existe uma instância decisória responsável pela regulação fina do sistema; ao contrário, a regulação é realizada anarquicamente, como resultante do conjunto de forças em jogo. Essa ausência duma instância decisória superior elimina a teleologia no desenvolvimento do sistema: a sua evolução não tem uma finalidade pré-definida, não há um caminho a ser seguido a priori. A ausência dessa figura ubíqua que decide em última instância, garantindo a otimização perfeita dos processos, tem como conseqüência justamente a "imperfeição" e a "desotimização" desses processos, justamente porque eles se dão num mundo materialmente concreto, e não num modelo matemático idealizado, o qual, enfim, existe apenas como imaginário utópico reducionista e ingênuo.

É por isso que essas "imperfeições" não podem ser consideradas "erros": porque elas já estão "previstas" e são partes integrantes do processo de produção e de reprodução da vida social - e porque a sua negação é fruto do desejo (as vontades citadas acima) que alimenta o imaginário utópico. De forma análoga, a morte do indivíduo não pode ser vista como um "erro" do corpo ou da vida em geral, pelo simples fato que ela já faz parte da "estrutura" da vida, e já foi "solucionada" mediante a procriação. Em verdade, a morte, decorrente da guerra eterna, é uma "conseqüência" da própria procriação: como todas as formas de vida estão buscando se reproduzir o máximo possível, elas entram em conflito (guerra eterna), em conseqüência do qual surge a morte. Morte e vida estão, assim, intimamente ligados (ver Schopenhauer, § 54 do tomo I d' O mundo como vontade e como representação). Essas "imperfeições" e "erros" do processo de (re)produção social só podem assim ser entendidas quando contrastamos a realidade a um modelo ideal que não lhe diz respeito (e, por isso, seguirão sendo citadas entre aspas). Nesse sentido, enquanto confrontado com um imaginário, o real só pode ser julgado como imperfeito a partir de um juízo de valor - não é possível um juízo positivo, dada a ausência do perfeito imaginado enquanto fato (e, a rigor, a matematização - a tentativa de efetuar juízos de valor balizados pela matemática - é apenas um artifício ingênuo de ocultação "científica" do ideal).

Como esse processo de reprodução não é "perfeito", mas sim está sujeito a contingências, ele "naturalmente" implica em "resíduos", em "produtos defeituosos": esses são parte integrante da reprodução social, são parte integrante dos seus custos: a sua existência é "aceita" como inevitabilidade estocástica pelo sistema. O sistema não tem a presunção de eliminar todo erro, todo defeito, todo resíduo: o que importa é que esse custo não inviabilize o processo de reprodução social da vida, o que significa que o volume de resíduos deve ser tal que não coloque em risco esse processo.

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Como em todo processo industrial, há um rígido controle de qualidade, que se apresenta na forma de coerções que buscam abafar a atividade dos resíduos e assim minimizar os malefícios decorrentes de sua inevitável presença. Quando e se alguma categoria de resíduo (e uma delas é a do outsider) sair do controle e ameaçar colocar todo o sistema em crise, a sociedade aciona seus mecanismos de defesa no sentido de regularizar a situação, por meio da eliminação física de parte do próprio organismo.

Esse processo de reprodução social passa pela produção e reprodução dos indivíduos, agentes desse sistema. Falaremos sobre o indivíduo mais abaixo. Chamaremos o processo de formação do indivíduo de processo de individuação e o processo de ajustamento do indivíduo à sociedade de processo de socialização. A primeira coisa a salientar aqui é a ressalva com a qual usamos a categoria "indivíduo". Esse indivíduo, longe de ser uma coisa em si, é ele mesmo um processo, uma construção histórica, uma cumulação em espiral. Esses processos (de individuação e de socialização) estão sujeitos às contingências e "imperfeições" dum sistema material no qual há atomização das decisões e guerra eterna. E por isso é inevitável que "erros" surjam, cabendo ao sistema não a tarefa impossível de eliminar qualquer erro, mas sim a tarefa de impedir que o volume de erros seja grande o bastante que ponha em perigo o próprio processo de reprodução social (de perpetuação da vida humana em sociedade), processo esse que nada mais é que o processo social de afirmação do querer-viver (até onde eu saiba, Schopenhauer não usou esse expressão).

Os "resíduos" são formados por todo tipo de desajustados que, a rigor, não podem ser produzidos além dum volume limite que impeça a perpetuidade do processo de reprodução social, e, portanto, de perpetuidade da vida humana em sociedade. O insider, a "pessoa comum" (ver capítulo CVII) é o "modelo" a ser reproduzido socialmente. O outsider é um dos resíduos possíveis, mas não é o único: temos também outros tipos de desajustados, como excluídos sociais, prisioneiros, rebeldes, terroristas, anarquistas, doentes mentais, dependentes químicos pesados (digo pesados pois, a rigor, praticamente todos os seres humanos são dependentes químicos), etc.: todos esses grupos são formados por "seres defeituosos" (com isso não pretendo qualquer juízo de valor, trata-se duma "descrição positiva") em relação ao "padrão", o insider, a "pessoa comum". O sistema, porém, é elástico e possui mecanismos em geral eficientes para abafar a atividade dos resíduos e, na medida do possível, integrá-la produtivamente ao restante do processo de reprodução social (por exemplo, por meio da arte e da sua mercantilização e reprodução técnica como mercadoria). Mas, tão logo o perigo representado pelos resíduos for grande o suficiente para ameaçar a estabilidade do sistema, o mesmo agirá energicamente, não raro efetuando a eliminação física (extermínio) dos resíduos. Novamente cabe, aqui, salientar a imperfeição e contingência desse processo: o sistema - dada a ausência de uma entidade ubíqua reguladora (deus, por exemplo) - não possui mecanismos de detecção precisa do perigo, o qual portanto está sujeito à especulação, à incerteza e, ainda, à paranóia, e, enfim, a decisões precipitadas e "incorretas" (medidas desnecessárias).

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Como a vida é um desdobramento contínuo e cíclico da atividade, e como o indivíduo está preso ao seu narcisismo, a ele o seu desajustamento é apresentado, por meio de sofismas elaborados por sua racionalidade (racionalidade essa que não passa de uma ferramenta que se encontra totalmente a serviço da volição individual), como uma qualidade, da qual não deve se envergonhar e a qual deve aceitar e defender, colocando-o, portanto, em desacordo com o sistema, mas em acordo com sigo mesmo.


A vida, da forma mais genérica possível, pode ser descrita como o desdobramento da atividade e a consequente complexificação fenomenológica de um algoritmo autopoiético subsumido a restrições de recursos. Como a vida é um afirmação de si mesma, ela se torna uma repetição infinitamente variada do mesmo tema (esse é o tão buscado "sentido da vida"). Ela vai se desdobrando e se fragmentando sempre que pode, variando-se "horizontalmente" e complexificando-se "verticalmente", multiplicando-se qualitativa e quantitativamente. Ora, com todo esse desdobramento - por trás do qual vemos o querer-viver schopenhauriano - é inevitável que surjam todo tipo de "bizarrices", isto é, de formas de vida que se desviem, de todas as formas possíveis e imagináveis, do "arquétipo da normalidade".

Chegado nesse parágrafo, está na hora de falar sobre o indivíduo, o outro componente da nossa dicotomia analítica. Como eu já adiantei, a primeira ressalva a se fazer é eliminar a concepção de um indivíduo pronto e acabado, que se constituiria numa espécie de coisa em si. Já falei sobre isso no capítulo XCIX. No limite, o que eu deveria fazer é simplesmente abolir a palavra "indivíduo" e substituí-la por uma mais adequada à realidade (talvez "sujeito"). Mas infelizmente eu, até o presente momento, não encontrei um substituto adequado [1]. O indivíduo, longe de ser uma coisa em si, é, ele também, um processo, e um processo resultante de uma conjunção de fatores materiais, biológicos, sociais, culturais, etc. Longe de ser uma unidade (algo "indivisível") o indivíduo, semelhantemente ao átomo, é um amontoado de determinações e sobredeterminções (isto é, uma causação dialética), construído num processo multidirecional e cumulativo, sujeito a "imperfeições" e contingências. Já aqui vislumbramos porque eu coloco a "culpa" na sociedade: pois o indivíduo, a rigor, não existe como unidade; como ele pode ser "responsável" se ele próprio é uma construção social?

O indivíduo é dotado de instintos, volições, necessidades biológicas: todas essas características são legadas pela natureza, dizem respeito à sua animalidade no sentido estrito. O indivíduo, porém, também é dotado de linguagem, de imaginário, de discurso do mundo (discurso do real e do ideal - ver capítulo XCVI), de convicções, de memórias do seu passado e de expectativas quanto ao seu futuro (e também quanto ao futuro da coletividade). Essas últimas características das quais o indivíduo é dotado não lhe são legadas pela natureza, ao contrário, são todas elas, a começar pela linguagem, construções sociais, históricas. Chamaremos de "processo de individuação" o processo de construção do próprio indivíduo, o processo dialético cumulativo e multidirecional no qual o legado da natureza (material genético) interage com o legado social (ambiente) na formação de uma individualidade, de uma ilusão de unidade relativamente estável. Esse processo leva anos e, a rigor, pode nunca ser concluído. É claro que o processo de produção da "pessoa comum" não pode se arrastar indefinidamente: o processo de individuação precisa ser concluído, nem que a custo da própria realização individual, porque essa pessoa precisa cumprir suas tarefas no processo de reprodução social. No caso da "pessoa comum" essas tarefas se resumem, na sociedade capitalista em que vivemos atualmente, a três: trabalhar (produzir mais-valia), consumir (realizar mais-valia) e se reproduzir (reproduzir o indivíduo, criar novos trabalhadores e novos consumidores). Já falamos antes sobre a "rotina circular trabalho-família-consumo conspícuo-entretenimento-religião" (capítulos XCV e CVII) que preenche a vida das "pessoas comuns", rotina na qual elas andam hipnoticamente tal hamster na roda. Ora, já vimos o papel social do trabalho e da família. Mas qual é o papel da indústria cultural (fornecedora, em geral, do entretenimento), do consumo conspícuo e da religião? O seu papel básico é propiciar a catarse individual e coletiva necessárias para a estabilidade das psiques individual e coletiva (ver capítulos com o marcador "indústria cultural/cultura de massas"). Noutras palavras, trata-se de muletas existenciais, de lubrificantes sociais, de instrumentos de alienação e hegemonia. Essa função catártica de forma alguma é algo supérfluo, um luxo. Pelo contrário, ela é essencial para conferir ao indivíduo - um ser tão fraco, limitado, desesperado, ignorante, hedonista, mas, ao mesmo tempo, tão necessário ao processo de reprodução social - um mínimo ilusório de consistência, de sentido, de unidade. Sem esse processo catártico, o indivíduo ou desmoronaria ou se rebelaria contra o sistema, nos dois casos colocando em xeque o processo de reprodução social. Além da função catártica, a indústria cultural tem por função difundir os discursos hegemônicos, reproduzindo assim permanentemente o processo de socialização (do qual falaremos a seguir), e mantendo assim os indivíduos como consumidores compulsivos, eleitores dóceis e trabalhadores produtivos, além de renovar a cumplicidade que os mesmos têm para com o establishment (que inclui, inclusive, a decisão de ter filhos, além da decisão diária aceitar a cumplicidade com a reprodução do status quo). Essa decisão de renovação da cumplicidade é tão essencial para a reprodução social que o processo de socialização trabalha para "automatizá-la", ou seja, para torná-la completamente inconscientes e, portanto, fora de qualquer reflexão ou senso-crítico: a sociedade é mais importante que a autonomia do indivíduo (e aqui o meu discurso se aproxima do de Durkheim). Com relação à reprodução, lembrei da forma ingênua que se refere a ela o manifesto do Movimento de Extinção Humana Voluntária: "Fazer bebês parece ser um ponto cego na nossa percepção de vida" - comparar isso com o § 60 d' O mundo como vontade e como representação.

Além do processo de individuação, outro processo simultâneo (os dois processos se interpenetram e se relacionam dialeticamente) é o processo de socialização, o qual tem por função ajustar o indivíduo construído (ou em construção) à sociedade, de tal forma que ele coopere com o processo de reprodução social. Esses processos são simultâneos; a rigor a própria construção da individualidade é norteada pelos interesses do processo de reprodução social. Novamente, vemos, sob esse meu ponto de vista, como é ingênua a tentativa de "culpar" o indivíduo: como ele pode ser "culpado" se ele é uma criação social, se (como eu disse mais abaixo no capítulo VII) é "o sistema que cria cada indivíduo em si (no seu seio), por si (pelos seus mecanismos) e para si (para transformá-lo em parte do processo (re)produtivo)"?

Remeto aqui aos capítulos XXXII e LIII, nos quais eu falei do "processo de domesticação" o qual é basicamente o mesmo processo que agora eu estou chamando de "processo de socialização": trata-se do processo de domesticação do animal humano e da sua integração ao processo reprodutivo social. Remeto também ao livro O processo civilizador de Norbert Elias, que relata esse processo com uma bela riqueza de exemplos retirados dos manuais de etiqueta publicados na Europa a partir do século XIII. Só para se ter uma idéia do que eu estou dizendo: manuais de etiqueta da Idade Média diziam explicitamente (sem eufemismos) que as pessoas (e lembremos que naquela época só os nobres sabiam ler, portanto já estamos falando das pessoas mais qualificadas da época) deveriam usar lenço, e não se limpar nas roupas (que, aliás, quase nunca eram lavadas), que não deveriam comer o muco nasal e o escarro, e, mais incrível, que após defecar (lembremos que na época não existiam banheiros (o Palácio de Versalhes, p.ex., não tem nenhum) e as pessoas defecavam nas ruas, muros, escadas, etc.) as pessoas não devem pegar nas mãos o "material mal-cheiroso" (fezes) e mostrar aos demais! Hoje em dia (às luzes da civilização), qualquer conduta desse tipo só pode ser vista em hospícios (além é claro dos clubes de sado-masoquismo, nos quais, inclusive, se pratica aquele que, para mim, é o maior tabu criado pelo processo civilizador: a coprofagia (a propósito, eu desconfio - e isso é um achismo meu, pois não estudei o assunto o bastante - que as manifestações coprofágicas em adultos, inclusive como uma "forma de sexo" (parafilia), são causadas, em parte, pelo próprio processo civilizador, quando ascendem à consciência impulsos reprimidos violentamente na infância, uma manifestação de uma espécie de fixação sobreposta das fases oral e anal.)) (Para verificar uma ordem divina à coprofagia, ver Ezequiel 4:12.). Mas o que me cabe salientar aqui, e é esse o caráter trágico desse processo civilizador, é que todo o progresso histórico que a humanidade levou séculos para acumular precisa ser introjetado, como "natureza", em poucos anos pelas crianças: obviamente essa introjeção só pode ocorrer mediante a violência, o que, por sua vez, gera um grande volume de conteúdos reprimidos e recalcados. Novamente vemos que, se pretendemos "garimpar o recalcado", não devemos olhar para o indivíduo "acabado" (construído), mas para o processo social de formação da individualidade e de socialização. Novamente sinalizamos que a "responsabilidade" pela angústia individual deve ser buscada na sociedade, e não no indivíduo.

Todos esses processos são ignorados pelo indivíduo que, em seu narcisismo, irá elaborar um discurso no qual seu "defeitos" (assim definidos em relação à "pessoa comum") lhe aparecem como qualidades - e isso como juízo de valor, ou seja, da mesma forma que ele se sente acusado de ser um defeituoso (de ser inferior ao modelo de "perfeição") ele, igualmente, se defende (reage) elaborando uma argumentação na qual o que é considerado defeito pelos outros é considerado por ele como qualidade, ou seja, como superioridade frente aos demais (e, principalmente, frente à "pessoa comum"). Eis um exemplo típico disso: http://www.orkut.com.br/Main#Community?cmm=208540

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Devido à coerção decorrente do controle de qualidade, as certezas do indivíduo quanto a correção de sua constituição podem ser colocadas em dúvida, não obstante ele "sinta", pelo já explicado, que ele está certo e que não merece castigo por sua situação, pela qual, aliás, ele geralmente não é responsável, cabendo-lhe tão somente aceitá-la e afirmar a sua vida dentro das possibilidades que lhe foram fornecidas pelo próprio sistema (isso é, uma facticidade) com o qual agora ele está em conflito justamente em função dessa afirmação que acaba por ser a essência tanto de cada indivíduo, quanto da sociedade, bem como cada uma de suas instituições. Dessa forma, os indivíduos vivem como problemas individuais o que são na verdade problemas sistêmicos; isso por que a ideologia oficial assim trata esses problemas, a fim de eximir o "sistema" das suas responsabilidades - a "responsabilidade" pelos problemas sistêmicos é cobrada de suas vítimas.

Após apresentarmos a "sociedade" ("processo de reprodução social") e o "indivíduo" ("processo de individuação e processo de socialização"), podemos usar essa categorias para entender como os desajustamentos "naturais" e inevitáveis desses processos redundam em todo tipo de "resíduos", inclusive manifestando-se como angústia existencial individual. O que eu busco advogar aqui é que essa angústia é fruto de falhas nos referidos processos, o que por sua vez implica no desajustamento social do indivíduo que, por isso mesmo, se angustia, se deprime, se rebela, se suicida, assassina os outros, etc. É essencial repetir aqui: as ideologias dominantes transformam problemas sistêmicos em problemas individuais, purgando assim o sistema de qualquer responsabilidade. A própria psicanálise, por ignorar as determinações estruturais e superestruturais (conceitos marxistas), é muito usada, principalmente na França, na legitimação dessas ideologias.

Mas as ideologias dominantes - todas elas comprometidas com a forma estabelecida (o establishment) do processo de reprodução social e, portanto, com o processo de produção do "indivíduo normal por excelência" - negam qualquer "responsabilidade" do sistema, e apressam-se em jogar toda a culpa pelo desajustamento social do indivíduo sobre ele mesmo, a fim de purificar a imagem do sistema, eximindo-o de qualquer mácula. Recusam-se a ver, porém, que o indivíduo é uma construção social.

Por mais que a sociedade lhe rotule como doente, o indivíduo, em seu narcisismo - e vale lembrar aqui se os seus "defeitos" são, também eles, apropriados na construção de sua individualidade, na construção da sua ilusão de unidade apriorística - , se esforça para negar o caráter defeituoso (juízo de valor depreciativo) dessas suas características que fogem ao modelo de "perfeição". Instala-se, assim, um conflito entre o indivíduo e a sociedade.

Faz-se necessário esclarecer o que eu quis dizer com "(...) dessa afirmação que acaba por ser a essência tanto de cada indivíduo, quanto da sociedade, bem como cada uma de suas instituições". A sociedade (primeiro a bárbara, depois a civilizada) é um estágio mais avançado da afirmação do querer-viver da espécie humana - mais avançado no sentido em que viabiliza uma expansão quantitativa e qualitativa da vida do animal humano sobre o restante na natureza. O predatismo humano sobre a natureza é tão natural quanto a reprodução de qualquer forma de vida. A sociedade (e antes: a combinação de telencéfalo altamente desenvolvido com polegares opositores) é uma nova estratégia da espécie humana para o recrudescimento da sua afirmação do querer-viver – para a sua tentativa de vitória, de hegemonia, na “guerra eterna”. Assim como Schopenhauer insiste na soberania da espécie sobre o indivíduo, o mesmo vale para a sociedade com relação ao indivíduo: embora a dinâmica social tenha como motor a mesma dinâmica instintiva natural (animal) do indivíduo, a instintividade individual deve curvar-se aos interesses sociais (e, em última instância, da espécie) – e o processo de socialização trabalha no sentido de permitir ao indivíduo aceitar alegremente essa situação. A tendência à reprodução infinita e ao predatismo é a mesma já encontrada na primeira molécula auto-replicante que surgiu na Terra há cerca de 3,5 bilhões de anos, da qual descendem todas as formas de vida. Evidentemente que uma reprodução descontrolada ao infinito não é a melhor estratégia evolutiva: para um parasito, a melhor estratégia evolutiva é aquela que mantém o hospedeiro vivo e permite assim sucessivos ciclos de reprodução do parasito. Para um predador, a destruição completa dos predados seria a sua morte. De forma análoga, a sociedade, embora seja impulsionada pelas mesmas pulsões básicas do indivíduo, possui mecanismos de regulação dessas pulsões, para garantir a sua sobrevivência a longo prazo: o predatismo humano sobre a natureza e a exploração do homem pelo homem precisam ser sustentáveis para não acabarem consigo mesmos (aliás, a sustentabilidade (dinâmica e dialética) faz parte do conceito marxista de reprodução, e, por que não dizer?, do conceito de natureza também). Ora, esses mecanismos sociais de regulação aparecem, para o indivíduo isolado, como (já adivinhou?) forças coercitivas repressoras e manipuladoras/conformadoras da instintividade individual - o indivíduo deve se conformar aos imperativos coletivos (podemos, por exemplo, imaginar Jeová e suas ordens repressivas como uma simbolização patriarcal do querer-viver coletivo sobre o individual). Essas forças coercitivas, por sua vez, geram conteúdos recalcados, os quais, por sua vez, implicam em angústia. Quando o indivíduo, ao longo dos processos de individuação e de socialização, consegue aceitar essas regras do jogo, ele se torna alguém “ajustado” ao sistema. O desajustado é aquele que, por uma série de contingências ("falhas" nos processos), mantém-se num estado de conflito e não-aceitação desses “fatos da vida”.

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Instala-se no indivíduo – reduzido ontologicamente, pelo irracionalismo pós-moderno, a um mero feixe de sensações hedonistas – , portanto, um conflito entre a afirmação, proveniente de seu mecanismo de auto-preservação e de auto-afirmação, e a negação, proveniente dos mecanismos de auto-preservação e de auto-afirmação da sociedade – a qual, aliás, encontra-se constitutivamente transpassada por uma cultura de pulsão de morte – , dessas características anômalas de sua constituição. Características que, se se multiplicarem dentro do sistema, levá-lo-ão ao colapso, dada a sua estruturação e dadas as condições materiais de (re)produção. O rebelde, portanto, não passa de um desajustado. Aquele que está ajustado não conhece o descontentamento contra o sistema que cria cada indivíduo em si (no seu seio), por si (pelos seus mecanismos) e para si (para transformá-lo em parte do processo (re)produtivo).

Cabe esclarecer a afirmação de que "o rebelde não passa de um desajustado". Novamente, não há aqui juízo de valor: trata-se se uma "descrição dos fatos". O que eu estou afirmando é que se o indivíduo tivesse sido produzido - pelo próprio sistema - nos moldes da "perfeição" (ou seja, como uma "pessoa normal propriamente dita"), ele se ajustaria à sociedade (que está centrada na figura da "pessoa normal propriamente dita", por isso só esse tipo de pessoa se ajusta "perfeitamente"), e, por isso, "naturalmente" não se rebelaria: aliás, nem mesmo qualquer sombra de rebelião iria ascender à sua consciência, muito menos seria aceita e trabalhada. O que quero com isso, longe de "culpar" o indivíduo taxando-lhe de desajustado é, pelo contrário, chamar a atenção para a responsabilidade que o próprio sistema tem na formação do "rebelde". No limite, e isso é tão óbvio (dado tudo o que já foi dito aqui) que eu não escrevi no capítulo VII, se o sistema fosse perfeito (tal qual os modelos matemáticos idealizados nos quais todas as decisões são otimizadas e ubíquas) simplesmente não haveria rebeldia e oposição alguma. Em outras palavras, se há rebelião, é porque o sistema é falho. Se há angústia existencial, suicídio, assassinato, suicídio mental, etc., é porque o sistema - a sociedade - é falho. Essa falha, porém, só existe quando confrontada com um ideal, com um imaginário utópico - o qual, todavia, é instigado, em parte, pelo próprio sistema como parte da educação individual e do ajustamento do indivíduo médio aos ditames coletivos, ou seja, como discurso ideológico (de legitimação do establishment).

É também conveniente salientar que a "rebeldia" não é conseqüência necessária da inteligência, se o fosse, não existiriam intelectuais de direita. Ora, esses intelectuais de direita estão ajustados ao atual sistema de dominação - que se subsume ao processo de reprodução da vida social, até o ponto em que um se confunde com o outro, e a exploração do homem pelo homem parece tão natural e inevitável quanto a própria afirmação do querer-viver (há aqui ecos do conceito marxista de ideologia e do conceito gnóstico de sístase) - , e por isso dedicam-se a defendê-lo. Inteligência não é o bastante para ter-se um rebelde; é preciso antes de tudo ter desajustamento.

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O referido conflito no indivíduo causa-lhe frustração e pode, se não administrado corretamente, levá-lo a atitudes desesperadas, geralmente no sentido de reprimir, ou mesmo suprimir, o seu processo de vida. Por mais perspicaz e ardiloso que seja o indivíduo, ele não é forte o bastante para vencer a sociedade.


As engrenagens da sociedade são lubrificadas com sangue, com suor, com lágrimas e com sonhos frustrados.


Esse conflito entre indivíduo e sociedade, em torno da afirmação de características individuais "anômalas", gera angústia, rebelião, e pode terminar em tragédias, ou num embotamento permanente do indivíduo "defeituoso" que se retrai em sua depressão e vai definhando até a morte: mais uma vida perdida, mas o sistema (de reprodução e de exploração) está ileso (aleluia!).

Todavia, eu não pretendo adotar uma postura fetichista de reificação da sociedade. É preciso reconhecer que a sociedade, por mais que se imponha como um poder externo às pessoas (ao qual elas devem se curvar) é produzida e reproduzida permanentemente pela próprias pessoas e, supostamente, para as próprias pessoas (certamente bem mais para umas do que para outras...). Como o processo de reprodução social é permanentemente reconstruído, há sempre espaço para mudança e, a priori, há espaço para que as pessoas atuem no sentido de se emancipar, como coletividade, das mazelas e insuficiências da sociedade atual.

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Subjacente ao discurso do real aqui apresentado, é perceptível um discurso do ideal que anseia por um sistema que funcione perfeitamente ao mesmo tempo em que emancipe o indivíduo, conferindo-lhe autonomia ("liberdade" - eu não gosto de usar essa palavra) - que anseia por "um novo céu e uma nova terra" (Apocalipse 21: 1). Ora, o presente reconhecimento da impossibilidade de, no atual estágio da civilização, levar a termo esse projeto utópico não será, por mim, usado para justificar o comodismo diante do establishment. Continuarei a apoiar as lutas emancipatórias. Como diz José Teixeira Coelho Netto ao fim do livro O que é utopia: "Muito difícil tudo isso? Impossível concretizar o programa ditado pelo princípio do prazer? Nem tanto. A imaginação utópica é muito realista nesse ponto; para ela, o impossível é o mínimo a exigir."


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[1] Acrescentado em 24/01/2011: Eis o substituto adequado para indivíduo: multivíduo. Como não pensei nisso antes? Eu não pensei. Eu li penúltimo parágrafo do livro Fetichismos visuais: Corpos erópticos e metrópole comunicacional (de Massimo Canevacci): "Avatar é a metamorfose de um multivíduo mimeticamente incorporado aos fetiches digitais."

Doravante, usarei em meus textos (e pensamentos) o multivíduo como substituto do indivíduo - o qual está, agora, morto e enterrado.

O multivíduo possui uma dividualidade, mas não possui uma identidade, ou uma unidade. Ele é um sistema interativo e mutante de unidades, de identidades, de eus. Ele só possui uma unidade no sentido de aglomerado de fragmentos distintos e conflitantes. O multivíduo é legião.




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Tempore, quo cognitio simul advenit, amor e medio supersurrexit.

9 comentários:

Duan Conrado Castro disse...

Espero que a palavra "processo" tenha ficado bem enfatizada nas suas 80 repetições ao longo do texto. De certa forma a minha teoria social parou no século XIX, por dar privilégio ao processo e não à estrutura. Mas ela, pelo menos, já está à frente do senso comum.

Gabriel P. Kugnharski disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Gabriel P. Kugnharski disse...

Embora vá parecer controverso, eu concordo com boa parte do que você disse aqui. A minha tentativa de deslocar a culpa pela angústia da sociedade para o indivíduo é reflexo de uma atitude muito constante na minha vida - a de me responsabilizar por tudo, inclusive por aquilo que está fora do meu alcance, com a intenção de que eu possa me sentir no controle de tudo, capaz de modificar até aquilo que não depende das minhas ações. Afinal de contas, a minha atitude eu posso mudar, a dos outros, não.
Ou seja, ainda que eu concorde que a culpa se origina na sociedade (ou sistema), e não no indivíduo, prefiro tratar a angústia como produto de uma falha minha pois assim tenho condições para saná-la (ainda que apenas parcialmente), diferentemente do que ocorreria se eu colocasse constantemente a culpa na sociedade, e assim eu deveria esperar pelo momento em que a sociedade deixasse de agravar seus próprios problemas e passasse a resolvê-los de fato, coisa que eu penso que nunca irá ocorrer. Claro que a solução pela qual eu optei é a curto prazo, e a solução definitiva, a longo prazo, só poderia ser obtida com a transformação do sistema, e imagino que você concorde com isso.
Ainda que você diga: "mas você é parte da sociedade!" Sim, sei disso, concordo que uma solução efetiva para nossa condição deva ser buscada no âmbito social, e não no pessoal, mas como depende de muito mais gente, é mais árduo, mais trabalhoso, etc., é cômodo que eu continue com o projeto de tratar das minhas próprias angústias. Afinal de contas sabemos que a situação não é favorável, e a maioria que deveria se rebelar se sente muito confortável em sua poltrona assistindo reality shows, novelas globais, sendo hipnotizado pelos produtos da indústria cultural, etc, e os "grandes", ou não se interessam por mudar o establishment porque estão bem demais para quererem alguma mudança, ou porque se beneficiam dele, ou por ambos, e você tratou bem disso tanto neste post aqui quanto no post em que fala dos insiders x outsiders.


Então sempre que digo "a culpa é minha", "só a mim cabe fazer alguma coisa", e coisas do tipo, é sempre no sentido esperançoso (não que isso faça de mim uma pessoa otimista, mas como

já te falei, meu lema é algo do tipo "já que tô vivo...") de mudar minha própria condição de ócio e negligência. Tudo isso tem uma explicação muito simples: as chances de que meus problemas se resolvam aumenta se eu colocar a incumbência de solucioná-los sobre a minha pessoa (ainda que em várias situações eu seja a "vítima", e não o "culpado" - entre aspas para me desculpar
pelo "reducionismo ontológico do terceiro excluído"(é essa expressão mesmo???)).

Gabriel P. Kugnharski disse...

Vou dar um exemplo. "Para que a vida do Gabriel fosse "feliz", ela teria que compreender os elementos x, y e z, e estes não podem ser fabricados por ele mesmo, mas apenas pelo sistema." Digamos que o elemento x corresponda a "perfeita igualdade entre homossexuais e heterossexuais". Sim, concordo que só o sistema pode se encarregar disso. Todavia, será que não há algo que eu possa fazer para melhorar a minha situação? Quando percebemos que boa parte da homofobia surge dos próprios homossexuais, por exemplo, não poderíamos falar de uma mudança de postura dos próprios homossexuais para com eles mesmos? Ainda que a "homofobia homossexual" seja pequena perante a "homofobia heterossexual", acredito que já desempenhe um grande papel nesta situação. Então eu diria assim: "há traços do elemento x que podem assumir os mais diferentes aspectos dependendo exclusivamente da vontade do INDIVÍDUO". Quer dizer, há coisas que estão ao meu alcance. Fazê-las não libertará a minha vida da vacuidade que lhe é inerente, mas me fará viver melhor, ou ao menos acreditando que estou vivendo melhor.

"Novamente, vemos, sob esse meu ponto de vista, como é ingênua a tentativa de "culpar" o indivíduo: como ele pode ser "culpado" se ele é uma criação social, se (como eu disse mais abaixo no capítulo VII) é "o sistema que cria cada indivíduo em si (no seu seio), por si (pelos seus mecanismos) e para si (para transformá-lo em parte do processo (re)produtivo)"

Engraçado que concordo com isso, e não digo isso por receio de discordar, mas porque vejo que parece mesmo verdade. Mas continua me parecendo que o discurso não acaba aí, pois há ainda uma espécie de livre-arbítrio individual (logicamente muito fraco perante os poderes hegemônicos da sociedade e até mesmo diante dos próprios instintos da natureza...), mas há este livre-arbítrio. Eu sei que certas decisões melhoram em algum sentido minha vida, enquanto que outras não. Eu sei que escrever libera tudo aquilo que está socado dentro de mim, e posso decidir escrever ou não, e ultimamente tenho decidido não escrever. Escrevendo ou não, continuarei sendo oprimido pelo sistema, mas é idiotice dizer que não fará diferença alguma, ao menos para meu cotidiano ordinário. Então há estas pequenas falhas nesta teoria, mas que na verdade não encaro como falhas, mas como complementos, ou seja, temos que juntar tudo aquilo que foi dito por você junto com muitos outros aspectos que demandariam uma análise mais trabalhosa.

Gabriel P. Kugnharski disse...

Talvez você esteja pensando assim: "Bacana Gabriel, você quer manter sua teoria e aliá-la com a minha sendo que ambas são opostas". Mas não é bem assim, e acho que este é um dos milhões de exemplos de uma situação em que não há uma simples dicotomia, não é simplesmente a (1) "teoria que deposita a culpa pela angústia na sociedade" x (2) "teoria que deposita a culpa pela angústia no indivíduo", mas há, senão outras teorias possíveis, ao menos um desdobramento destas duas e também um entrelaçamento entre elas. Há responsabilidades individuais e responsabilidades sociais, comunitárias.

"Novamente vemos que, se pretendemos "garimpar o recalcado", não devemos olhar para o indivíduo "acabado" (construído), mas para o processo social de formação da individualidade e de socialização. Novamente sinalizamos que a "responsabilidade" pela angústia individual deve ser buscada na sociedade, e não no indivíduo."

Novamente concordo. Devemos de fato olhar para o "processo social de formação da individualidade e de socialização" e responsabilizá-lo. Mas, e depois? Ao buscarmos uma solução prática, o que devemos fazer? Em termos de sociedade, o que nos é possível fazer? Rebeliões, greves, protestos, eleições democráticas... Estes talvez sejam os verdadeiros meios de se mudar alguma coisa, na medida em que eles abrangem a sociedade como um todo, e não apenas o indivíduo. Mas, como falei, prefiro buscar a solução por mim mesmo ao invés de ficar
esperando a ajuda dos outros.

"É essencial repetir aqui: as ideologias dominantes transformam problemas sistêmicos em problemas individuais, purgando assim o sistema de qualquer responsabilidade. "

Concordo. E a minha tentativa particular de caracterizar minhas angústias como provenientes de atitudes minhas acaba também por isentar o sistema da culpa que ele originalmente possui, e não tenho mesmo como negar isso.

Gabriel P. Kugnharski disse...

Curioso que não havia até então pensado muito a fundo sobre isso. Na sociedade há de fato esta ideia de responsabilizar-se totalmente pelas próprias atitudes, não culpar o sistema, trabalhar bastante, ser escravo do sistema mas não reclamar pois reclamar e culpar o sistema é uma atitude idiota já que, aqueles individuos que trabalham e suam bastante conseguem o que querem(a velha falácia de que todas as pessoas bem-sucedidas do mundo se encontram na situação que merecem e os mal-sucedidos também, tanto porque os primeiros trabalharam e os segundos não como porque era o destino dos primeiros estar por cima e o destino dos segundos estar por baixo), e assim não há injustiças reais, pois todo aquele que quer, consegue. Isso é muito
difundido na minha família, sobretudo no lado paterno.

Assim eu sinalizo a possibilidade de que em seu esquema haja uma saliência (e a psicanálise estaria a meu favor, imagino), que pode ser controlada apenas pelo próprio indivíduo, apesar do poder massacrante do sistema sobre ele. Por que eu aposto na existência desta saliência? (que funcionaria mesmo como um esconderijo). Dá pra dizer que eu aposto cegamente, e de fato, o que eu penso é "ainda que não haja esta saliência, é melhor para nossa situação que pensemos que há", da mesma forma como eu penso que "mesmo que haja o destino, não haja qualquer tipo de livre-arbítrio e consequentemente todas as nossas atitudes sejam predeterminadas, ainda assim é melhor que pensemos que não há o destino e que podemos decidir sobre nossas ações." Quais as evidências pra isso? Não sei. Você vai argumentar talvez que esta saliência possibilita que as pessoas continuem preguiçosas e narcisistas, certo? De fato, me parece que isso é possível sim, mas quem sabe seja um mal necessário já a que solução conjunta é distante e difícil (ainda que não utópica). Já que não parece que um dia haverá alívio para todos, que pelo menos cada um busque alívio individual. Como sempre haverá uma vontade insaciável, nem um pouco ética dentro de cada um de nós e como é impensável uma sociedade aonde prevaleça a justiça e a tolerância, que pelo menos cada um busque aquilo que alivia suas dores e lhe faz suportar heróicamente e dignamente os problemas da vida. E a minha intenção ao escrever este texto era esta, a de apontar falhas em minhas atitudes que só estavam agravando a minha situação, já grave pelas consequências do sistema.

"Por mais perspicaz e ardiloso que seja o indivíduo, ele não é forte o bastante para vencer a sociedade."

Concordo mais uma vez.
Todavia, queria apenas chamar a atenção para o fato de que devemos ter cuidado ao ler esta sua afirmação (e outras de mesma natureza ao longo do texto) pois ela pode fornecer a imagem errônea de que a sociedade é algo como uma entidade separada e distinta do indivíduo e que opera com um poder sobre-humano, sendo que ela é na realidade a reunião de muitos destes indivíduos e de suas vontades (falando isso me vem à mente a imagem do leviatã que Hobbes usa em sua teoria da soberania), e portanto ao responsabilizarmos o sistema, estamos responsabilizando a todos e a nós mesmos (com bastante ênfase a minoria, por oprimir a maioria, mas TAMBÉM a maioria, por deixar-se oprimir).





Mas enfim. Ótimo texto, de fato um dos melhores que li em seu blog.

Duan Conrado Castro disse...

"(...) e imagino que você concorde com isso."

É, concordo sim.

"(...) é cômodo que eu continue com o projeto de tratar das minhas próprias angústias."

Sou obrigado a concordar e a admitir que é para esse tipo de atitude que eu ando me encaminhando nas últimas semanas, que, aliás, estão sendo uma espécie de "clímax" da minha novela existencial - talvez um anticlímax.

"(...) de mudar minha própria condição de ócio e negligência."

De fato as nossas "condições existenciais" são, nesse aspecto (e em tantos outros), bem diferentes. Eu tenho certeza que "sempre fiz o melhor", logo não consigo jogar a "culpa" em mim mesmo: eu sou alguém disciplinado demais para poder me acusar de negligente, preguiçoso, ou "inoperante" (como aquela comunidade de Orkut da qual você participa). O único problema de "indisciplina" que eu tenho é em conseguir manter um sono regular de 8 horas (o ideal seria até menos) por noite. Assim mesmo, vivo num estado de "guerra eterna" contra mim mesmo para tentar resolver isso.

"Tudo isso tem uma explicação muito simples: as chances de que meus problemas se resolvam aumenta se eu colocar a incumbência de solucioná-los sobre a minha pessoa (ainda que em várias situações eu seja a "vítima", e não o "culpado" - entre aspas para me desculpar pelo "reducionismo ontológico do terceiro excluído"(é essa expressão mesmo???))."

Sim, sim, sou obrigado a concordar com tudo...e com todo o resto. Farei uma declaração "fatal": de certa forma nem eu mesmo acredito no que eu escrevi ai em cima (KKKKKKKKKKKKKK), mas eu senti o impulso de escrever. Escrevi o texto para "me livrar dele", como vc mesmo disse lá no seu texto. Não que eu ache que tudo o que eu disse é mentira, mas eu sinto que FALTA ALGUMA COISA, esse texto é, de alguma forma, parcial demais. Mas eu não sei o que está faltando.

De certa forma eu usei as epígrafes do Bourdieu e do Powell para já adiantar uma crítica ao que eu mesmo escrevi.

"(...) há ainda uma espécie de livre-arbítrio individual "

Sim, comparar com as epígrafes de Bourdieu e Pawell e com o que eu escrevi no último parágrafo.

"(...) ou seja, temos que juntar tudo aquilo que foi dito por você junto com muitos outros aspectos que demandariam uma análise mais trabalhosa."

Pois é. E eu ando cada vez menos disposto a análises mais trabalhosas...embora esse cap 112 tenha sido um dos mais longos e mirabolantes do blog.

"Talvez você esteja pensando assim: "Bacana Gabriel, você quer manter sua teoria e aliá-la com a minha sendo que ambas são opostas"."

Na verdade eu nem sei o que estou pensando (e cada vez sei menos...). Realmente não espero que a sua concepção seja simplesmente abandonada e substituída pela minha.

"Mas, como falei, prefiro buscar a solução por mim mesmo ao invés de ficar esperando a ajuda dos outros."

Pois é. O fato é que, como eu já disse, eu mesmo estou me encaminhando para fazer isso também. Mas o fato é que o meu "clímax existencial", como eu disse acima, ocorreu DEPOIS que eu escrevi esse texto EM ABRIL desse ano (e realmente eu estou surpreso em como minha opinião mudou em apenas quatro meses). Esse é o problema de eu escrever os textos do blog com meses de antecedência: quando eu posto eles, eles já não correspondem mais exatamente ao que eu penso...hehehe.

Duan Conrado Castro disse...

"Concordo. E a minha tentativa particular de caracterizar minhas angústias como provenientes de atitudes minhas acaba também por isentar o sistema da culpa que ele originalmente possui, e não tenho mesmo como negar isso."

Ótimo, então chagamos a alguma espécie de síntese! Admito que rolou uma "irritação" da minha parte com a "alienação política burguesa" do seu texto...mas não nego que você tem razão no que diz respeito que cada um precisa se responsabilizar por si mesmo. É como diz o existencialismo: "o que você vai fazer com aquilo que fizeram com você?" Ficar culpando um "Outro" certamente não vai resolver nada. Porém, seria alienação política simplesmente isentar a sociedade de culpa, como se vivêssemos num mundo perfeito e o indivíduo "anormal" simplesmente tivesse sido criado em Marte e tivesse acabado de chegar à Terrra. Agora, tomar a decisão de lutar num movimento de massas pela emancipação humana é uma decisão - convenhamos - abnegada e "heróica" demais (além de "fora de moda"), que nem eu estou, depois dos recentes acontecimentos na minha vida, disposto a tomar.

"Isso é muito difundido na minha família, sobretudo no lado paterno."

Pois é...eu já imaginava. No marxismo isso é conhecido como "consciência de classe". Se eu penso diferente, é justamente porque na minha "classe" há uma cultura de crítica e alguma rebelião. Fico feliz em ter "corrompido" você..., ao menos parcialmente.

"Já que não parece que um dia haverá alívio para todos, que pelo menos cada um busque alívio individual."

Novamente me vejo - contra o meu espírito heróico e utópico - a dar-lhe razão...e isso lembra o que eu disse nos comentários do cap. 111 (novamente, após o dito "clímax existencial"):

"Sim, depois de muito me debater tentando em vão não aceitar a realidade como ela é, eu estou atualmente me encaminhando exatamente para aquilo que você descreveu: para uma vida de resignação focada não na verdade sistêmica ou na transformação social, mas sim na paz de espírito, na minimização da dor pessoal. Agora eu reconheço que sou incapaz de tornar o mundo melhor. Se eu conseguir tornar o meu mundo melhor, já terei feito quase um milagre."

Em resumo, concordo com tudo que você disse, e aparentemente não tenho nenhum "porém" a apresentar.

Gabriel P. Kugnharski disse...

"Não que eu ache que tudo o que eu disse é mentira, mas eu sinto que FALTA ALGUMA COISA, esse texto é, de alguma forma, parcial demais. Mas eu não sei o que está faltando."

Bom, não acho que se falta alguma coisa, isso é capaz de desqualificar seu texto, e na verdade o meu Adornianismo me diz que é excelente caso seu texto realmente seja desprovido de alguma coisa, pois significa que ele não fecha a discussão, mas a estimula.

"alienação política burguesa"
haha, eu sou bem menos burguês do que você pensa (embora eu não trabalhe). Por exemplo: passo anos sem comprar roupas, tênis... Não compro livros, limito-me a emprestá-los na biblioteca. Me limito a gastar meu pouco dinheiro com cafés na faculdade e boa comida de vez em quando, e passagens de ônibus. No fim das contas eu sou um filho bem econômico.

Mas tá, eu entendi que você falou isso neste caso aqui em relação a visão de mundo que você supôs que eu tinha quando leu meu texto.