
Pessimismo: "Filosofia: Caráter das doutrinas metafísicas ou morais que afirmam a supremacia do mal sobre o bem e costumam levar à adoção de uma atitude em geral de escapismo, imobilismo, ou conformismo, seja o mal considerado a privação dos meios de conservação da vida (alimentos, abrigo, etc.) quer seja considerado a privação dos meios de expansão espiritual (Opõe-se a otimismo)." (Novo Dicionário Aurélio da língua portuguesa, 3° edição, Editora Positivo, 2004)
Fora Schopenhauer, não conheço ninguém que seja explicitamente pessimista. Não obstante, para minha surpresa, há "schopenhaurianos" que negam que ele seja pessimista.
A maioria das pessoas tem uma aversão instintiva ao pessimismo. Daí que, para elas, ninguém que tenha contribuído para o patrimônio cultural da humanidade possa ser considerado um pessimista. O pessimismo, para elas, está, por definição, para sempre irreconciliado com qualquer virtude humana. O gênio, pensam elas, como um representante do que a humanidade tem de melhor, simplesmente não pode ser pessimista. Agora em pergunto: QUEM é pessimista então, se Schopenhauer não é? Aparentemente, apenas pode ser chamado de pessimista alguém que não tenha deixado qualquer contribuição cultural para a humanidade. Ora, não é pessimista alguém que escreve um filosofia defendendo a "negação do querer-viver"?, alguém que afirma, no último parágrafo de sua obra principal (Tomo I, § 71) que "reconhecemos que o fenômeno da Vontade, o universo, é apenas dor irremediável e miséria infinita"? Francamente...
O pessimismo é um tabu. Para a maioria das pessoas, o otimismo é quase tão sagrado quanto o é o seu deus: é que ambos são identificados com a afirmação do querer-viver, com a justificação do establishment e da atual condição humana. Negá-los seria negar a vida, o que é, para a pessoa comum (para a pessoa cega pela vontade de vida), uma covardia: daí o desprezo instintivo da "pessoa comum" pelo ateu e mais ainda pelo ateu pessimista: eles são fracassados e pretendem transformar a vida toda - essa maravilha orgástica - num fracasso; por que eles não se matam de uma vez? Não surpreende que o judaísmo e o protestantismo fiquem festejando esse mundo como a obra bem sucedida de um ser onisciente e justo.
Vou tentar mostrar que Schopenhauer não só era pessimista como se considerava um pessimista; não só se considerava um pessimista como criticava abertamente o otimismo.
"Panteísmo é necessariamente otimismo, e por isso é falso." (capítulo V de Parerga e Paralipomena, publicado na coleção Os Pensadores, volume Schopenhauer, editora Nova Cultural, ano 2005, página 241.)
Ora, se algo é falso por ser otimismo, então o que Schopenhauer considera verdadeiro? O pessimismo! Eu poderia parar por aqui, mas nós vamos longe com isso...
"Não posso, porém, dissimular aqui a minha opinião: é que o otimismo, quando é um puro palavreado privado de sentido, como acontece nessas cabeças vazias onde se alojam apenas palavras, é pior do que um modo de pensar absurdo: é uma opinião realmente ímpia, uma zombaria odiosa, em face das inexprimíveis dores da humanidade. Mas não se pode pensar que a fé cristã é favorável ao otimismo; muito pelo contrário, nos Evangelhos, o mundo e o mal são considerados quase como sinônimos." (O mundo como vontade e como representação, Tomo I, §59 (no final)).
De novo, não está ele aqui dizendo que ele e os Evangelhos são pessimista (pressuponho que você conheça as opiniões favoráveis que ele tinha a respeito dos Evangelhos e do Budismo)?
"O pelagianismo é o esforço desfazer o cristianismo voltar ao judaísmo grosseiro e trivial e ao seu otimismo." (A arte de insultar, p. 125, editora Martins Fontes, 2005)
De novo: ele se mostra favorável ao otimismo aqui? Ou otimismo é para ele uma palavra pejorativa?
Você deve conhecer a frase "tudo não está bom, tudo está o melhor possível". Essa frase é de Leibiniz, um filósofo otimista. Na sua época, Leibiniz recebeu de Voltaire uma resposta para essa sua frase: o livro "Cândido, ou o otimismo". Nesse livro há um filósofo, Panglós, que diz a mesma frase de Leibiniz. Depois de muito sofrimento, Panglós admitiu que estava errado. Esse é um livro pessimista.
Em provocação a Leibiniz, Schopenhauer diz o seguinte:
"O mundo é o pior dos mundos possíveis." (A arte de insultar, p. 117 editora Martins Fontes, 2005)
Diz também, no mesmo livro e na mesma página:
"O mundo é mesmo o inferno, e os homens são, por um lado, as almas atormentadas e, por outro, o demônio que nele habita."
Diz também, no mesmo livro e na mesma página:
Deve-se dar razão a Aristóteles quando ele diz: "A natureza é demoníaca, não divina [ cf. De divinatione per somnum 2, 463 a 14-15]. Poderíamos traduzir: "O mundo é o inferno". [Alguma semelhança com "Nature is Satan's church." do filme Anticristo de Lars von Trier?]
Diz também, no mesmo livro e na mesma página:
"Se quiséssemos conduzir o mais obstinado otimista [de novo se refere ao otimista como alguém que está errado, logo, de novo, deixa claro que ele se identifica com o pessimismo] por hospitais, lazaretos e câmaras de martírio cirúrgicas [na época dele as cirurgias eram realizadas sem anestesia], por prisões, câmaras de tortura e estábulos de escravos, passando por campos de batalha e tribunais, depois abrir-lhe todas as moradas da miséria, onde esta se esconde dos olhares da fria curiosidade, e por fim fizéssemos com que ele olhasse dentro da torre de Ugolino, certamente ele também acabaria por entender de que tipo é esse melleur des mondespossibles." [referência a Leibiniz] [Essa passagem foi retirada do § 59 do Tomo I d' O mundo como vontade e como representação.]
Na mesma página, e na seguinte, Schopenhauer fala mais coisas sobre o mundo, todas elas do mais lúgubre pessimismo.
No § 35 d' O mundo como vontade e como representação, ele deixa claro que não acredita que o futuro da humanidade será melhor que o presente: "Já não se acreditará com o homem vulgar que o tempo possa trazer-nos qualquer coisa de uma novidade ou de uma significação reais; já não se imaginará que alguma coisa possa, por si ou em si, chegar ao absoluto, já não se atribuirá ao tempo, como um todo, um começo ou um fim, um plano e um desenvolvimento; já não lhe determinará, como faz o conceito vulgar, para objetivo final o mais alto aperfeiçoamento deste gênero humano, a última geração sobre a terra e cuja vida média é de trinta anos." [a expectativa de vida na época de Schopenhauer era muito baixa; e ainda hoje há países pobres onde a expectativa de vida é inferior a quarenta anos.]
No segundo Tomo d' O mundo como vontade e como representação ele repete a idéia de que as coisas não vão melhorar:
"Se por suas próprias forças, o tempo pudesse conduzir-nos a um estado bem-aventurado, então lá já estaríamos desde há muito tempo, pois um número infinito de séculos se estende atrás de nós. Mas se também o tempo pudesse conduzir-nos à destruição, então há muito tempo já não seríamos mais." (Tomo II d' O mundo..., capítulo XLI, disponível em português em Da morte/metafísica do amor/Do sofrimento do mundo, da editora Martin Claret, 2004, página 53)
Os § 56 a § 59 do Tomo I d' O mundo... ele tenta demonstrar (para mim de forma convincente) que toda a vida é sofrimento. Ele acrescenta novos e sombrios argumentos a essa passagem em Parerga e Paralipomena, capítulo XII, cujo título é "Contribuições à doutrina do sofrimento do mundo". (Você pode achar uma tradução desse texto na mesma edição de Os pensadores já citada aqui; pode encontrar outra em Da morte/metafísica do amor/Do sofrimento do mundo, da editora Martin Claret, 2004).
Dentre as muitas e muitas passagens pessimistas de Aforismos para sabedoria na vida, separei esta:
"Quem vê tudo negro e receia sempre o pior, tomando por isso as suas providências, não se enganará tanto quanto quem vive a dar às coisas belo colorido e risonha disposição." (quarto parágrafo do capítulo II - Daquilo que se é)
No fim do §56 do Tomo I d' O mundo...ele diz, repetido o Budismo: “Toda a vida é sofrimento.” Quero que você, se ainda tem dúvidas, me explique como isso não é pessimismo. E não adiante dizer que é por que é verdade: é você que ainda não se livrou do preconceito dos otimista de afirmar que tudo que é pessimista é mentira. Para mim, geralmente é o contrário: a verdade geralmente está do lado dos pessimistas.
No livro "A arte de insultar" (já citado acima), no verbete "nascimento" (página 119) Schopenhauer diz: "A única felicidade é não nascer". Se isso não é pessimismo, então eu sinceramente não sei o que seria.
José Castello trabalhou na encenação recente de Esperando Godot (de Samuel Beckett, mais um escritor influenciado por Schopenhauer) realizada pela companhia O Círculo. Também ele, no livreto fornecido ao público da peça, insiste que Beckett não é pessimista. Nesse texto ele afirma: "Viver como? Viver de quê? Viver para quê? Ora, viver - e isso não basta?" A essa pergunta retórica, o pessimista responde com um sonoro (e completamente inesperado para o otimista) NÃO. E não é isso que Schopenhauer afirma em Parerga e Paralipomena, § 168 (no capítulo XIV - contribuições à doutrina da afirmação e da negação do querer-viver)? Senão vejamos:
"O espírito e o sentido interno da genuína vida enclausurada, como o própria ascese, é que nos reconhecemos dignos e capazes de uma existência melhor do que a nossa, e que pretendemos fortalecer e manter esta convicção, pelo desprezo em relação às coisas que esse mundo oferece, rejeitando todos os seus prazeres como destituídos de valor, e aguardando calma e confiantemente o fim desta vida, desprovida de seu fútil engodo, para algum dia bendizer a hora da morte como a da redenção."
Castello pretende apresentar o fato de os personagens centrais de Esperando Godot não desistirem da vida, apesar de tudo, como a prova do otimismo de Beckett. O que Castello não percebe é que Beckett, assim como Schopenhauer, pode querer mostrar que a vida simplesmente não tem saída: as pessoas, tal camundongo na roda, por mais que sofram, não podem abandonar o querer viver, pelo simples fato de que ele constitui todo o seu ser:
"Daí resultam resistências que de todos os lados opõem obstáculos a esse esforço, essência íntima de todas as coisas, reduzem-no a um desejo mal satisfeito, sem que, contudo, ele possa abandonar aquilo que constitui todo o seu ser, e o forçam assim a torturar-se, até que o fenômeno desapareça, deixando o seu lugar e a sua matéria imediatamente açambarcadas por outras [forças da natureza e formas de vida]." (O mundo..., Tomo I, § 56)
E ainda: "o autor de O mundo como vontade e como representação via o indivíduo prisioneiro de um remanejamento interior necessário a sua sobrevivência como indivíduo." (1) (Pierre Raikovic, O sono dogmático de Freud - Kant, Schopenhauer, Freud, capítulo 2). Para a justificação teórica dessa prisão na qual o indivíduo cai, é essencial a crítica ao "livre-arbítrio", o qual é largamente utilizado nos discursos otimistas e justificadores de "tudo isso que aí está". Schopenhauer escreveu bastante contra o livre-arbítrio, e isso ainda será tratado nesse blog.
Em O Outsider - o drama moderno da alienação e da criação, de Colin Wilson, vemos novamente esse lógica do otimismo. Já no capítulo I, ao estudar o comportamento existencialista, Wilson se questiona: "deve o pensamento negar a vida?", para na página seguinte afirmar "Mesmo que decidamos, antecipadamente, que a resposta é 'não', haverá muito o que aprender com o exercício de mudar de ponto de vista." Não é de se admirar que Wilson critique Schopenhauer (e até Freud) as poucas vezes que menciona o seu nome, isso não obstante os tantos momentos em que plagia descaradamente o filósofo alemão. Não surpreende também que Wilson faça , várias vezes, afirmações da seguinte estirpe:
* "Aparentemente a contribuição de James para a sua solução [a solução do "problema do outsider"] poderia ser resumida nas palavras de Elroy Flecker: 'Os mortos só sabem de uma coisa: é melhor estar vivo.'" (final do capítulo 3). A opinião do suposto otimista Schopenhauer é justamente a oposta: "Se batermos nas lápides e perguntarmos aos mortos se querem voltar à vida, balançarão a cabeça dizendo que não." (O mundo..., Tomo II, capítulo XLI)
* As últimas palavras do Diário de Nijisky são uma afirmação: 'Minha filhinha está cantando: 'ah-ah-ah-ah'. Não compreendo o que significa, mas sinto o que ela quer dizer. Ela quer dizer que tudo...não é horror, mas alegria.'" (final do capítulo 4). E se a menina estivesse chorando (o que as crianças fazem isso todos os dias), a opinião de Nijisky (ou a de Wilson) mudaria? É claro que não, pois o "sofrimento que na veemência e fúria do seu próprio ímpeto volitivo inflige aos outros é a medida do sofrimento cuja experiência em sua pessoa não quebra a Vontade, nem a conduz à negação final." (O mundo..., Tomo I, § 68) Os indivíduos querem a vida mesmo que ela seja sofrida (O mundo..., Tomo I, § 60), daí a necessidade de todas essa falácias para tentar dizer que a vida é boa.
* "Não se pode acreditar que a natureza humana é que está errada, pois o racionalismo desmoralizou completamente os dogmas mórbidos como o pecado original." (começo do capítulo 3). O mesmo racionalismo tão criticado pelo Nietzsche que Wilson acredita conhecer, respeitar e mesmo seguir. É graças a afirmações tolas como essas - das quais esse livro está cheio - que eu geralmente me recuso instintivamente a ler qualquer "pensador" inglês (com poucas exceções), ou qualquer outro representante da dita "filosofia analítica" (com a exceção, até o presente momento, de Wittgenstein).
O desgosto pelo mundo está subsumido em TODA obra de Schopenhauer, a qual pode ser interpretada como um grande auto de acusação contra a vida no seu geral. Mais um exemplo...no § 47 d' O mundo... o filósofo está discorrendo sobre o nu na escultura quando, "do nada", solta essa: "(...) se esforçar, se isso é possível, por exprimir seus pensamentos aos outros e, por isso mesmo, por suavizar a solidão que se deve sentir num mundo como este (...)". O ato de "jogar a culpa no mundo/na vida" é uma constante no pensamento schopenhauriano, e isso não obstante o apreço do autor pela eudemonologia (digo isso por que me parece simplesmente impossível que qualquer livro de auto-ajuda da atualidade se disponha a aconselhar que o indivíduo não assuma a responsabilidade por tudo que ocorre na sua vida), e não obstante ele tenha sido um gênio (digo isso por que é comum atualmente associar o costume de jogar a culpa nos outros como sendo imaturidade, por isso é inesperado que alguém que é considerado um gênio dê prova de se comportar assim). Schopenhauer teve plena convicção que o principal culpado pelo fato da vida dele (Schopenhauer) ter sido ruim não era ele mesmo, mas sim "o mundo/a vida": ele se recusou a admitir como sua a responsabilidade pela facticidade. Ele se recusou a aceitar a vida como ela é. Ele se recusou a "assinar embaixo" de "tudo isso que aí está". Ele se recusou a aceitar como sendo "uma escolha livre dele" aquilo que ele, como um animal, é levado inevitavelmente a querer por puro instinto.
Um dos biógrafos de Schopenhauer, Karl Weissmann, afirma que "apesar de seu imenso amor à verdade, sua missão [a de Schopenhauer] não é explicar, mas acusar o mundo" (Vida de Schopenhauer, fim do capítulo IV). No início do capítulo IX desse mesmo livro, Weissmann cita uma reveladora carta do filósofo na qual ela afirma o seguinte: "Desde que me entendo por gente, acho-me em oposição ao mundo. (...) Quando atingi os quarenta anos de idade, tive a impressão de haver ganho a demanda contra o mundo em última instância, e encontrei-me então elevado a um ponto ao qual nem sequer havia ousado aspirar. Em troca, a vida tornava-se cada vez mais monótona e vazia." Schopenhauer se propõe a nos apresentar um espelho do mundo. E o que vemos nesse espelho? Vemos um mundo que se resume a mera aparência, no qual a única realidade é a dor e do qual a única salvação (2) é o nada. O projeto intelectual de Schopenhauer nos apresenta a vida como uma fusão entre razão e irrazão, com o predomínio da segunda sobre a primeira, predomínio que constitui o prelúdio da filosofia trágica. A vontade de saber está essencialmente vinculada à vontade de poder; e muitas vezes, como parece ser o caso de Schopenhauer, a vontade de saber apresenta-se ao indivíduo como sucedâneo de uma vontade de poder que, em última instância é uma "vontade de acusar", ou mesmo de "humilhar".
E para aqueles que querem ver otimismo no apreço que o autor tinha pela arte, é bom ler o fechamento que ele faz do livro III do Tomo I da sua obra principal, livro justamente dedicado ao estudo da arte. Lá fica bem claro que, diferentemente do que para Nietzsche, para Schopenhauer a arte não é suficiente para justificar ou libertar a vida; antes, a arte é para ele apenas um paliativo.
A primeira edição de O mundo como vontade e como representação foi publicada em 1819, quando seu autor contava 31 anos; a última foi publicada em 1859, um ano antes da morte do filósofo. Schopenhauer teve quarenta anos para mudar de idéia e dizer que a vida não era uma merda, mas ele não o fez. Pelo contrário. Diferentemente do que ocorreu com outros filósofos, o pensamento de Schopenhauer não passou por "fases": ele é monolítico, coerente consigo mesmo do começo ao fim. Na maturidade, o pensador apenas ratificou e aprofundou as conclusões tiradas na juventude.
Resumindo: Schopenhauer era pessimista e se orgulhava disso. Quem nega isso não conhece, ou não quer conhecer, a obra do filósofo.
Agora, se você não considera Schopenhauer pessimista, então me diga QUEM é pessimista?
P.S.: Para saber mais sobre o pessimismo, recomendo a leitura do texto
A Escola Pessimista de Peruíbe e seus Valores.