Quinta-feira, 2 de Julho de 2009

LXX - Acerca de uma (primeira e única) postagem que trata favoravelmente do tema "auto-ajuda". Repita comigo: "a paz é mais importante".



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§ 70






Mehr Licht. [Mais Luz] (Últimas palavras de Goethe)

Fortes são aqules que transformam em luz o que é escuridão. (Forfun, Sigo o som)

Disciplina é liberdade/Compaixão é fortaleza/Ter bondade é ter coragem. (Legião Urbana, inspirados pela Doutrina de Buda, Há Tempos)

Todos têm suas próprias razões. (Legião Urbana – Eu era um lobisomem juvenil)



Desde que comecei a escrever esse blog (em fevereiro de 2008) eu, por uma série de circunstâncias, consegui diminuir a sensação de estar "à beira do abismo", consegui diminuir a aflição e o ódio que me consomem. Gostaria de apresentar, aqui, alguns dos pensamentos que me ajudaram nessa tarefa.

Já no capítulo II (1) eu havia dito que em 2007 eu finalmente compreendera a lição estóica segundo a qual "não é a pobreza que causa a dor, mas sim a cobiça". De modo geral, as várias lições estóicas que Schopenhauer oferece são difíceis de eu entender, e ainda mais difíceis de serem colocadas em prática.

Schopenhauer dedica um livro inteiro à eudemonologia ("guia da vida venturosa" - um equivalente filosófico para a vilipendiada auto-ajuda): Aforismos para sabedoria na vida. Li esse livro em 2005; porém, na época, eu aprendi muito pouco com ele (eu estava mais preocupado em acusar o mundo do que sobreviver a ele). Creio que está na hora de relê-lo; e ele está lá, no topo da pilha de leitura, esperando pelo momento no qual eu terei tempo de dedicar-me a ele novamente.

Um dos problemas recorrentes na minha vida, eu percebi, é o seguinte: eu me aproximo das pessoas, então acabo me desentendendo com elas, então isso me faz sofrer, então eu me afasto das pessoas, daí eu me sinto sozinho, então eu me aproximo das pessoas novamente, etc. (o ciclo se repete). Isso lembra a "parábola dos porcos-espinhos" de Schopenhauer: os porcos-espinhos, num dia de frio, aproximam-se uns dos outros para se aquecerem; porém, com a proximidade, eles se machucam mutuamente com seus espinhos, daí se afastam: e assim eles ficam fugindo, ora do frio ora da dor, num movimento cíclico.

Percebo que as pessoas em geral, e eu mesmo, desenvolvem uma dependência emocional com relação aos outros. Nós precisamos que o outro perceba que existimos, e mostre que nos reconhece como alguém relevante. A maioria das pessoas se preocupa em se encaixar no grupo, em ser aceita por ele como um igual. Porém, e esse é o meu caso, é possível que o indivíduo queira marcar a sua presença para o outro como alguém que justamente não se encaixa, como alguém que é diferente - como um outsider. Em ambos os casos, contudo, o ato de ser reconhecido pelo outro tem papel fundamental para que o indivíduo se reconheça a si mesmo como uma individualidade estável no tempo e "digna" (isto está me cheirando a Hegel) (para mim, e eu acho que já escrevi isso antes em algum lugar, "dignidade" é um eufemismo para presunção).

Contra essa situação, Schopenhauer propõe (nos Aforismos...) que o indivíduo se esforce para "bastar-se a si mesmo", ou seja, para não depender física ou emocionalmente dos outros (identificados acertadamente, por Sartre, com o inferno). A idéia aqui, em consonância com a concepção schopenhauriana de minimização da dor em detrimento da maximização do prazer, é diminuir nossos sofrimentos na medida em que fundamentaríamos nossa felicidade e expectativas em nós mesmos, e não nos outros (que estão fora do nosso controle). Um conselho precioso aqui é o seguinte: não se meta na vida de ninguém e, sobretudo, não espere nada de ninguém. (Schopenhauer, nos Aforismos...cap. V.C.44, diz o seguinte: "Não amar, nem odiar", eis a metade da sabedoria; "nada dizer e em nada crer", eis a outra. É verdade que preferimos dar as costas a um mundo que precisa de regras como essas e as subseqüentes.)

Eu percebi, com já disse, que na minha vida o "ciclo do porco-espinho" está presente. Das várias máximas que eu já inventei (ou copiei) para tentar quebrá-lo, a última (e a que está funcionando até o presente momento) é a seguinte: "a paz é mais importante". Atualmente, estou me esforçando para que o desejo de estar em paz comigo mesmo e com os outros (o que, aliás, considero como um pré-requisito para a paz interior) seja mais forte que o meu desejo de ter razão ou de ser melhor que os outros. Claro que esse é um ideal, que eu ainda estou buscando implementar, com muito esforço. Resumindo: "a paz é mais importante".

Veja bem, o problema não é ser arrogante, o problema não é querer mostrar aos outros que se lhes é superior: o problema é querer essa superioridade sem tê-la de fato (e a maioria das pessoas, eu inclusive, não tem talento nenhum para mostrar por aí). Pois, nesse caso, é inevitável que a tentativa de mostrar superioridade aos outros se transforma em frustração, e portanto em sofrimento.

Daí chegamos a um outro ponto que o velho Schopenhauer salienta; não basta se esforçar para bastar-se a si mesmo; é necessário, também, conhecer-se a si mesmo, para não fundamentar suas expectativas numa pretensão que mais tarde será frustrada (porque era irreal): é necessário saber quem você é e do que você é capaz e não fundamentar sua expectativas fora desse perímetro. Caso contrário, quebrar a cara é inevitável.

Com relação ao papel das máximas na eudemonologia, a interpretação schopenhauriana é mais o menos a seguinte: como o caráter do indivíduo não muda (entre outros textos, isso pode ser verificado no § 55 do Tomo I d' O mundo como vontade e como representação), o que o indivíduo pode fazer é conhecer esse caráter e então buscar agir em conformidade com ele; nesse contexto, as máximas serviriam para fixar na memória do indivíduo esse auto-conhecimento, ajudando-o a não se esquecer de quem ele é: a máxima é capaz de sintetizar uma série de argumentos e descobertas num texto curto.

Uma interpretação mais atual para o fato de termos de lutar contra nós mesmos para nos impor uma determinada forma de comportamento que, sabemos, nos fará sofrer menos, é aquela que diz que nós nos viciamos em nossos neurotransmissores. Segundo essa interpretação, nós acabamos nos viciando em repetir determinadas situações em nossas vidas (não apenas as prazerosas, como a de humilhar alguém, mas também as dolorosas, como a de ser humilhado). Quando temos alguma dessas experiências, nosso corpo libera hormônios e neurotransmissores. No longo prazo a coisa se desenvolve de maneira análoga ao vício em drogas: cada vez precisamos de uma experiência mais intensa (ou de uma quantidade maior de experiência de intensidade igual à anterior) para que tenhamos a mesma sensação de antes (pois com o excesso de estímulo, os receptores do neurotrasmissor em questão vão ficando mais insensíveis, sendo necessárias doses maiores para dar o mesmo resultado que antes. Assim, diariamente, é possível ver pessoas presas em comportamentos repetitivos: cometem sempre os mesmos erros, sem que se mostrem capazes de aprender alguma coisa com eles. (De forma consistente à interpretação do vício nos neurotransmissores, todos nós conhecemos o conselho de "contar até dez" quando ficamos irritados: a idéia aqui é justamente dar um tempo para que a resposta automática do corpo (liberação de adrenalina e de certos neurotransmissores) se dissipe. Geralmente dez segundos não são suficientes para isso, motivo pelo qual há gente que mesmo recomenda que se aguarde noventa segundos.)

Voltando à máxima "a paz é mais importante". Ela, evidentemente, não trás nada de novo. Já Schopenhauer recomendava repetidamente o hábito do silêncio nos Aforismos...Como por exemplo:

Também se verá que, com relação aos broncos e aos tolos, só há um meio de mostrar juízo: é o de não lhes dizer palavra. (Cap. V.C. 23)

E ainda:

De acordo com isso tudo, o hábito do silêncio tem sido insistentemente aconselhado por todos os professores de sabedoria, através dos mais variados argumentos, pelo que eu posso parar por aqui. Não obstante, quero ainda apresentar alguns provérbios árabes, pouco conhecidos e muito ilustrativos: "Aquilo que o teu inimigo não puder saber, não o digas ao amigo". - "Se eu guardar o meu segredo, ele será um prisioneiro meu; se deixar que fuja, serei um prisioneiro dele". - "Da árvore do silêncio pende o seu fruto, que é a paz." (Cap. V.C.42)

Da minha parte, em vez de recomendar-lhe que diga toda manhã ao espelho "eu sou feliz", ou "eu sou um vencedor", ou ainda "isto é Sansara, o mundo do prazer e do desejo, e portanto o mundo do nascimento, da velhice e da morte; é o mundo que não deveria ser; e essa é a população de Sansara, o que deles podeis esperar?" (2), eu lhe recomendo (se é que posso recomendar-lhe algo) que diga "a paz é mais importante"(3).


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1 Voltemos à máxima de Epícteto que foi o ponto central do capítulo II:

Não é a pobreza que causa a dor, mas sim a cobiça.

Se o indivíduo está com uma "dor", creio que há pelo menos três formas possíveis de tentar minorá-la.

Caminho 1: O caminho mais comum e previsível, que preenche a vida das pessoas enquanto elas não se deparam com um desejo que não podem realizar (com uma "pobreza" insuperável) é simplesmente correr atrás da satisfação do desejo (ou do "sonho", numa acepção burguesa). Dessa forma, busca-se diminuir a grandeza absoluta da "pobreza".

Porém, se a pessoa se encontra diante de um desejo que não é possível realizar (e nesse caso a palavra cor-de-rosa "sonho" soa como uma piada de mal gosto), então ela pode recorrer a um dos dois caminhos a seguir:

Caminho 2: reconhece-se que a "pobreza" é uma grandeza relativa e que existe apenas enquanto definida a partir de alguns referenciais arbitrários (que mudam de pessoa em pessoa, de cultura em cultura, etc.), como o que é "bom", "belo", "forte", "digno", etc. Nesse caso, a estratégia da pessoa seria a de se esforçar para reformular as suas crenças e valores de forma a ver-se a si mesma como alguém menos "pobre" do que se considerava antes. Esse método soa como uma auto-enganação, e ele é doloroso na proporção direta da força com a qual essas crenças e valores "ruins" estão introjetados no indivíduo (bem como na proporção direta da sua força de caráter).

Caminho 3: A outra alternativa (que é a qual eu estou tentando aplicar no momento) é aquela que o próprio Epícteto salienta: o indivíduo não nega a sua "pobreza" (que é o caminho apresentado acima), nem se esforça, em vão, para mitigá-la (pois estamos diante de um desejo que não pode ser satisfeito): o esforço do indivíduo se concentra simplesmente em não desejar mais deixar de ser "pobre"; ele "aceita" a sua pobreza, em vez de negá-la.

Há um aforismo psicanalítico que diz que “onde há depressão há esperança”. Há também a sabedoria popular que diz que “a esperança é a última que morre”. Pois bem, o meu caminho para sair da depressão é justamente matar a esperança (sem substituí-la por NADA): então estará tudo morto, e eu terei paz. (Perceba que eu falo em "paz", não em "felicidade".)


2 Schopenhauer recomendou que se repita esse ditado budista quatro vezes ao dia numa nota de rodapé no § 156 de Parerga e Paralipomena, capitulo XII.


3 "Gosto não se discute, lamenta-se". O meu objetivo não é apenas deixar de discutir gostos alheios como também deixar de lamentá-los: o objetivo é aceitá-los pacificamente, sem espanto, desgosto ou má-vontade.

Eu luto contra mim mesmo (eu que sou tão pouco receptivo a esse doloroso procedimento) para me convencer de que eu não tenho a obrigação de “ensinar” – e os outros não têm a obrigação de “aprender” – as pessoas a serem “melhores” (ou seja, a serem mais parecidas comigo – isso pode até parecer engraçado, mas a verdade é que quase todo mundo age assim, quase todo mundo pensa que está certo e que os outros estão errados, quase todo mundo tenta mudar o comportamento alheio, quase todo mundo “se ofende” com as atitudes alheias quando essas são diferentes das suas, quase todo mundo vê apenas um defeito de caráter quando esse se manifesta nos outros, mas não em si mesmo).

Dessa forma eu mantenho a minha individualidade, mas me libero da obrigação de replicá-la no outro. (As pessoas que tentam mudar os outros, tentando moldá-los a sua própria imagem, estão, na verdade, se defendendo, estão tentando se convencer que elas estão certas; elas não tentariam mudar os outros se estivessem seguras de si mesmas, se tivessem certeza de que estão certas e de que não terão seus pensamentos mudados pelos outros). Eu não me esforço para mudar o outro, nem para me defender dele: eu me esforço simplesmente para ignorá-lo: nada que ele diga ou faça vai me afetar (bem, pelo menos é esse o ideal a ser alcançado). Se as pessoas querem ser ignorantes, querem ser alienadas, querem ser manipuladas, não querem saber dos fatos evidentes que revelam a sua escravidão e a sua mediocridade, então ótimo! Por que eu deveria me importar?

Ao pensar dessa forma, é comum eu me questionar, alegando que se eu não fizer nada o “futuro da humanidade e do planeta estarão comprometidos”. Primeiro, pensar isso é ser arrogante e é conferir a mim mesmo uma importância e uma legitimidade que eu não possuo. Segundo, eu quero mesmo é que se dane tudo: eu não tenho compromisso com o planeta ou com a humanidade; se dependesse de mim tudo acabava agora mesmo.





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Tempore, quo cognitio simul advenit, amor e medio supersurrexit.

Sexta-feira, 26 de Junho de 2009

LXIX - Acerca de máximas #2 - máximas agnósticas #1.

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§69




Give me an answer
Give me a line
I've been climbing up this ladder
I've been wasting my time

(Radiohead – Up on the Ladder)



1. Tudo é incerto, e até mesmo a certeza da incerteza é incerta.

2. Quando queremos acreditar em algo, aceitamos qualquer argumento.

3. A discussão é inútil. [Em algum conto de Machado de Assis (não lembro qual) é afirmado que "a discussão é uma herança bestial do homem.]

4. Afirmações extraordinárias exigem provas extraordinárias.

5. Não existe uma verdadeira comunicação entre as pessoas.

6. Produzir um sistema que explica tudo de forma definitiva e irrefutável: isso é uma utopia.

7. “O que não se pode falar, deve-se calar.” [Wittgenstein, conclusão do Tractus Logicus Filosopicus]

8. A máquina do mundo é um complexo sistema de sistemas, indecifrável ao frágil espírito humano. Os pensadores são demasiado humanos.

9.“Cada campo do conhecimento é mais que suficiente para esgotar toda a capacidade de um gênio, todo o esforço de uma vida.” [Einstein, Como vejo o mundo]

10. Ao se fazer um análise profunda, descobre-se que, devido à incrível complexidade da realidade e devido à incrível limitação do ser humano, no fim quase tudo realmente é uma questão de opinião.

11. As cosmovisões (quer religiosas, quer filosóficas, quer científicas) surgem como capazes de explicar toda a máquina do mundo, ou, pelo menos, aquilo que realmente importa. Mas, depois, mostram-se aqui equivocadas, ali incompletas; ou seja, mostram-se incapazes de explicar tudo definitivamente.

12. “Apenas os charlatões afirmam as coisas com certeza. Nada sabemos sobre princípios. É verdadeira extravagância definir Deus, os anjos, e os espíritos e afirmar com precisão por que Deus criou o mundo. O estado de dúvida não é muito confortável, mas o de certeza é ridículo.” [Voltarie]

13. “Não utilizamos a lógica como ponto de partida para se chegar a alguma verdade. Utilizamos, isso sim, a lógica para criar argumentos favoráveis ao que cremos ser a verdade e que temos vontade de provar. Nós elaboramos teologias e filosofias para atender às nossas crenças. Ninguém ainda convenceu alguém com a lógica, pois as pessoas não querem ser convencidas.” [Schopenhauer]

14. “Os homens não amam espontaneamente o trabalho e os argumentos não têm valia alguma contra suas paixões.” [Freud, no início de O futuro de uma ilusão (a ilusão do título é a religião) ]

15. As opiniões e interesses pessoais que fundamentam as crenças e os sistemas de idéias, aparecem nesses sistemas como suas conseqüências lógicas, quando na verdade elas são os seus pontos de partida.

16. Não é exagero afirmar que, de certa forma, toda palavra é uma mentira. [Ouspenski - Um novo modelo do universo]

17. Como a lógica não avalia a veracidade das premissas, mas sim as relações formais entre elas, sistemas igualmente lógicos chegam a conclusões opostas, pois partem de premissas (cuja prova ou refutação é geralmente impossível) opostas.

18. “Nada posso afirmar, isto é, declarar como juízo necessariamente válido para qualquer pessoa, senão aquilo que tem como efeito uma convicção. Posso guardar uma persuasão para mim no caso de me sentir bem assim, mas não posso nem devo pretender torna-la válida fora de mim.” [Kant, Crítica da razão pura, seção terceira do cânone da razão pura]

19. A “verdade absoluta” é impossível de se descobrir; nós sempre acabamos nos perdendo em jogos de palavras e nos labirintos de nossas mente. Sempre acabamos caindo em anfibologias dos conceitos, devido à limitações da mente, da razão e da linguagem em compreender o todo do universo (se é que existe um universo(1)).


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1 E, pensando bem - ou melhor, não pensando - nem mesmo estou convencido de que exista um "Universo". (Geralmente não percebemos quantas hipóteses, importantes e mudas, fazemos ao usar este termo.) [Robert Powell, no capítulo 11 do livro A mente livre - o caminho interior para a libertação]




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Tempore, quo cognitio simul advenit, amor e medio supersurrexit.

Sexta-feira, 19 de Junho de 2009

LXVIII - Uma breve crítica ao cristianismo e a sua mais atroz forma: o (neo)pentecostalismo - parte 9 de 16



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§68






2.6. A genealogia de Jesus


Nas igrejas onde não reina o fundamentalismo, é comum a saudável idéia de que a história de Adão e Eva é apenas um mito, um texto poético e simbólico.

Em Lucas 3, 23-38 temos a transcrição da genealogia de Jesus Cristo. E qual não é a nossa surpresa - como indivíduos razoáveis e não fundamentalistas - em ler, ao versículo 38, a conclusão da genealogia: "e Cainã, de Enos, e Enos de Sete, e Sete, de Adão, e Adão, de Deus"?

Diante dessa colocação, o indivíduo não fundamentalista, que sabe ser impossível a sustentação factível del cuento de Adão e Eva, e que sabe que seria estupidez sustentar que, também aqui, numa descrição de genealogia, esse texto, também, estaria eivado de "linguagem figurativa", pode fazer duas afirmações: ou o autor desse texto acreditava que a história dos primeiros capítulos de Gênesis era verdadeira - o que é aceitável para a época dele, mas é ridículo atualmente - ; ou ele sabia que era mentira - como realmente é - mas colocou assim mesmo no evangelho para mostrar seu compromisso com o Pentateuco.

As duas hipóteses perfazem uma grave consideração: ou a Bíblia mente descaradamente, ou a Bíblia contém uma mentira lá colocada pela ingenuidade do autor do evangelho de Lucas. Um indivíduo sensato terá que considerar, das duas, uma, o que, invariavelmente, cria dúvidas sobre a veracidade de qualquer afirmação extraordinária do sacro livro (como os milagres e as profecias). Se inventaram isso, por que não teriam inventado, também, outras coisas? Se se enganaram aí, por que não teriam, também, se enganado em outras passagens?


2.7. O livre-arbítrio

Um dos muitos conceitos controvertidos do cristianismo e da teologia é o tal do "livre-arbítrio" (1). Esse conceito ganhou maior destaque com a ascensão do protestantismo, na tentativa de adequar os dogmas religiosos à realidade burguesa.

Não obstante a história de Adão e Eva ser um mito (não para um fundamentalista), há nela um exemplo do suposto livre-arbítrio, o qual, aliás, exerce um papel fundamental na tentativa de dar alguma coerência a essa história mal contada. Se não houvesse livre-arbítrio, não seria possível ter-se cometido o pecado original, o qual consistiu na desobediência a deus.

Observe a contradição de tudo isso: se é livre para obedecer ou não, e se não obedecer haverá castigos horríveis e que se estenderão por milênios (ou mesmo por toda a eternidade). E tudo isso porque deus é perfeito e não admite conviver com o pecado, ou, em outras palavras, porque ele é mimado e não admite ser contrariado. Isso é típico de Jeová: atire nas pernas, depois "ofereça" (isto é: imponha sob ameaças de danação eterna) aulas de sapateado. Além disso, Jeová não explicou quais seriam as terríveis conseqüências do pecado; ele apenas disse "para que não morrais" (lembrando que presumivelmente, Adão e Eva nem mesmo sabiam o que era a morte). Convenhamos, se Jeová tivesse dado uma explicação melhor das conseqüências funestas do pecado da desobediência, se ele tivesse mostrado todo o sofrimento e morte que isso acarretaria, se ele tivesse explicado sobre os planos maquiavélicos de Lúcifer (o qual "se infiltrou" (mas deus não é ONISCIÊNTE?) no Jardim do Éden para cumprir sua missão de levar a humanidade à rebelião contra deus), se tivesse feito tudo isso, dizia eu, é razoável supor que Adão e Eva não seriam estúpidos o bastante para desobedecê-lo. Mas ele não fez nada disso. Para um ser perfeito, esse seu comportamento é bastante negligente e propositadamente ingênuo. (3) E nem venha me dizer que deus estava "testando" a sua criação, porque senão eu vou repetir: mas deus não é ONISCIÊNTE? Um ser onisciente não precisa testar nada nem ninguém, pois ele já sabe tudo ex ante. Jeová já sabia que a sua criação era imperfeita e suscetível à enganação e à rebelião: qualquer imbecil saberia o que o homem faria com seu livre-arbítrio no contexto no qual ele foi posto para viver.


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1 (nota para esse blog) Outros capítulos desse blog que mencionam o livre-arbítrio e a história do pecado original: XXXVI, XXXVII e LXVI.

2 (nota do texto original) Que liberdade há em Êxodo 14:4? O próprio deus "endurece o coração" do faraó (o qual, supunha-se, nem precisaria desse artifício, já que ele era um adorador de Mamon - já por aqui percebe-se que a fundamentação da moral NÃO ESTÁ em Jeová) para depois castigá-lo (e castigá-lo duramente) por ter agido em conformidade com alguém que está com o coração endurecido. Aparentemente, o faraó e todo o povo do Egito apenas serviu de joguete para que Jeová demonstrasse o seu poder para o "povo escolhido", e tudo isso por baixo de uma falsa moralidade, que exige um "pecado" (nem que seja na marra) para depois exigir um castigo.

Atenção: Como eu já disse no § 46, esse texto foi escrito em 2002, quando eu tinha 15 anos. Muito do que está escrito aqui já não representa com exatidão a minha atual forma de pensar. Porém creio que o texto ainda pode ser útil para aqueles que atualmente vivem situações (de apostasia) semelhantes às que eu vivi à época em que escrevi isso.




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Tempore, quo cognitio simul advenit, amor e medio supersurrexit.

Sábado, 13 de Junho de 2009

### 21 – Laisser faire, laisser passer – 9.


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A empresa siderúrgica de Camel & Co. opera na mesma escala de John Brown & Co. O diretor-gerente entregou seu depoimento por escrito ao comissário White, mas depois achou mais conveniente subtrair o manuscrito que lhe fora devolvido para revisão. Todavia, o comissário White tem boa memória. Ele se lembra exatamente que esses senhores consideravam ser impossível a supressão do trabalho noturno dos meninos e dos jovens; seria o mesmo que parar suas oficinas. Nestas, entretanto, os menores de 18 anos representam pouco mais de 6% e os menores de 13 apenas 1% (L.c., 82, p. XVII.)

Sobre o mesmo assunto, o senhor E. F. Sanderson, da firma Sanderson Bros & Co., com usinas de aço, laminação e forja, em Atterclife, declara:

“Surgiriam grandes dificuldades se menores de 18 anos fossem proibidos de trabalhar à noite. A principal seria o aumento dos custos com o emprego de adultos em vez de menores. Não posso dizer quanto isso custaria, mas provavelmente não seria tanto que justificasse o aumento do preço do aço pelo fabricante, de modo que o prejuízo recairia sobre ele, uma vez que os trabalhadores” (que gente cabeçuda) “se recusariam por certo a pagá-lo.”

O senhor Sanderson não sabe o quanto paga aos meninos, mas

“talvez eles recebam cada um de 4 a 5 xelins por semana... O trabalho dos menores é de uma espécie para a qual a força deles é geralmente” (geralmente, mas não sempre) “suficiente, e por isso não haveria nenhum ganho a obter da força maior dos adultos, para compensar o salário maior, a não ser nos poucos caos em que é pesado o volume de metal a manejar. Os homens não gostariam de não ter os menores entre eles, pois os menores são mais dóceis que os adultos. Além disso, os jovens têm que começar cedo, para aprender o ofício. Se só se permitir aos menores trabalharem de dia, esse objetivo não seria atendido”.

E por que não? Por que não poderiam os jovens aprender o seu ofício de dia? Quais são os vossos argumentos?

“Trabalhando os homens, ora de dia, ora de noite, em semanas alternadas, ficariam eles separados dos menores em metade do tempo de trabalho e perderiam metade do lucro que obtêm deles. O treino que dão aos jovens é considerado parte do salário dos menores e possibilita aos trabalhadores adultos obterem mais barato o trabalho do menor. Cada homem perderia metade do seu lucro”.

Em outras palavras, os senhores Sanderson teriam que pagar parte do trabalho dos adultos com dinheiro de seus próprios bolsos, e não com o trabalho noturno dos menores. O lucro dos senhores Sanderson cairia assim um pouco, e está é a boa razão que possuem pela qual os menores não posem aprender o ofício de dia. Demais, isso faria todo o trabalho noturno recair sobre os adultos, que atualmente se revezam com os menores, e eles não o suportariam. Em suma, as dificuldades seriam tão grandes que levariam provavelmente à supressão total do trabalho noturno. “Isso não faria a menor diferença”, diz E. F. Sanderson, “no que toca à produção do aço, mas...” Mas os senhores Sanderson têm mais o que fazer do que fabricar aço. A produção de aço é mero pretexto para a produção de mais valia. Os fornos de fundição, as oficinas de laminação, as construções, a maquinaria, o ferro, o carvão não se transformam, apenas, em aço. Além disso, absorvem trabalho excedente, absorvendo naturalmente mais em 24 horas do que em 12. Na realidade, dão aos Sandersons, por graça de Deus e da lei, um direito líquido sobre o tempo de trabalho de certo número de trabalhadores, durante as 24 horas do dia, e perdem seu caráter de capital, representando pura perda para os Sandersons, quando se interrompe sua função de absorver trabalho.

“Mas então existiria a perda resultante da ociosidade, durante metade do tempo, da maquinaria tão cara, e só poderíamos produzir o que produzimos com o sistema atual duplicando nossas instalações e equipamentos, o dobraria o nosso dispêndio.”

Por que exigem os Sanderson um privilégio em relação aos outros capitalistas que só têm autorização para o trabalho diurno e cujas construções, maquinaria e matérias-primas ficam ociosas de noite?

“É verdade”, responde E. F. Sanderson em nome de todos os Sanderson, “é verdade que essa perda oriunda da maquinaria ociosa atinge todas as indústrias que trabalham só de dia. Mas os usos dos fornos envolvem, em nosso caso, um perda adicional. Se forem mantidos acesos, com as máquinas paradas, haverá a perda inútil de combustível” (enquanto agora há a perda da força vital do trabalhador), “se deixamos eles se apagarem, haverá perda de tempo para acende-los e obter o grau necessário do calor” (enquanto privar do sono crianças de 8 anos é ganho de tempo de trabalho para o clã dos Sanderson), “e os fornos sofreriam com a variação de temperatura” (enquanto os mesmos fornos nada sofrem com o revezamento diurno e noturno de trabalho). ( Children’s Employment Commision. Fourth Report, 1865. 85, p. XVII.)

(Karl Marx, O Capital, Livro I, capítulo 8.4.)





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Os agentes econômicos respondem a estímulos na sua ação racional (i.e., ação capaz de formular estratégias e que não erra sistematicamente) e voltada ao seu interesse próprio (i.e., que busca a maximização de sua satisfação por meio do atendimento ótimo das suas necessidades).

Sábado, 6 de Junho de 2009

LXVII - O Império Romano da Antiguidade e o Império Estadunidense contemporâneo - parte 1 de 4 - Resumo e Introdução


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§ 67







(...) os EUA apresentam um déficit fiscal de natureza estrutural cuja incompressibilidade decorre da própria política financeira e da política armamentista, ambas agressivas e ‘imperiais’. ( TAVARES, 1985, p.7)



RESUMO


A cidade de Roma, fundada por volta de 1000 a.C., após resolver seus grandes conflitos internos (patrícios contra plebeus), dedicou-se à prática imperialista. Primeiro dominou a Península Itálica e posteriormente formou um grande império no mediterrâneo. O Império Romano, baseado no modo de produção escravista, levou esse modo de produção ao seu clímax e à sua posterior dissolução. As colônias inglesas na América, guiadas pelas colônias do norte (as quais se destinavam ao povoamento), em função de conflitos econômicos, declararam sua independência da Inglaterra em 1776. Após a resolução dos seus grandes conflitos internos ( colônias do norte contra colônias do sul) os EUA se dedicaram à prática imperialista. Primeiro por meio do colonialismo tradicional, depois por meio do neocolonialismo, mais difuso e dissimulado. O império estadunidense se mantém até os dias atuais.



INTRODUÇÃO


Muitas vezes há comparações entre os EUA atuais e o Império Romano. Parece ser uma idéia do inconsciente coletivo que os EUA na atualidade têm semelhanças com Roma na Antigüidade. Posso citar como exemplo a capa de uma grande revista de circulação nacional que, para noticiar o encontro do presidente brasileiro com o presidente estadunidense, colocou em sua capa a manchete: “Lula vai a César”, e apresentou uma fotomontagem na qual o presidente dos EUA aparece trajado como um imperador romano. Outro exemplo é o filme “As Invasões Bárbaras”, continuação de “O declínio do Império Americano”. O filme canadense, vencedor do Oscar de melhor filme estrangeiro de 2003, trata, entre outros temas, do papel da imigração latina e asiática para as áreas centrais do sistema econômico mundial, e faz uma analogia com as invasões bárbaras que acabaram levando o Império Romano ao colapso.

Todavia, as diferenças entre os modos de produção da Antigüidade e o contemporâneo não permitem uma fácil comparação entre os dois impérios.

O novo dicionário Aurélio assim define “império”: “1. Autoridade, comando, domínio. 2. Influência dominadora; predomínio, preponderância (...). 3. Monarquia cujo soberano tem a título de imperador ou imperatriz. 4. P. ext. O território desse Estado. (...)” (FERREIRA, 2004, p. 1077).

Nesse trabalho, a palavra “império” é utilizada conforme a segunda acepção, embora muitas vezes a expressão “Império romano” seja usada em referência não a hegemonia de Roma sobre um vasto território conquistado, mas sim a organização política inaugurada por Otávio Augusto em 27 a.C. e que é contemplada pela terceira acepção da palavra “império” apresentada pelo referido dicionário.

O mesmo dicionário assim define “imperialismo”: “1. Forma de governo em que a nação é um Império. 2. Política de expansão e domínio territorial e/ou econômico de uma nação sobre outras.” (FERREIRA, 2004, p.1077).

Nesse trabalho a palavra “imperialismo” é utilizada conforme a segunda acepção apresentada pelo supracitado dicionário.

Na tentativa de atingir o seu objetivo, esse trabalho adotará a seguinte estrutura: 1. Breve descrição da história do Império Romano. 2. Breve descrição da história dos EUA e de seu Imperialismo. 3. Comparações entre o Império Romano e o Império Estadunidense.



REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS


FERREIRA, Aurélio Buarque de Holanda. Novo Dicionário Aurélio da Língua Portuguesa, 3 ed. Curitiba: Positivo, 2004.
TAVARES, Maria da Conceição. A Retomada da Hegemonia Norte-Americana. Revista de Economia Política. São Paulo, v.5, n.2, p.5-15. Abril- Junho. 1985.





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Tempore, quo cognitio simul advenit, amor e medio supersurrexit.

Sexta-feira, 29 de Maio de 2009

LXVI - Uma breve crítica ao cristianismo e a sua mais atroz forma: o (neo)pentecostalismo - parte 8 de 16.

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§ 66







E sonhou: e eis que era posta na terra uma escada cujo topo tocava nos céus; e eis que os anjos de Deus subiam e desciam por ela. (Gênesis 28:12)

Essa é apenas uma das muitas passagens bíblicas, e qualquer um que lê o "sacro livro" atentamente sabe disso, que apresentam a seguinte idéia: deus vive, LITERALMENTE, no céu. Tal mensagem está por todo texto bíblico, inclusive no Novo Testamento, como se fosse uma verdade consumada. Não é por acaso que, até hoje, "céu" é utilizado por alguns como sinônimo de "paraíso".

Pensar que as divindades viviam no céu é algo extremamente lícito para a época em que foram escritos os textos bíblicos. Mas atualmente as coisas são bem diferentes.

É difícil de acreditar, eu sei, mas mesmo hoje muitos cristãos - aqueles mais ignorantes - ainda têm em seu subconsciente a visão de um céu-paraíso. Isso é testemunha do quanto "a massa" continua ignorante e infantilizada. E mesmo quando el pueblo é apresentado à educação formal, ele insiste em não aplicar os conhecimentos aprendidos para questionar as "verdades" bárbaras da religião.

Mas o conceito de paraíso, por ser mais difuso e não especificar um local espacial, não deixa de ser problemático: ele nega a própria Bíblia, que todo tempo insinua, não adianta o leitor insistir que não, que deus vive no céu, o que era aceitável na época em que esses textos foram escritos, mas que hoje é, convenhamos, ridículo e estúpido. Novamente a imagem da Bíblia como a fonte da "verdade" fica maculada.

Este paraíso possui localização ignota: ou está nos confins do universo, ou está em um "universo paralelo", ou em "outra dimensão", ou, por fim, em qualquer lugar imaginável onde possa existir uma ordem de coisas diferente daquilo que conhecemos como "mundo material".

É muito fácil empurrar o esconderijo do nosso deus para cada vez mais longe, à medida que a evolução do conhecimento científico prova que eles não se encontravam onde outrora se pensou. Os deuses gregos não viviam no topo de um monte em cujo cume ninguém conseguia chegar (Olimpo)? É claro que você não vai ficar surpreso se eu lhe contar que ninguém mora no topo dessa montanha... Porém, há um problema em tentar levar a localização do paraíso para "outra dimensão" ou para "um universo paralelo". Novamente, a religião tenta se apropriar de conceitos científicos para tentar consertar um erro dela que a própria ciência demonstrou e jogou-lhe na cara.

O conceito científico de dimensões não possui ligação com "outro lugar", mas sim com "outra dimensão". Segundo as teorias físicas recentes baseadas nas p-branas, estas outras dimensões estariam acessíveis APENAS à força gravitacional, e um universo paralelo poderia surgir como resultado da influência dessa força, através dessas outras dimensões, sobre um conjunto de massa amorfo.

A pretensão de colocar o paraíso em uma "outra dimensão" ou em um "universo paralelo" é uma forma estapafúrdia de insistir no mesmo erro, mesmo depois de provada a sua incorreção.

Alguns, por outro lado, negam a existência de "um lugar" onde deus e os eleitos fiquem (perceberam que querer submeter deus ao espaço-tempo é patético): o paraíso seria o conjunto de divindades espirituais benévolas; assim, ele não seria espacial, e portanto não estaria em lugar algum.

De forma análoga, a Igreja Católica afirmou recentemente que o inferno não existe enquanto "um lugar", mas que ele se caracteriza por um estado de sofrimento causado exclusivamente pela "ausência de Deus". Então, imagino que qualquer um que já viva sem deus já esteja, de certa forma, no inferno, ou bem perto dele. O tal do "Deus" seria, pelo jeito, alguém tão ardiloso, arrogante e malvado que nos deu uma certa configuração "espiritual" feita para nos castigar com um grande sofrimento (tão grande que recebe o nome de "inferno") caso nós decidamos usar o nosso "livre-arbítrio" para nos afastarmos dele, que se julga o nosso senhor e legítimo proprietário. Essa "liberdade" com a qual o rapaz nos brindou se assemelha a uma escravidão. Depois não sabem por que Lúcifer teria se rebelado, e teria se rebelado junto com dois terços dos anjos - convenhamos, é improvável que dois terços de todas as criaturas angelicais teriam se voltado contra seu próprio criador se não houvesse motivos legítimos para fazê-lo.

Algo semelhante ocorre com os conceitos de "espírito" e "alma". Se o leitor não sabe, "psicologia" quer dizer estudo DA ALMA. Ocorre que até pouco tempo, a mente e a alma eram entendidas como uma mesma coisa. Mas agora, que os estudo científicos se apropriaram da "mente" enquanto objeto, a religião descobriu (como?) que o ser humano é um ser material, mental E ESPIRITUAL.

Eles não vão desistir tão facilmente da sua ignorância.

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Atenção: Como eu já disse no § 46, esse texto foi escrito em 2002, quando eu tinha 15 anos. Muito do que está escrito aqui já não representa com exatidão a minha atual forma de pensar. Porém creio que o texto ainda pode ser útil para aqueles que atualmente vivem situações (de apostasia) semelhantes às que eu vivi à época em que escrevi isso.

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Tempore, quo cognitio simul advenit, amor e medio supersurrexit.

Sábado, 23 de Maio de 2009

LXV - Meu deus! Quanto tempo eu fiquei sem saber ! Isso não poderia ter acontecido - #2: O Dia D e a insígnia da Besta.


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§65






Aqui há sabedoria. Aquele que tem entendimento calcule o número da besta, porque é número de homem; e o seu número é seiscentos e sessenta e seis. (Apocalipse 13:18)



"A sexta hora do sexto dia do sexto mês" foi assim que uma jornalista se referiu ao Dia D por ocasião da comemoração dos 60 anos do dia (06/06/1944) no qual os aliados executaram a maior operação militar de todos os tempos, desembarcando na Normandia e blá blá blá. Como nessa época da comemoração (06/06/2004) eu me interessava bastante por teorias da conspiração, eu não pude de deixar de atentar para a numerologia: "A sexta hora do sexto dia do sexto mês" = 666 e 1+9+4+4 = 18 = 6+6+6. Meu deus, como eu não percebi isso antes? Quantas vezes eu ouvi a frase "A sexta hora do sexto dia do sexto mês" sem que ela me remetesse a Apocalipse 13:18?

Embora a minha palavra seja altamente séria e confiável, eu me dei ao trabalho de pesquisar o assunto na Biblioteca Pública do Paraná (por que não achei o que eu queria na internet) a fim de tentar levar a você, leitor, mais confiança quanto à veracidade dessa informação que eu lhe trago. Encontrei vários livros sobre o Dia D. Vou apresentar algumas informações retiradas de um deles, as quais o leitor, se for tão desocupado quanto eu, poderá se dar ao trabalho de confirmar a veracidade.

O livro em questão é "O Dia D - 6 de Junho de 1944: A batalha culminante da Segunda Guerra", publicado por ninguém menos que a Biblioteca Nacional do Exército em 1997; as 755 páginas do documento foram redigidas por Stephen E. Ambrose. O livro é de "história oficial", foi escrito em tom ufanista e efusivo e não tem absolutamente nada a ver com teorias da conspiração. Ou seja é, para essa "nossa" investigação, uma fonte adequada.

Uma coisa que me chamou a atenção foi a questão da "sexta hora", o que era isso exatamente? Sem ela o Dia D seria tão satânico quanto a famosa Rodovia 66.

No texto "33 33 33 = 666: O Raciocínio Satânico da Nova Ordem Mundial" o pastor David Bay faz a seguite menção ao Dia D:

Por que os Aliados deliberadamente esperaram até o dia 6 de junho para atacar? O significado ocultista dos números nos dá a resposta:

Junho é o sexto mês do ano, de modo que corresponde a: 6

O ataque foi realizado no sexto dia do mês: 6

Os algarismos do ano, 1944, somados dão: 18 (6+6+6)

Assim, a data da invasão deu aos líderes ocultistas dos EUA e da Grã-Bretanha dois conjuntos de números criticamente importantes, um 66 e um 666. Os ocultistas crêem que '6' seja o número do homem, '66' seja o número do governo máximo do homem, e que o Senhor '666', o Anticristo, encabeçará esse governo perfeito. A Segunda Guerra Mundial foi uma das três guerras mundiais que os ocultistas aprendem que serão necessárias para preparar o Anticristo [leia o artigo N1015, "O Plano Demoníaco de Albert Pike Para a Implantação da Nova Ordem Mundial"]


Perceba que ele não faz menção à "sexta hora", graças a qual teríamos dois conjuntos de 666. Pois bem, Ambrose nos informa que não houve apenas um "Dia D", mas também uma "Hora H", que estava marcada para as 6:30 da manhã! É claro que se fosse as 6:00 ou as 6:18 os teóricos da conspiração ficariam mais felizes (no caso das 6:18 teríamos a agradabilíssima situação de encontramos três pares de 666). Mas, convenhamos, 6h30 não é de se jogar fora. Seguem citações que se referem à hora H:

"Os bombardeiros começariam ao nascer do sol e continuariam até H menos cinco minutos (o nascer do sol era às 5:58, a Hora H acertada para 6:30)." (página 141)

"Na Hora H, 6:30, oito LCT desembarcariam à esquerda, trazendo com eles para a praia a companhia A do 743° Batalhão de carros de combate." (página 142)

"Quando o primeiro raio de sol apareceu [na página 141 ficamos sabendo que o sol nascera faltando apenas 2 minutos para as 6 da manhã] Hezdte e a elite do sistema nazista marcharam para combatê-los. O primeiro contra-ataque significativo do Dia D estava a caminho. Lançaria uma força de elite americana contra uma força de elite alemã, um teste de sistemas." (página 285)

"Por volta das 6:00, os LCT restantes haviam desembarcado seus carros-de-combate flutuantes." (página 324)

Quanto à escolha do dia, li em pelo menos duas passagens do referido livro [infelizmente não anotei as páginas...] que o dia escolhido inicialmente fora 05/06 e que a data fora adiada para o dia seguinte por causa do mal tempo... Você acredita nisso? Eu também não. É só uma forma de disfarçar o plano original. Ou não.

E daí? O que tudo isso significa? Que os aliados se utilizaram de magia negra na Segunda Guerra? Que existe uma conspiração para nos escravizar? Que há gente paranóica e estúpida o bastante para dar atenção a tudo isso?

Sinceramente, não sei. Deixarei essa questão para a livre reflexão do leitor, uma vez que não tenho nenhuma para compartilhar.





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Tempore, quo cognitio simul advenit, amor e medio supersurrexit.