sábado, 2 de agosto de 2008

XXXI - Desideratum. Desideratum. Desideratum. Desideratum. Desideratum. Desideratum. Desideratum. Desideratum. Desideratum. Desideratum.

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§ 31








I used to think
I used to think
There was no future left at all
I used to think

(Radiohead, I Might be Wrong)


Pois bem, esta situação do homem perdido sem remédio é a própria imagem da nossa impotência para lançar longe de nós a vontade, uma vez que a nossa pessoa é apenas a realização objetiva desta última. (Arthur Schopenhauer, O Mundo como Vontade e como Representação, Tomo I, §59)


Enquanto cavalgávamos, éramos desencarnados, inconscientes da carne ou do sentimento, e quando, num intervalo, desaparecia a excitação, era com certa hostilidade que víamos nossos corpos com a compreensão desdenhosa de que alcançavam sua mais alta finalidade não como veículo do espírito, mas quando, dissolvidos, seus elementos serviam para adubar um campo. (T. E. Lawrence, Os sete pilares da sabedoria.)
Os pensadores antigos procuravam com todas as forças a felicidade e a verdade - e nunca ninguém encontrará o que é obrigado a procurar, diz o maldoso princípio da natureza. Mas quem procura em tudo a inverdade e se associa livremente com a infelicidade, para este, talvez, está preparado um outro milagre da desilusão: algo indizível, do qual a felicidade e verdade são apenas imagens e meros ídolos, acerca-se dele, a Terra perde seu peso, os acontecimentos e potências do mundo se tornam sonhos e, como nas tardes de verão, se espraia em torno dele uma transfiguração. Para aquele que contempla é como se começasse a acordar e como se fossem apenas as nuvens de um sonho evanescente que brincassem ainda em torno dela. Também estas acabarão por dissipar-se: então será dia. (Nietzsche, Considerações Extemporâneas, III, § 4)
Falamos o que não devia/Nunca ser dito por ninguém.(Legião Urbana, Ainda é cedo)

Avisa que é de se entregar o viver.
(Los Hermanos, Pois é)
Vivi tão pouco que tendo a imaginar que não morrerei. Parece inverossímil que uma vida humana se reduza a tão pouco. A gente imagina, apesar de tudo, que algo, cedo ou tarde, acontecerá. Profundo engano. Uma vida pode ser muito bem, ao mesmo tempo, vazia e curta. Os dias passam pobres, sem deixar nem lembranças; depois, de um golpe, acabam.
Às vezes, também, tenho a impressão de que conseguirei me instalar duradouramente numa vida ausente. Que o tédio, relativamente indolor, me deixará continuar a realizar os gestos corriqueiros da vida. Novo engano. O tédio prolongado não é uma posição sustentável. Transforma-se, cedo ou tarde, em percepções nitidamente mais dolorosas, de uma dor positiva. É exatamente o que está acontecendo comigo.
(Michel Houellebecq, Extensão do domínio da luta, parte I, cap.12)

Idéias fixas
Perseguem-me
O tempo todo,
Sem descanso,
Sem chance de escapatória.
Sem vontade de parar (de desejá-las).
Sem vontade de continuar (a viver).
Até que a morte venha me redimir.
Os outros viverão por mim.

De que vale percorrer
Toda a terra,
Todos os mares,
Se eu não posso chegar ao céu?

O mundo inteiro
Já não é o bastante,
Pois tudo o que eu quero
Ele não pode me fornecer.
A vida não é o suficiente.
Não vale a pena,
Definitivamente.
Desperdiçado.

Amargo me tornei.
Sinto ódio, todo o tempo.
Desapontamentos.
Frustrações.
Desencanto.
Angústia.
Nãos.
Não vou esquecer;
Não vou perdoar;
Não vou aprender;
Não vou entender;
Não vou aceitar.

Não, a vida não é bela.
Não, a vida não é boa.
Não, a vida não é justa.
Não, tudo não vai ficar bem.
Não, eu não vou ficar bem.
Não tenho culpa se a vida é uma ilusão.
Não vou mentir e
Dizer que sou feliz.


Por que eu deveria sorrir?
Por que eu deveria me importar?
Por que eu deveria respeitar?
Por que eu deveria acreditar?
Por que eu deveria me desculpar?
Por que eu deveria fingir?
Por que eu deveria crescer?

Eu perco tempo demais.
Eu não consigo sonhar.
Eu não consigo lembrar
Como é que eu fui ficar assim.
Eu não consigo lembrar
Quando é que eu me perdi completamente.
Irreconciliado com a civilização.

Quanto mais eu sei,
Mais eu descubro
Que tudo é mentira.
Tudo o que eu sei está errado.
Melhor seria não ter nascido.
Difícil é encontrar um só
Motivo para não se matar.
- Na morte não há dor.

À beira do abismo,
No limite.
Sem ilusões,
A verdade irrompe.
E a verdade ofende.
E a verdade é mesmo terrível.
Inaceitável.
Inferno é acordar todas as manhãs
Sem saber o porquê.
Mas nada está tão ruim
Que não possa piorar.
O poço não tem fundo.
E a luz no fim do túnel
É de um incêndio.

Permaneço atônito
Diante de um mundo que me choca
E, inescrutavelmente perplexo,
Eu me pergunto:
Por que as coisas são assim?
Por que as pessoas aceitam a vida como ela é?
Por que as pessoas se sujeitam,
Com a tranqüilidade da inconsciência,
A reproduzir tudo isso que aí está?
Vontade de saber.

O vazio.
O despropósito.
A indiferença.
É tudo uma grande farsa.
O caos reina.
Mas as pessoas não querem saber.
As pessoas querem ser enganadas.
As pessoas gostam de ser enganadas.
As pessoas são estúpidas.
Pois sem ilusões não conseguiriam viver.
Pois sem ilusão não conseguiriam suportar
O fardo da vida.
Um dia eu fiquei cego.
E já não há realidade,
Apenas escombros.
E já não há explicações,
Apenas jogos de palavras.
E já não há mais saídas,
Apenas portas fechadas.
E já não há mais sabedoria,
Apenas sofística.
E isso não é suficiente.
Não serve.
Pelas manhãs,
Pílulas,
Paliativos,
Que adiam o inevitável,
Que escondem o evidente,
Que negam o inegável,
Que perdoam o imperdoável,
Que tentam, sempre em vão,
Remediar o que já não tem remédio,
Consertar o que já não tem conserto,
Curar o que já não tem cura.

Um dia eu cheguei a acreditar
Que a vida talvez fosse boa.
Mas logo depois eu mudei de opinião.
Ninguém disse que seria fácil.
Ninguém jamais disse que seria tão difícil assim.


Tudo é tão insípido
Tudo é tão vazio.
Tudo é tão cretino.
Tudo é tão sem graça...

Quanto mais as coisas mudam,
Mais elas ficam iguais.
No fim eu vi o começo.
Progresso?
Que querem dizer com isso?
Pois a verdade é uma só
E não poderia ser diferente.

Eu fui tão longe que
Eu já nem sei ao certo
O que é mentira e o que é verdade,
O que é certo e o que é errado.
Eu (acredito que) sei sobre o que tudo é.

É sempre a mesma coisa.
Todos os dias são iguais.
Prisioneiro de um presente perpétuo,
Sem passado ou futuro.

Se a vida é um
Contínuo desdobramento da atividade
,
Então o que ocorre quando
Ela não consegue mais se desdobrar?


O real é miserável.
O hiper-real é ilusório.
Ambos são insuficientes.

Perambulo sofregamente
Por esse vale de lágrimas
E de ilusões,
Numa realidade hedonista de escombros.
E estas pessoas
- Estes fantasmas que,
Distantes, flutuam –
Elas já não me importam mais.
Elas já não me machucam mais.
E este lugar,
Ele já não possui valor algum.

Não devo nada para ninguém
Nada
Para ninguém.
Ninguém.
Por mim podem morrer todos,
Inclusive eu.
Eu não respeito ninguém.
Ninguém vai me dizer o que fazer.
Ninguém vai me dizer o que pensar.
Ninguém vai ousar me declarar verdades eternas.
Mesmo que todos digam que eu estou errado,
Eu não mudarei a minha opinião.
Também Schopenhauer, entre a primeira e a última edições da sua obra [máxima,]
Teve quarenta anos para mudar de opinião.
Mas não o fez...Pelo contrário,
Na velhice ele declarou:
"Aquilo que eu sabia antes, agora eu sei ainda mais".

De que vale ter boa vontade?
Para que todo esse barulho?
Para que toda essa agitação?
Se morreremos todos mesmo.
Por que eu deveria me levantar,
Se ainda hoje terei que me deitar novamente?
Por que tentar só mais uma vez
Se eu já vi tudo?

Deixe-me totalmente só.
Ninguém pode me ver chorar.
Colapsando paulatinamente,
Sem sair do lugar,
Nessa vida longa demais.

De que adianta se esforçar?
A sombria chama do desejo,
Para apagá-la eu faria qualquer coisa.
A espera interminável.
Mil obstáculos.
Mil dificuldades.
O prazer fugaz.
E por fim a desilusão.

Se ao menos houvesse
Um único momento
Que justificasse tudo isso.
Não há nenhum.
Não há nada.
E eu tentei.
E eu fiz tudo o que pude.
Mas não foi o bastante.

Preso nessa agonia.
O tempo escorre lentamente,
Dolorosamente.
E eu conto os dias.
E eu conto as horas.
Para a minha alforria,
Para o dia da minha fuga.

Pois se a vida
Me ofereceu algo de bom
Certamente o foi a convicção
De que tudo isso não é para sempre.

Quando eu acordar,
Quero que essa dor vá embora
Para eu nunca mais lembrar
De quem eu sou,
Do que eu sou,
De que eu estive nesse lugar,
De que eu conheci essa gente.

Nunca haverá satisfação.
Nunca haverá paz.
A dor não se interrompe.
Não há saída,
Para lugar nenhum.
A vida é uma prisão.

É tarde demais,
Sempre foi.
E sempre será.
Não há mais volta.
Agora não adianta mais.
E daí?
Por que alguém deveria se importar?
Agora não funciona mais.
E que diferença faz?

Eu precisaria acreditar
Que tudo isso faz algum sentido.
Eu precisaria acreditar
Que tudo isso não é em vão
Eu precisaria acreditar
Que meu sofrimento será recompensado
Mas as fantasias se desvanecem
Diante das evidências inequívocas,
E que se repetem de novo e de novo,
Da vacuidade e da futilidade radical da vida.

Foi tudo em vão,
Foi tudo um completo e
Total e irremediável desperdício.
Inútil.
Não tenho dúvida alguma disso.

Eu não posso continuar.
Eu não agüento mais.
Quero ir embora
Para nunca mais voltar.
Quero desaparecer.
Isso já não foi o bastante?
Ó, por favor...
Tanta gente morrendo por aí.
Tanta gente implorando
Para viver um pouco mais,
Para sofrer um pouco mais.
Por que não eu?
Se um dia, há quase dez anos,
Eu já acordei morto mesmo?
Por que continuar?
Se para mim a vida já terminou?

Sinto muito que seja assim.
Mas não há nada mais o que fazer,
A não ser esperar
O tempo passar
E acabar com tudo o que restou,
De uma vez por todas.

E assim, pela primeira
E última vez,
Eu terei algo que
Desejei ardentemente.

Isso é o que acontece
Quando se vai pelo caminho errado.
Mas nesse jogo de soma zero,
Para uns vencerem outros devem,
Necessariamente, perder.
Pois o prazer se paga com a dor.

Isso não vai ficar assim.
(Ou vai?)





***

Tempore, quo cognitio simul advenit, amor e medio supersurrexit.

7 comentários:

Anônimo disse...

‘ O duvidoso conforto da morte...’
O milenar dilema “ser ou não ser’.
Não ser, será que é mais fácil que ser? Os que sabem não podem falar...
Ser? Puxa, tem algumas janelas de conforto...

Duan Conrado Castro disse...

Vc deve ter percebido que eu falo neste blog bastante num tal de "Schopenhauer". Pois bem, ele é conhecido como "o filósofo do pessimismo". Obviamente, é o meu filosofo favorito, embora eu esteja longe de considerar tudo o que ele fala como verdadeiro....Pois bem, ele não acredita em vida após a morte, mas também insiste que a morte não é o fim. Ele acredita em algo semelhante à reencarnação: a coisa-em-si esta fora do espaço-tempo e portanto está fora do ciclo de nascimento e morte; dessa forma o suicídio não seria uma libertação, visto que não resolve o problema o desejo (que segundo ele é a tal da coisa-em-si e blá-blá-blá). Em suma, ele cita o mito hindu que diz que "sereis repostos no mundo" a menos que consigam sair do ciclo de nascimento e morte (e chegar no Nirvana). Desta forma estaríamos condenados a existir, e a vida é sempre algo certo e garantido.

Quanto a mim, concordo que a vontade de vida (que é o id da psicanálise) é o centro do aparato psíquico do indivíduo, e portanto daquilo que nós conhecemos como sendo o "eu". Isso quer dizer que, exceto no suposto caso raríssimo do santo que chega à iluminação, não é possível abandonar o desejo (de vida), e portanto , também, o estado de sofrimento.

E blá-blá,...Em suma: reconheço intelectualmente que melhor seria estar morto, mas isso não muda o fato de que o centro da minha psique é justamente um desejo insaciável de viver, e viver bem.

A propósito, "desideratum" quer dizer "aquilo que se deseja" em latim.

Lucius disse...

Com licença que eu vou lá fora me matar.

Lucius disse...

"...lamentar-se eternamente, sem ser suficientemente forte para se resignar, é perder ao mesmo tempo o paraíso e a terra, para guardar apenas uma sentimentalidade lacrimosa." O Mundo como Vontade e como Representação, tomo I, capítulo 68.

Sai dessa guri!

Duan Conrado Castro disse...

É, eu sei disso...O problema é justamente ser forte o bastante.

Silas disse...

Por que não eu?
Se um dia, há quase dez anos,
Eu já acordei morto mesmo?

O que aconteceu?

Porque você acordou morto há dez anos?

Duan Conrado Castro disse...

A esquizofrenia na pós-modernidade (por David Harvey no cap. 3 do livro “A condição pós-moderna”).

O relato do pós-modernismo que esbocei até agora parece depender, para ter validade, de um modo particular de experimentar, interpretar e ser no mundo – o que nos leva ao que é, talvez, a mais problemática faceta do pós-modernismo: seus pressupostos psicológicos quanto à personalidade, à motivação e ao comportamento. A preocupação com a fragmentação e a instabilidade da linguagem e dos discursos leva diretamente, por exemplo, a certa concepção da personalidade. Encapsulada, essa concepção se concentra na esquizofrenia (não, deve-se enfatizar, em seu sentido clínico estrito), em vez de na alienação e na paranóia (ver esquema de Hassan). Jameson (1984b) explora esse tema com um efeito bem revelador. Ele usa a descrição de Lacan da esquizofrenia como desordem lingüística, como uma ruptura na cadeia significativa de sentido que cria uma frase simples. Quando essa cadeia se rompe, “temos esquizofrenia na forma de um agregado de significantes distintos e não relacionados entre si”. Se a identidade pessoal é forjada por meio de “certa unificação temporal do passado e do futuro com o presente que tenho diante de mim”, e se as frases seguem a mesma trajetória, a incapacidade de unificar o passado, o presente e o futuro na frase assinala uma incapacidade semelhante de “unificar o passado, o presente e o futuro da nossa própria experiência biográfica ou vida psíquica”. Isso de fato se enquadra na preocupação pós-moderna com o significante, e não com o significado, com a participação, a performance e o happening, em vez de com um objeto de arte acabado e autoritário, antes com aparências superficiais do que com raízes (mais uma vez, ver o esquema de Hassan). O efeito desse colapso da cadeia significativa é reduzir a experiência a “uma série de presentes puros e não relacionados no tempo”. Sem oferecer uma contrapartida, a concepção de linguagem de Derrida produz um efeito esquizofrênico, explicando assim, talvez, a caracterização que Eagleton e Hassan dão ao artefato pós-moderno típico, considerando-o esquizóide. Deleuze e Guattari (1984, 245), em sua exposição supostamente travessa, Anti-Édipo, apresentam a hipótese de um relacionamento entre esquizofrenia e capitalismo que prevalece “no nível mais profundo de uma mesma economia, de um mesmo processo de produção”, concluindo que “nossa sociedade produz esquizofrênicos da mesma maneira como produz xampu Prell ou os carros Ford, com a única diferença de que os esquizofrênicos não são vendáveis”.