sexta-feira, 15 de maio de 2009

LXIV - Acerca das críticas kantiana e schopenhaueriana aos argumentos teológicos.



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§ 64







Estamos ainda surdos ao rumor dos coveiros cavando o túmulo de Deus? Não sentimos ainda o mau cheiro da putrefação divina?... A coisa mais santa e poderosa do mundo sangrou sob as nossas facas... Proeza maior jamais foi realizada e, graças a ela, qualquer um que venha depois de nós viverá uma história maior que qualquer outra vivida antes. (Nietzsche, Assim falou Zaratustra)

A miséria religiosa é, à uma, expressão da miséria real e protesto contra a miséria real. A religião é o suspiro da criatura aflita; é o sentimento de um mundo sem coração e o espírito de condições nada espirituais. É o ópio do povo. (Marx, Contribuição para a crítica à filosofia do Direito de Hegel)

Kant teve um papel fundamental na derrubada dos pensamentos escolástico e teológico do pedestal de "verdades absolutas" em que eles se encontraram durante centenas de anos. Com esse nobre e imortal serviço prestado ao pensamento humano, Kant ajudou a abrir o caminho para o pensamento laico e livre da venenosa presença da religião em geral e da Igreja Católica em particular.

Na sua obra-prima, Crítica da Razão Pura, Kant derrota a teologia e a escolástica com sua próprias armas: as sutilezas metafísicas e os castelos de palavras. Na "seção terceira do capítulo terceiro do livro segundo da dialética transcendental" Kant nos revela que há somente três "argumentos da razão especulativa para inferir a existência de um ente supremo": ontológico, cosmológico e físico-teológico. As célebres seções seguintes são:

Seção quarta: Da impossibilidade de uma prova ontológica para a existência de Deus.
Seção quinta: Da impossibilidade de uma prova cosmológica para a existência de Deus.
Seção sexta: Da impossibilidade da prova físico-teológica.
Seção sétima: Crítica de toda teologia a partir de princípios especulativos da razão.

No meio da seção quinta, há ainda um estudo do seguinte tema: "Descoberta e explicação da ilusão dialética em todas as provas transcendentais da existência de um ente necessário."

Cabe lembrar que esses argumentos foram desenvolvidos pela teologia e pela escolástica e foramconsiderados verdades irrefutáveis durante séculos (e para algumas pessoas ainda são). Com relação ao argumento físico-teológico, Schopenhauer nos informa (na Crítica da filosofia kantiana, apêndice do Tomo I d' O mundo como vontade e como representação) que até mesmo Voltaire a considerava irrefutável.


Argumento ontológico.

Afirma basicamente que, se a razão é capaz de conceber o conceito de "ser perfeito", esse ser deve necessariamente existir, dado que existência é, também necessariamente, um dos atributos da perfeição (sic) (Digo sic pois, como não existe nada de perfeito nesse mundo, não entendo por que a "existência" seria um dos atributos do conceito de "ser perfeito").

Esse argumento é tão absurdo e estúpido que não surpreende o quanto Kant penou para refutá-lo com os argumentos mais sofisticados e hiperbólicos possíveis. Vemos aqui a típica "ciência da razão pura": a arrogância do nosso homo sapiens sapiens que acredita ter o poder de saltar para o "outro lado" por meio de uma simples palavra, e, com esse método vergonhoso, advoga a capacidade de conhecer efetivamente esse outro lado, inclusive conhecer a deus, com todas as suas sutilezas e cortejo de propriedades contraditórias. (O místico-matemático-filósofo Ouspenski é célebre em cair nesse erro grosseiro, não obstante ele se venda ridiculamente ao leitor como o verdadeiro descendente da doutrina kantiana.)

De forma resumida, Kant dá a seguinte resposta ao argumento ontológico: a existência é uma das categorias apriorísticas do entendimento e como tal não possui validade alguma a não ser quando aplicada a um objeto intuído no espaço-tempo (ou seja: um fenômeno, um objeto cuja existência é reconhecida por meio dos sentidos).

Argumento cosmológico.

Consiste em enumerar causas dos fenômenos, formando uma regressão de causas e efeitos, até chegar a uma "causa não causada", atribuída então a deus. Uma das versões desse argumento é aquela do "primeiro movimento" (que se não me engano é atribuído a Aristóteles, ou a Demócrito).

Segundo Kant, esse argumento pode ser reduzido ao anterior. Novamente temos aqui a ciência da razão pura, e a pretensão da razão de, partindo do mundo fenomênico, alçar vôo (nas asas das palavras vazias e definidas arbitrariamente) e alcançar o transcendente, o qual ela então afirma conhecer muito bem: diz que se trata de um ser, infinitamente inteligente, justo, bom, poderoso, etc (conhece-se o rosário sem fim).

Richard Dawkins, no seu livro (muito bom e cuja leitura recomendo veementemente) Deus, um delírio repete exaustivamente que esse tipo de raciocínio não esclarece absolutamente nada, pois se a realidade por nós conhecida (tão complexa e ao mesmo tempo harmoniosa) foi criada por um ser infinitamente poderoso e inteligente, então agora temos que explicar como tal ser pode existir, já que ele deve ser tão ou mais complexo quanto a sua crição. Ou seja, o problema da inexplicabilidade (que para Kant apenas existe porque a razão ultrapassa ilegitimamente os seus limites de ação - os limites do mundo material) apenas muda de nome: se antes o inexplicável era o mundo, agora, com essa "explicação" (que não explica nada), o inexplicável é deus.

Para Kant, não há absolutamente motivo algum para parar essa regressão da razão pura em deus, e então dizer algo do tipo "deus, por sua vez, sempre existiu". Ora, por que não aplicar isso ao próprio universo? Por que ele precisa ter sido criado por alguém? Obviamente, ele não precisa: as pessoas querem acreditar em deus, e querem por outro motivo que não uma pesquisa avalorativa e independente da razão. (Qualquer um que entrou numa igreja buscando exclusivamente a "verdade", e não algum tipo de auxílio, certamente saiu de lá em pouco tempo.)

Argumento físico-teológico

É algo mais ou menos assim: todos os seres da natureza cumprem algum fim, "servem para alguma coisa", logo deve haver um fim último, identificado com (adivinha?) deus.

Esse argumento é o mais famoso e existe sob as mais diversas formas (por exemplo: "argumento do Boeing 747", "argumento do Ulisses de Joyce", etc.), a mais famosa dela atualmente - 228 anos depois que Kant publicou a primeira edição da Crítica da Razão Pura - é a autodenominada "teoria do design inteligente".

O argumento físico-teológico, nos diz resumidamente Kant, utiliza indevidamente o conceito de fim. Ora, como na sociedade humana todos os objetos são, antes, planejados por alguém, o indivíduo (que quer a todo custo provar que o Papai Noel do qual ele depende emocionalmente tem que existir) lança um olhar para a natureza e, aplicando a ela o padrão observado na sociedade, infere da harmonia da natureza que ela, também, teve que ter um arquiteto (o nosso bom e velho deus). É tão difícil perceber que não é lícito sair dos limites da experiência (fenômeno/mundo) e pretender tirar, por meio da especulação da razão pura (pura de intuição espaço-temporal, pura de dados empíricos), da adequação a finalidades quaisquer conclusões referente a um ser superior (inclusive a conclusão de que esse ser (não) existe)?

Uma forma atual (e não metafísica) de criticar a atual "teoria do desing inteligente" é o "princípio antrópico", o qual, grosso modo, diz que não faz sentido nos maravilharmos com a perfeição (perfeição?! que perfeição?) do mundo (e dela pretendermos inferir a existência de um criador), se essa perfeição é uma condição necessária para a nossa própria existência (humana): se essa perfeição não existisse, também nós não existiríamos para podermos nos espantar com ela. (Para saber mais sobre o princípio antrópico, remeto ao livro de Richard Dawkins, mencionado acima, e ao livro O universo numa casca de noz de Sthephen Hawking.)

Schopenhauer (na Crítica da filosofia kantiana, apêndice do Tomo I d' O mundo como vontade e como representação) nos diz, entre outras coisa, o seguinte sobre o argumento físico-teológico:

Porém, depois que, através de Kant, o mundo e a sua ordem tornaram-se mero fenômeno, cujas leis repousam prioritariamente nas formas de nosso intelecto, a existência e a essência das coisas e do mundo não precisam mais ser explicadas, de acordo com a analogia das mudanças percebidas ou efetuadas por nós no mundo, nem aquilo que nós compreendemos como meio e fim teria nascido em consequência de um tal conhecimento.




Argumento keraunológico

Na já mencionada Crítica da filosofia kantiana, Schopenhauer, após fazer seus devidos comentários sobre os três argumentos teológicos, apresenta-nos um quarto:

Kant, como foi dito, só trata da crítica dessas provas da teologia especulativa e limita-se à Escola. Se, em vez disso, ele tivesse diante dos olhos também a vida e a teologia populares, teria que acrescentar às três provas ainda uma quarta, que é, para a grande massa, a única propriamente eficaz e que, de modo mais condizente com a linguagem técnica de Kant, deveria ser chamada de prova keraunológica (para a multidão): é aquela que se fundamenta no sentimento de necessidade e de ajuda, de impotência e de dependência dos homens em relação às forças da natureza, infinitamente superiores, insondáveis e muitas vezes ameaçadoras; a que se associa sua inclinação natural a personificar tudo e, finalmente, ainda acrescenta-se a esperança de conseguir algo, através de rogos, adulações, bem com de oferendas.

Quanto à "teologia popular", essa já foi tão criticada por tantos pensadores (o precursor foi Hume) que para mim é quase incompreensível como ela ainda subsista até hoje, de tal forma que não há outra explicação que não a rudeza del pueblo. Mesmo esse blog apresenta argumentos contra tais crenças tolas.

Com relação à discussão que gira em torno do argumento de que "é natural" ao homem acreditar em deus, é preciso deixar bem claro que, se alguma coisa é natural no homem, não seria a crença no deus judaisco-cristão-escolástico, mas sim uma regiliosidade baseada no argumento keraunológico, isto é, na necessidade de comerciar com um suposto poder superior a fim de conseguir proteção, conforto, e vantagens.

Com relação ao panteísmo que busca identificar o mundo com deus, Schopenhauer (cap V de Parerga e Paralipomena) nos diz que esse argumento não diz nada (surpresa), pois apenas acrescenta um sinônimo desconhecido e supérfluo (deus) a algo que nós já conhecemos (o mundo), enquanto deus continua tão desconhecido quanto antes. Se se quer atribuir alguma sacralidade ao mundo, não é necessário personificá-lo e criar um monte de mentiras extravagantes em torno dessa personificação.

Com relação ao panteísmo de Espinosa (e aqui vale lembrar que Einstein dizia que acreditava no deus de Espinosa, não no deus judaico-cristão-escolástico), ele é, na prática, um ateísmo. Pois um deus que não se importa com a humanidade em geral (e com o devoto e particular), um deus para o qual não adianta rezar pois ele não quebrará a ordem de um mundo por ele mesmo criada, esse deus, dizia eu, não serve para nada do ponto de vista do real motivo pelo qual as pessoas acreditam em deus.

A pretensão de acreditar que todos os povos acreditam em algo semelhante ao deus judaico-cristão-escolástico não sobrevive a uma investigação histórica e antropológica (e já no século XVIII David Hume publicou o ótimo História natural da religião mostrando isso).

Gostaria de aproveitar o momento e fazer uma citação de Freud no seu texto O futuro de uma ilusão (a ilusão em questão é a religião). Diante da afirmação "creio porque é absurdo" (atribuída a Tertuliano e que pretende colocar a religião acima dos limites da razão), Freud inquiri: "Devo acreditar em todos os absurdos? E caso não, por que nesse em particular?" De forma análoga, Richard Dawkins nos informa do insucesso da "teoria do bule flutuante", segundo a qual haveria um bule de chá na órbita de Júpiter. Freud diz ainda que as experiências de revelação divina, mesmo que sejam verdadeiras, não podem ser impostas aos outros como sendo provas.

Por fim, mesmo que esses argumentos teológicos fossem verdadeiros, a necessidade de um criador não prova nada a respeito do cristianismo (ou de qualquer outra religião monoteísta): pois existe um abismo gigantesco entre simplesmente admitir que o mundo tem que ter sido criado por alguém e admitir como igualmente verdadeiro cada dogma particular de cada religião monoteísta (por exemplo: que esse mesmo criador se fez humano, que nasceu de uma virgem, que morreu assassinado por nós em sacrifício a si mesmo para expiar os nosso pecados, porque ele nos ama e, por ser justo, não quis quebrar as regras que ele mesmo criou, e que ele nos julgará quando morrermos, ou mesmo em vida, etc.).

P.S. (1): Para quem pensa em me falar do Kant da Crítica da razão prática, lembro que a filosofia schopenhauriana, entre outras, demonstrou que é possível fundamentar a moral na compaixão, e não na necessidade egoística de ser castigado ou recompensado (por deus) pelos seus atos.

P.S. (2): O bom e velho Hegel "reabilitou" as provas da teologia racional, a começar pelo argumento ontológico. Quem quiser saber a esse respeito (e eu provavelmente não viverei o bastante para ter tempo para isso), pode ler os seguintes textos do summus philosophus: Lições sobre a filosofia da religião, A noção da religião, A religião absoluta e As provas da existência de Deus. Na Estética (A idéia do belo, I), Hegel mesmo afirma que a filosofia "não tem outro objeto além de Deus, ela é essencialmente teologia a serviço divino." É claro que Hegel, como um porta-voz do establishment, simplesmente não tem lugar nesse blog.







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Tempore, quo cognitio simul advenit, amor e medio supersurrexit.

2 comentários:

Gabriel P. Kugnharski disse...

"É claro que Hegel, como um porta-voz do establishment, simplesmente não tem lugar nesse blog."
Haha, ótimo isso. Engraçado que ainda não li Hegel, mas tenho um pressentimento de que vou ter sérios problemas com ele.
Gostei muito do seu post. Lembrei bastante do do livro do Russell "Porque não sou cristao", já leu?
Me interesso muitíssimo por esta questão, você deve ter visto os links de blogs ateus no meu blog... Mas é uma questão que dá muita dor de cabeça também...
Em todo caso, eu também acredito no deus do Spinoza.

Duan Conrado Castro disse...

Gabriel,
Não li esse livro não. Da minha parte, penso que o panteísmo spinozista é um ateísmo disfarçado. O Deus de Spinoza não "serve" para nada, do ponto de vista da religiosidade popular. Na prática, é uma ausência de deus. Pelo menos é o que eu penso sobre isso.