§ 54
1.2. A inautenticidade
Sobre esse segundo tópico paira um conceito da filosofia existencialista: a inautenticidade. É por inautenticidade (que pode atuar em conjunto com a ignorância) que muitas pessoas preferem acreditar em mentiras, as quais lhes permitem não se responsabilizar por parte dos seus atos. Trata-se da velha estratégia de jogar aos outros a responsabilidade que é nossa.
A inautenticidade pode atacar aquelas pessoas que, com passado, ou ainda presente, ignorante e alienado, entram em contato com o conhecimento filosófico, histórico, ou cientifico que negam as crendices. Ataca, igualmente, pessoas que podem ter um conhecimento profundo da área na qual atuam profissionalmente, mas que ou se negam a refletir e a discutir sobre religião ("religião não se discute") – buscando, assim, não conhecer os argumentos demolidores de suas crenças, cuja existência e efetividade já pressentem – ou simplesmente não têm acesso a esses argumento – isso porque não têm o menor interesse em procura-los (não saem do seu ponto de conforto, pois sabem que se saírem encontrarão férrea discussão, tendo, inclusive, que rever muitos dos mais primordiais conceitos que regem as suas vidas: atacar as crenças de alguém é atacar o próprio alguém).
Em geral, o inautêntico tem medo de um "castigo" eterno, por isso ele não se arrisca a refletir sobre a farsa do seu credo (seu senhor e seu algoz); ele prefere negar-se a esse exercício e se esconder em seu casulo tecido por verdades absolutas. Muitos destes indivíduos, mesmo tendo sérias dúvidas acerca da integridade de seu credo, continuam a freqüentar a igreja, em silêncio (para que não se duvide de suas convicções), o que, além de inautêntico, e soberanamente hipócrita.
A triste verdade é que o inautêntico não tem coragem suficiente para realizar as dolorosas operações que lhe separarão das mentiras que lhe foram impostas autoritariamente quando ele era apenas uma criança.
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Tempore, quo cognitio simul advenit, amor e medio supersurrexit.
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