sábado, 11 de outubro de 2008

XXXVI – Acerca de pensamentos "blasfêmicos" decorrentes do contato social com uma idosa religiosa ignorante - Velha cretina.

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§ 36







(...)Se colocássemos sob os olhos de cada um as dores, os sofrimentos horríveis a que a vida nos expõe, o pavor tomar-nos-ia: peguem o mais amadurecido dos otimistas, levem-no através dos hospitais, dos lazaretos, das salas onde os cirurgiões fazem mártires; através das prisões, das câmaras de tortura, dos telheiros para escravos; nos campos de batalha, e nos locais de execução, abram-lhe todos os negros retiros onde se esconde a miséria, que foge dos olhos dos curiosos indiferentes; para acabar, façam-no lançar um olhar na prisão de Ugolino, na Torre da Fome: ele verá, então, bem o que é o seu meilleur des mondes possibles (Leibniz, Essais deThéodicée sur la bonté de Dieu, 1, 8). E aliás, de onde é que Dante tirou os elementos de seu Inferno, senão deste mundo real? Na verdade, ele fez um inferno bastante apresentável. Mas quando se tratou de fazer um Céu, de lhe descrever as alegrias, então a dificuldade foi insuperável: o nosso mundo não lhe fornecia nenhum material. Portanto, ele apenas teve um caminho a seguir: em vez de falar da felicidade do Paraíso, voltou a dizer-nos as lições que tinha dos seus antepassados, da sua Beatriz e de diversos santos. Chega para confessar o que é nosso mundo. (...) (Arthur Schopenhauer, O Mundo como Vontade e como Representação, Tomo I, §59)


Estava eu, mais uma vez, no ônibus quando o mesmo passou ao lado de um acidente automobilístico: uma colisão entre uma caminhonete e um motociclista. Este último, ou o que restara dele, se encontrava sob a primeira.

Dentro do ônibus, uma velha sentada com um livro grosso (em cuja capa estava escrito “Bíblia Sagrada”) nas mãos se mostrou em visível aflição pelo ocorrido. Para uma outra velha, sentada logo no banco de trás e com o mesmo livro entre as mãos, começou então a fazer comentários cretinos, como “vamos pedir para deus ajudar ele a se recuperar” ou “deviam [o governo, sempre ele] fazer isso ou aquilo para que isso não acontecesse”.

Pronto. Ouvir esse monte de merda foi suficiente para estragar o resto do meu dia, e foi suficiente para que eu escrevesse esse capítulo. Então vamos continuá-lo.

Velha idiota. Ela tem que ver o sofrimento ao vivo e a cores (de preferência com odores também) para ser capaz de se comover.

Então ela não sabe que pelo menos um acidente igual ou pior que aquele ocorre neste planeta a cada cinco minutos? Então ela não sabe que uma mulher é violentada no mundo a cada minuto? Então ela não sabe que a cada segundo algum desgraçado morre de fome ou sede neste planeta? Então ela não sabe que, também a cada segundo, alguém morre de malária aqui na Terra? Então ela também não sabe que a cada minuto uma mulher morre nesse planeta em conseqüência de um parto mal feito (e que essa é a maior causa de morte feminina atualmente existente)? Então ela não sabe que a cada dia, apenas na China, cinco operários sofrem amputações decorrentes de acidentes de trabalho? Então ela ainda não sabe que, todo ano, dezenas de milhares de pessoas são vendidas como escravas ao redor do mundo? Então ninguém contou para ela que, todo maldito dia, centenas de pessoas morrem, nessa porcaria desse planeta, por falta de atendimento médico adequado? E ninguém contou para ela que todo mês, apenas no glorioso Brasil, desaparecem cerca de 3.500 crianças. Ou que ainda morrem, na média, mais de 30 crianças em cada 1000 por ano, antes de completar um ano de idade, por motivo de doenças torpes - causadas pela falta de educação formal e de saneamento básico. Então ela também não sabe que a maioria da população deste triste planeta é formada por indigentes? Etc (se eu fosse escrever todas as degraças do mundo aqui, esse seria um parágrafo sem fim).


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Nem vou falar do holocausto dos milhões de animais que são torturados e executados diariamente (isso mesmo, milhões diariamente), numa verdadeira indústria da tortura¹ e da morte, com o objetivo de dar mate ao apetite necrófago desse homo sapiens, isso não obstante:

“Bom é não comer carne, nem beber vinho, nem fazer outras coisas em que teu irmão tropece, ou se encolerize, ou se enfraqueça.” (Romanos 14:21)

A necrofagia vai mais longe, e chega mesmo ao canibalismo. Na China, nação destinada a dominar o mundo cultural e economicamente, os fetos dos milhares de abortos realizados diariamente são vendidos e consumidos como iguarias.





Os chineses também comem cães e gatos, e tudo o mais que o mova.











Mas não, o mundo dessa velha idiota se resume, com a exceção da figura do Papai Noel (da qual logo iremos falar), àquilo que ela consegue ver, ouvir tocar e cheirar no aqui e no agora. E nada mais. Eis a sabedoria que vem com a idade. Pois essa cretina poderia viver um milhão de anos sem que fosse capaz de se aperceber disso.

E já que ela falou tanto desse tal de “Deus”, o que ela, se soubesse e entendesse tudo isso, diria a respeito do rapaz? Deus esse que – diferentemente dela e de acordo com os poderes que ela acredita ele possuir – assiste, impassível, ao vivo e a cores, e ainda simultaneamente, a todas essas cenas de sofrimento; a cada uma delas e a muitas outras não mencionadas aqui, de sofrimento igual menor ou maior, que já ocorreram, que ocorrem nesse instante ou que ainda ocorrerão. O que se pode esperar de um mundo feito às pressas (em seis dias)? Jeová, porém, achou tudo "muito bom" (Gênesis 1:31).

Mesmo assim, ela acredita que todos os seres humanos devem alguma coisa a esse deus, que afinal de contas é o legítimo proprietário de toda a sua criação. Mesmo assim, ela acredita que esse mesmo deus é digno de louvor.

Ela, agora que, após sessenta anos, tomou conhecimento dessas informações, poderia alegar, em defesa do seu deus, por exemplo, que cada um sofre o que merece, sofre de acordo com as escolhas que o seu livre-arbítrio faz. Mas aí ela se esqueceria de dois pontos: (i) isso acaba com a capacidade dela de sentir compaixão pelo próximo, e assim ela troca o fim (amar o próximo) pelo meio (acreditar em deus e temer o seu castigo, ou esperar a sua recompensa); e (ii) então uma criança é estuprada porque merece, então alguém morre por não ter atendimento médico porque merece, então alguém morre de fome porque merece, então um trabalhador é amputado porque merece, etc., etc., etc.

Mas a nossa querida velhinha ainda poderia tirar outra carta da manga (na verdade não, pois ela é tão tapada que não conseguiria pensar em um argumento “sofisticado” como esse, e muito menos no seu respectivo contra-argumento): ela poderia dizer que, pelo livre-arbítrio, o pecado entrou no mundo, e com ele todo esse sofrimento que a humanidade padece; poderia, ainda, acrescentar que o problema já foi resolvido, há quase 2.000 anos, pelo próprio deus disfarçado de humano, e que, portanto, vai terminar tudo bem.

Os erros desse argumento são muitos, dos quais destaco os seguintes:

a) Se o homem foi capaz de pecar – de praticar um ato de corrupção – isso apenas foi possível se ele já era, antes mesmo do primeiro pecado, alguém corrompido e, portanto, passível de pecar.

Se, segundo a lógica de abracadabra da crença retardada dessa velha, deus criasse o homem livre, mas perfeito (não corrompido) seria impossível ao homem, mesmo se fosse onipotente, pecar; como, aliás, o é para esse mesmo deus ao qual se atribui onipotência e perfeição: se é perfeito, ele, por definição, está apartado para sempre do pecado.

b) O mesmo se aplica à historinha sobre Lúcifer (isso no caso previsível de nossa velhinha querer “jogar a culpa” sobre o diabo). Lúcifer apenas poderia se rebelar se deus já o tivesse criado com a inveja a ganância e a prepotência que foram necessárias para levá-lo a se voltar contra seu criador.

Com relação a essa questão da culpa de Lúcifer, só existe uma maneira dela não acabar caindo sobre o próprio deus: é a que afirma ser Lúcifer um poder paralelo a Jesus e não um poder criado pelo próprio deus. Mas isso tira desse deus a coroa de criador de tudo, e acaba por colocar o diabo em estado de igualdade, no que diz respeito aos poderes, para com deus. E nossa querida velhinha certamente não quer isso.

c) O suposto livre-arbítrio não pode negar a onipotência e a onisciência de deus. Ou seja, esse deus, mesmo com o livre-arbítrio (obra de sua criação voluntária e portanto responsabilidade sua), já sabia ex ante, e já sabia há um tempo infinito, tudo o que ocorreria, inclusive o pecado original (que na verdade é uma conseqüência lógica e inevitável da constituição humana tal como – sempre segundo essa crença estúpida da velha – deus a criou), e inclusive esse acidente automobilístico que agora surpreende e aterroriza a pobre, bondosa e imbecil velhinha.

Portanto, se deus criou tudo sabendo de todas as conseqüências de seus atos, adivinhem quem é o único responsável nessa história toda.

Apesar de tudo, ela continua acreditando que esse deus é bom, que esse deus é justo, que esse deus tem misericórdia, que esse deus tem compaixão, que esse deus merece louvor, que esse deus, coitadinho dele, se ofende, fica chateado, quando alguém peca (o que ocorre dezenas de milhares de vezes por segundo).

d) Nem vou comentar acerca da “justiça” e da “bondade” de uma regra (inventada hipoteticamente de boa vontade pelo próprio deus no qual ela parvamente crê) que faz com que pessoas que nascem, vivem e morrem hoje paguem por um único pecado cometido (e cometido com uma tal facilidade que era óbvio que ele seria cometido logo depois da criação do primeiro homem, como “de fato” ocorreu) por um terceiro há pelo menos 5.000 anos, mesmo depois do problema já ter sido pretensamente resolvido há quase 2.000 anos. O tempo de deus, mas é claro, é diferente do dos homens. Enquanto isso a gente vai tomando no cu.

e) Também não vou comentar que o mesmo deus que inventou arbitrariamente regras poderia mudá-las in continenti, com a mesma facilidade com a qual as tirou de sua cartola. Mas ele não o faz. Não o faz porque não o quer.

f) E, ainda, também não vou comentar sobre a perfeição e a onipotência de um criador que não é capaz – ou não quis ser capaz – de fazer uma obra perfeita, verdadeiramente à sua imagem e semelhança, isto é, de conciliar liberdade e ausência de pecado (propriedade essa que ele mesmo hipoteticamente possui – a menos que alguém admita que deus também peca; se pecasse não teria moral para “se ofender” com os pecados de sua criação, e então não seria deus)
Essas histórias do pecado original e da origem de Lúcifer são as histórias mais mal contadas que eu conheço. Lúcifer não se rebelou contra deus junto com DOIS TERÇOS dos anjos? Como ele conseguiu convencer toda essa gente? Vai ver a vida diante da presença de deus não era tão boa quanto a "história oficial" quer que a gente acredite.
A ignorância, a estupidez e a fé (nos deuses em geral) caminham de mãos dadas. Já o relacionamento entre a sabedoria e a inteligência com a fé é bem diferente: é como trancar numa mesma jaula um leão e um cordeiro.

Mas argumento algum mudou ou vai mudar a crença de alguém, pois cada uma acredita no que quer acreditar, e cada um quer acreditar naquilo que é conveniente aos seus interesses materiais, ou à sua personalidade. Se queremos mudar a opinião de alguém é a esses interesses que devemos nos reportar.

As pessoas são estúpidas.

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1 Se você ainda duvida que a brutalidade e baixeza humanas não têm limites, então tenha o culhão de assistir a esse vídeo, no qual fabricantes de peles as arrancam dos pobres e indefesos animais ainda vivos, e depois os jogam num canto para agonizarem até a morte: http://www.peta.org/feat/ChineseFurFarms/index.asp









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Tempore, quo cognitio simul advenit, amor e medio supersurrexit.

22 comentários:

Lucius disse...

"Enquanto isso a gente vai tomando no cu." Hahahahaha. Cara, tu tava puto quando escreveu isso heim...

Eduardo Canelloni disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Eduardo Canelloni disse...

Me parece que esta postagem "sintetiza" o blog.

Duan Conrado Castro disse...

Não sei não...Por exemplo, no cap XXXVIII eu vou voltar a falar em conspiração satânica para trazer o anticristo ao mundo...Perceba: onde está a coerência? Numa postagem eu apresento argumentos ateus, na outra eu falo em conspiração satânica, na outra falo de Schopenhauer...O objetivo principal do blog não é apresentar argumentos ateus ou criticar a estupidez das pessoas, mas sim retratar a minha confusão mental.

Gustavo Waldrigues Werpachowski disse...
Este comentário foi removido por um administrador do blog.
Silas disse...

Não fui capaz de assistir o vídeo até o fim.

É por coisas como essa que você definiu que eu entrei na fase de Schopenhauer. Eu definitivamente desprezava demais o mundo parar querer ter relações com ele.

E esse desprezo ainda existe em mim. Lá no fundo ele existe.

Mas me faz bem a idéia de que nem todas as pessoas são assim, e de que essa atrocidade que estavam fazendo com o cão, por exemplo, esteja sendo denunciada por alguém que quer acbar com isso: que luta contra isso.

Ser otimista não tem nada a ver com achar que o mundo é perfeito. Uma pessoa feliz sente tristeza: que não sente tristez é, na verdade, um iludido. Um estúpido.

Mas a felicidade e a alegria não são a mesma coisa, assim como a tristeza não é o mesmo que a infelicidade.

Tristeza e alegria são sensações. A Felicidade e a infelicidade são estados de espírito.

É besteira isso de não pensarmos no que há de ruim no mundo e acharmos que isso é felicidade. Quando estamos integrados com o todo nós sofremos muito sim. Sofremos com a dor do próximo e também com a dos animais(como eu que não suportei o vídeo).

Nós choramos e sorrimos com a vida, da mesma maneira que uma pessoa não integrada. Só que no fim do dia, quando os sentimentos são dissipados e estamos quase dormindo, é só a felicidade que sobra. Equilíbrio e harmonia para ir pra luta por um mundo melhor.

Uma pessoa que não está integrada seria infeliz no melhor dos mundos. Nenhuma alegria que vem de fora se comprar á alegria que vem de dentro.

Qual é a diferença entre orar, exigir dos políticos e dizer que nada nunca vai mudar?

Digo, em termos práticos para o mundo.

Em relação a isso voltamos à questão da carne. Acho que eu vivo fugindo de cenas de crueldade com animais para continuar comendo carne. Vou me aprofundar nas causas pelas quais eu tenho tanto asco de vegetais.

A velha é fruto dos preconceitos da época dela, e hoje o mundo ja é outro. Muitas pessoas dedicaram sua vida à melhoria desse mundo e ele de fato melhorou desde a época dessa velha ou da de Schopenhauer.

E se quando ficarmos velhos como ela pudermos dizer que o mundo mudou e que, especialmente, nós fomos responsáveis por isso?

Duan Conrado Castro disse...

Silas,

Todas as suas colocações são plausíveis, razoáveis e racionais. As diferenças entre a minha e a sua visão continuam baseadas no campo sentimental: num sentimento que você sente e eu não. Eu poderia dizer a vc o seguinte: "como posso deitar a minha cabeça no travesseiro à noite e ficar feliz num mundo como esse? como posso responder que 'está tudo bem' num mundo como esse??". Porém eu sei que se eu tivesse esses seus sentimentos "positivos", baseados no amor, eu pensaria como vc.

Silas disse...

Já leu meu post "Alegria, felicidade e as atrações do mundo moderno"?

http://insilasbrain.blogspot.com/2009/05/alegria-felicidade-e-as-atracoes-do.html

Deito a cabeça no travesseiro tranquilo por saber que não só eu não sou responsável por essa desgraça como estou fazendo algo a respeito.

Não está tudo bem com o mundo, mas está tudo bem comigo e quero compartilhar isso.

Às vezes eu acho que você não sente as coisas positivas por escolha própria...

Duan Conrado Castro disse...

Vc poderia me perguntar: "Duan, vc acha que está sendo bem representado pelos políticos?". Eu lhe responderia um sonoro "mas é claro que SIM!". Eu não acredito que meu status moral seja melhor que o da maioria da humanidade, ou que o dos políticos. Não acredito que se eu estivesse no lugar deles eu me comportaria diferentemente. Os pecados são da humanidade e eu me sentiria hipócrita se acreditasse que eles não são meus também, só porque AGORA eles não estão se manifestando em mim. Agora, se vc sabe que vc é diferente, vc é moralmente melhor que o resto ou que os políticos, então bom para vc meu caro.

Fale mais sobre o que vc entende por "escolha própria".

P.S.: Sobre o seu blog: até mesmo os títulos das postagens, que são “cor-de-rosa” demais, fazem eu perder a vontade de lê-lo.

Silas disse...

Parece contraditório que você apóie um vídeo de ideologia contrária à dos políticos como o Zeitgeist, que viva denunciando atrocidades do mundo e que, ao mesmo tempo, diga que na posição dessas pessoas você faria o mesmo.

Nesse sentido você estaria criticando a si mesmo, mas isso não é nem um pouco comum. Não estou querendo te limitar aos meus paradigmas nem nada.

Só acho que isso não tem sentido, e que se relaciona diretamente com meus post cor de rosa e com a "escolha própria, então vou desenvolver um pouco o tema.

Tenha em mente, por favor, que essa observação é subjetiva.

Eu acho que você é "cor-de-rosa".

Em que eu me baseio?

Você não odeia o mundo. Odeia as coisas que acontecem nele. Odiar essas coisas é, na verdade, amar o mundo, pois só pelo fato de você buscar a denúncia das atrocidades cometidas demonstra que elas lhe interessam de alguma maneira. Pra mim isso demonstra que elas não te agradam. Acho que você, lá no fundo, ama, mas vive negando isso. Acomodou-se debaixo das asas de Schopenhauer.

A sua repulsa pelos meus posts parece ser sentimental, mas não necessariamente porque eu apresento sentimentos contrários aos seus. Até porque, você apresenta sentimentos contrários aos meus no seu blog e eu não sinto qualquer repulsa: o que me causa verdadeira repulsa é o dogmatismo, que inexiste nesse blog.

"Acerca de pensamentos "blasfêmicos" decorrentes do contato social com uma idosa religiosa ignorante - Velha cretina."

Esse título jamais apareceria no meu blog, pois eu o consideraria ofensivo.

Mas eu acho engraçado esse título, e você muito bem poderia rir dos meus tópicos sobre amor.

Mas acho que é justamente pelo fato de o assunto não ser oposto aos seus sentimentos reais que ele não pode ser ridículo.

Veja bem, não estou dizendo que seus pensamentos e pensamentos são ridículos. Até porque, o ridículo é sempre subjetivo. Eu só rio do título, no resto eu vejo muito fundamento, embora eu ria dos sentimentos tão alheios á minha natureza.

No fim dum post meu você poderá ler:

"Desejo a felicidade de todos as pessoas, e estarei por aí pra fazer de tudo pra que todo sejam felizes, cada um de sua maneira.

Peace and Love!"

Você poderia se acabar de rir dessa afirmativa se seus sentimentos fossem realmente contrários, pois você sentiria o "ridículo".

Eu não me ofenderia com sua risada simplesmente porque ela não demonstra nada além de que você discorda sentimentalmente. Não existe o ridículo universal em relação aos sentimentos. Conheço gente que rir dessas coisas que escrevo.

É como eu em minha relação sentimental com o espiritismo: Eu sinto aversão pela idéia ao mesmo tempo em que a amo. Não sou capaz de rir duma piada espírita simplesmente porque, lá no fundo, ela é uma idéia que eu aceito sentimentalmente.

A questão que temos debatido no seu blog é essa: sobre os sentimentos negativos e positivos.

Então tente vencer a aversão e ver se você pode rir do meu blog. Veja se você pode entrar lá e apresentar argumentos, mesmo que sentimentais, contrários.

Vai ver que sua leitura e comentário me fará crescer e fará você crescer também, pois o crescimento real só acontece em contato com pessoas diferentes.

Duan Conrado Castro disse...

Crescer para quê Silas? Como posso querer isso se isso não me faz sentido algum?

Vc diz que eu “pareço contraditório”. E que não é? Você já leu qual é o objetivo principal desse blog? (Olhe a sua esquerda onde é dito que o principal objetivo desse blog é “é retratar a con-fusão, o mal-estar, e a (des)orientação do a(u)tor(mentado) no seu processo de produção do (des)conhecimento de si mesmo”)

Criticar a si mesmo não é nem um pouco comum? E vc ainda acha que eu sou alguém comum? Dá uma olhada no cap IV, onde eu digo que sou uma “sacolejante máquina de pensar e calcular”. Outros textos desse blog apresentam autocríticas mortificantes (eu não disse para vc que sou um caso perdido, por exemplo?) Então se vc ainda não tinha percebido essa minha característica “nem um pouco comum” saiba que ela é essa mesma.

Eu não jogo a culpa nas pessoas porque eu sou um fatalista (como Spinoza e Schopenhauer): assim como eu não entendo o que vc diz quando afirma que eu faço algo “por escolha própria” (pois não entendo COMO eu poderia escolher outra coisa que não isso – eu não acredito em livre-arbítrio, como já disse no cap XXXVII) também não lhe entendo quando vc pretende separar as pessoas do mundo no qual, pelo qual e para o qual elas foram criadas. Para mim não há como separar essas coisas: as pessoas não caíram de pára-quedas aqui “no mundo”, elas SÃO parte dele. Todas essas minhas reclamações e críticas são exatamente a minha forma de expressar o meu descontentamento contra o mundo (do qual as pessoas fazem parte): COMO eu poderia reclamar se não fosse dessa maneira? Não entendo como vc pretende separar “as pessoas” do “mundo”. Para mim isso soa como alienação (é uma forma de vc manter uma esperança de que um dia as coisas necessariamente serão melhores que são atualmente).

Amor e ódio são faces de uma mesma moeda: ambos conferem IMPORTÂNCIA ao objeto que se ama ou se odeia. Nesse sentido, amor e ódio se opõem à indiferença. Imagino que é isso que vc queira me mostrar quando diz que eu amo o mundo: que eu não sou indiferente a ele. Nisso vc têm razão: se eu fosse indiferente eu não teria o que escrever nesse blog. Agora, afirmar que porque eu não sou indiferente eu devo necessariamente amar o mundo (mesmo que implícita ou inconscientemente) já é bem diferente. Se vc quiser acreditar que eu na verdade amo o mundo (porque não é capaz de entender como alguém em geral e eu em particular não poderia amar), vc sempre vai conseguir arranjar um argumento para se convencer disso: eu não posso lhe provar o contrário.

Com relação ao rir do título do post, eu lhe digo: e quem disse que não era para rir? Ou vc acha que eu estou sendo 100% sério quando coloco um título desses? Como poderia levar sua risada a sério se eu sou o primeiro a rir de mim e desse blog?

Se eu não me interesso tanto por seu blog quanto vc pelo meu talvez seja porque eu, diferentemente de vc: 1 não acredito que possa lhe ajudar em alguma coisa, 2 não me divirto participando de debates e 3 não tenho tempo suficiente para me dedicar a essa atividade.

Silas disse...

O crescer tem uma única utilidade nesse caso: aliviar seu tormento.

O crescimento vai acabar com o tormento na causa, enquanto que a negação trabalha só no efeito.

É meio sem sentido querer crescer se você nunca tentou, pois você nunca sentiu na pele o bem-estar. Se você tomar um placebo convencido de que não será curado você não será. Aliás, com o que observei, nem mesmo o remédio com efeito químico teria funcionamento se o paciente estivesse convencido de que nada aconteceria.

O que não é comum é você criticar a si mesmo por uma atitude que você deduziu à priori que seria a sua, como no caso dos políticos. Eu já me critiquei severamente, mas o fiz por causa de erros reais. Erros à posteriori.

Você não entende porque não quer sentir. Está fixado na idéia de que não há o que entender e por isso não começa a busca. Aliás, ainda repele de si sentimentalmente a idéia.

Quando eu separo as pessoas eu respeito a individualidade delas: nem todas são desprezíveis. Não há como dizer que você é um dos que, por exemplo, se auto-afirma usando um tênis caro. Mas há pessoas que fazem, e são da mesma raça que você. Você vai ser culpar pela asneira do outro?

Não há garantias de quem o mundo será melhor, mas eu luto por isso de qualquer forma porque me faz bem. Há momentos em que eu paro e mando todo mundo tomar no cu, mas depois eu volto à labuta, porque isso em traz paz. As pessoas não são um. Elas têm individualidade. Só que algumas se perdem nos preconceitos coletivos, e é contra isso que a educação vem lutando.

O ódio nos faz querer separação. Seja destruindo ou afastando o objeto odiado. O amor faz querer agregar, trazer pra perto.

Todos têm impulsos de ódio e de amor, que se manifestam segundo o ambiente e segundo nossa ESCOLHA.

Agora você apresentou causas racionais, mas da outra vez você disse que é por ser cor-de-rosa.

Você não precisa me ajudar, não precisa debater e também não precisa de muito tempo pra ler meu blog, pois as postagens não são tão grandes.

Como eu disse no começo, se meus comentários são incômodos você pode facilmente evitar meus comentários dizendo que não me quer comentando.

Duan Conrado Castro disse...

Não adianta vir com essa história de “se meus comentários são incômodos você pode facilmente evitar meus comentários dizendo que não me quer comentando”. Você decidiu entrar nesse blog e ficar comentando os posts, agora será VOCÊ que decidirá abandonar ele: enquanto isso eu seguirei respondendo às suas colocações.

Então vamos lá.

Como eu disse no cap XXXI eu já fiz tudo o que podia, mas não foi o suficiente. Eu já tentei “crescer” e vi que isso não me serve, que o meu caminho é o da alienação e do esquecimento. Talvez um dia eu me canse desse caminho e decida “crescer”, mas no momento isso não me parece nem um pouco atraente.

Realmente NÃO ENTENDO POR QUE seria incomum “criticar a si mesmo por uma atitude que você deduziu à priori que seria a sua, como no caso dos políticos.” E mesmo que seja incomum, não entendo por que eu não poderia ser incomum: sua argumentação não me faz sentido algum.

“Você não entende porque não quer sentir”. Ora, francamente né. Assim é fácil de argumentar. Eu poderia dizer que é VOCÊ que não entende por que não sente o que eu sinto, ou não quer sentir. E mesmo que você diga que já teve uma fase de Schopenhauer, eu posso alegar que a sua foi bem mais leve que a minha, e que a minha personalidade é bem mais complexa e obscura que a sua, e blá blá blá. Mas não, nada disso tem valor, o que importa é que eu “não quero sentir”. E não quero mesmo, porque dada a minha experiência de vida E SEI QUE TENHO RAZÃO (assim como o sr. Jung sabia que deus existe). Eu sei que o seu discurso é cor-de-rosa e nada nesse mundo vai mudar a minha o opinião.

Eu não separo as pessoas: para mim todas são desprezíveis (e eu também já disse isso em vários capítulos desse blog): eu poderia não me auto-afirmar usando um tênis caro (o QUE É MENTIRA: eu me auto-afirmo dessa maneira sim (por essa não esperava, não é mesmo?)), mas estou cheio de outros defeitos que o cara que se afirma usando um tênis caro não tem: eu não vou criticá-lo, a não ser como forma de manifestar o meu desacordo com O MUNDO, e não com ele, que para mim é apenas mais um fantoche: como poderia criticá-lo? Você pode se prender ao discurso da individualidade e da liberdade, mas eu me prendo ao discurso do monismo e do fatalismo. Dizer que eu faço isso porque eu quero ou porque eu escolhi não faz sentido algum para mim.

Lutar por um mundo melhor não me faz bem (e espero que isso já esteja bastante claro).

Agora eu lhe pergunto: de que adianta ficar falando para mim como você enfrenta a vida se NÓS DOIS SABEMOS que sua visão mais positiva da vida depende de SENTIMENTOS, e não de argumentos? Você não pode me passar esses sentimentos pela internet, ou você acha que pode?

Silas disse...

Acho que você devia se acalmar.

É incomum e irracional criticar-se sem motivo. O meu erro te faria se sentir culpado?

É claro que a questão não se sustenta em lógica, mas veja os fatos: Embora eu seja cor-de-rosa (não vejo nada de mal nisso) e não entenda por completo os seus sentimentos (fato) eu não sinto repulsa aos posts, pois os lendo eu entro em contato com uma natureza diferente da minha e com ela acrescento algo a mim mesmo.

O meu discurso é cor-de-rosa sim, e a única coisa nesse mundo que muda sua opinião é a sua vontade. Se você sabe que tem razão porque você não se dá ao trabalho de ler uma opinião (sentimento) contrária (o)?

Eu realmente não imaginaria que você se auto-afirma com um tênis pelo fato de que sua inteligência parece ser uma forma bem mais refinada de auto-afirmação, já que ela é obviamente grande. Criticar os outros é perda de tempo, pois criamos discórdia e não ganhamos nada, então você está certo ao dizer que não pode criticar o outro se você também é falho.

Você não quer tentar ver o mundo sobre uma perspectiva diferente apenas como experiência (já que nada tem a perder). Já se perguntou por que motivo faz isso?
Eu falo pra você como eu enfrento porque assim você saberá quem eu sou, como indivíduo diferente de você. Isso (pressuponho) é uma forma de quebrar a sua idéia de que a vida (não só a sua) é uma merda.

Não posso passar pela internet e nem ao vivo: não há como passar os sentimentos a não ser que você queira, e se quiser eles vêm a você sem a necessidade de outra pessoa o transmitir.
Não entendo a razão de você defender uma visão de mundo que te atormenta e te deixa depressivo.

Explica?

Tenho um texto BEM cor-de-rosa pra você:

http://insilasbrain.blogspot.com/2009/05/os-insetos-do-jardim.html

Peço novamente que se acalme, pois a carga sentimental desse texto foi desagradável. Já que estamos dialogando podemos ser cordiais, não acha?

Duan Conrado Castro disse...

Eu decidi escutá-lo para ver se vc seria capaz de me dizer algo que ninguém já me tinha dito antes. Isso, em parte, você conseguiu fazer. Mas o que vc me disse não foi o suficiente para eu me convencer de que minha atual forma de ver as coisas deva ser modificada por algo “mais comum” e “menos contraditório”.

Eu defendo uma visão que me “faz mal” porque prefiro a verdade à felicidade (isso mesmo, vc lei certo): prefiro sofrer com o que acredito ser a verdade do que tentar (eu disse tentar) ser feliz me enganando (tentando me convencer que o que eu atualmente penso ser mentira é verdade). Isso é “incomum” para vc? Isso “é meio contraditório” para vc? Pois é.

Espero que vc tenha percebido que eu, já faz tempo, vivo numa contradição insolúvel: eu me recuso a “mudar” se eu tiver que “me enganar” para isso (só aceitaria mudar se fosse convencido “pelo mundo”, sem que tivesse a sensação de que estaria mentindo para mim mesmo); porém, como vc disse e eu já sei há tempo, eu apenas mudarei se eu “quiser”, isto é, se eu me esforçar e lutar contra a minha própria natureza em troca de uma promessa de bem-estar que eu apenas conheço in abstracto. Isso eu não vou fazer.

Silas disse...

O mais comum geralmente não é o melhor, mas não vamos entrar em debates sobre a questão do senso comum.

Nada do que qualquer pessoa disser será o bastante, e esse é o ponto.

Eu não vejo por que motivo a verdade deve fazer sofrer, embora eu creia que há verdades ruins. Por exemplo, o fato de que (constatei) todos nós temos um lado negro. Se afogar na depressão porque nela acredita-se encontrar a verdade é irracional sim.

Não vejo qual seja a razão para o amor ser um sentimento que não existe e que, conseqüentemente, me fará sentir que vivo numa ilusão. Acontece que não da pra julgar esse tipo de coisa com sentimento, e só depois que você sente é que você entende. Se todos pensarem que só mudarão quando o mundo mudar ele nunca mudará, e o mundo não tem coisas suficientemente belas para te convencer a dar abertura ao amor. Se é pra depender do mundo você vai se afundar e se auto-destruir por causa de uma ideologia falsa.

É falsa sim, pois é parcial. Talvez eu nunca tenha ido tão fundo nesse poço pra dizer que te entendo, mas eu vi meu tormento se intensificar conforme eu ia me isolando.

É como se fosse uma doença da alma. Como e meu tormento fosse o sintoma de que algo está errado e de que esse algo precisa ser tratado.

O que eu proponho é que você dê abertura para os amigos. Que você fale sobre os seus problemas com os amigos objetivamente e não só através dos paradigmas filosóficos.

Porque eu aqui não estou fazendo o papel de amigo pra você. Você só está se defendendo e mais nada. Se você não quer uma amizade porque sente que isso é uma ilusão, então o assunto está encerrado.

Lendo as coisas que você escreve no blog fica claro que sua vida nunca foi agradável, mas não creio que você tenha nascido assim. pra mim tudo o que você precis é de amigos para compartilhar os seus tormentos. Afinal, nós amamos nossos amigos.

Eu estou aqui como esse amigo, e é por isso que creio ser a comunicação imediata vital (mesmo que por uns minutos num fim de semana).

Você não tem que e enganar para contar seus problemas a um amigo, e também não tem que se enganar para ouvir o que ele tem a dizer.
Ouvindo uma pessoa e percebendo o bem que isso faz a ela você vai sentir a alegria que chamo de compaixão. Lutar contra sua própria natureza é impossível, nesse sentido. Eu lutava incansavelmente e nada dava certo. Só consegui me erguer quando eu passei a ter contato com as pessoas.

Você tem um ponto importantíssimo para a amizade já desenvolvido. Já reconheceu suas falhas e, por causa delas, não julga as pessoas.

Vai ver que nenhum amigo é perfeito, e que muitas vezes há stress, mas que a integração é essencial para a existência.

Avalie minha proposta aqui e diga em que momento eu falei alguma coisas falsa que te fará viver numa ilusão.

Duan Conrado Castro disse...

Eu já me cansei de vc (eu avisei que me cansava das pessoas).

Não acredito que contar meus problemas para vc vai resolver alguma coisa (vc tem razão em dizer que eu não falo sobre eles e fico me esquivando por trás da filosofia). Não vou dar “aberturas para amigos”, muito menos amigos virtuais.

Sendo assim, acho que nossa “amizade” pode acabar por aqui. Leve sua sabedoria “verdadeira” e “imparcial” para outro lugar.
(Vou tirar seu e-mail da lista de comentários desse blog)

Silas disse...

a escolha é sempre sua, cara.

Meu e-mail você sabe qual é mas deixo aqui registrado: silacou14@yahoo.com.br

Se você mudar de idéia e quiser conversar é só me enviar um e-mail.

Não desista. Espero, sinceramente, que você fique bem.

Até algum dia...

Gabriel P. Kugnharski disse...

Caraaaaaaalho, que cara mais chato, meu! Ainda assim consegui ler metade dessa discussão aí em cima.

Enfim, acho que este é seu post mais raivoso e energético, me agradou bastante, principalmente os trechos:

"O que se pode esperar de um mundo feito às pressas (em seis dias)? Jeová, porém, achou tudo "muito bom" (Gênisis 1:31)"

e

"segundo a lógica de abracadabra da crença retardada dessa velha"

com os quais eu ri bastante.

Duan Conrado Castro disse...

Gabriel,

Sim, esse realmente é um dos posts mais enérgicos. Outro que segue essa linha é o 87. Com relação ao Silas, agora estamos nos dando bem.

Anônimo disse...

"Os chineses também comem cães e gatos, e tudo o mais que o mova." Pode-se comparar ao "Uma modesta proposta (para impedir que os filhos das pessoas pobres da Irlanda sejam um fardo para os seus progenitores ou para o país, e para torná-los proveitosos ao interesse público)" de Swift:

"Um americano muito entendido, conhecido meu em Londres, assegurou-me que uma criancinha saudável e bem tratada é, com um ano, um alimento realmente delicioso, nutritivo e completo, seja cozida, grelhada, assada ou fervida; e não tenho dúvidas de que possa servir igualmente para um guisado ou um ensopado."

Duan Conrado Castro disse...

KKK, não conhecia esse texto não (estou rindo por que segundo a Wikipédia trata-se de um texto satírico).

Seja como for, lembro de que Adan Smith relata que infanticídios (disfarçados de práticas religiosas) entre os antigos eram uma forma de lidar com a escassez de recursos.