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§ 107

Vocês riem de mim por eu ser diferente. Eu rio de vocês por vocês serem todos iguais. (Bob Marley)
Não é sinal de saúde estar bem adaptado a uma sociedade doente. (Jiddu Krishnamurti)




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Tempore, quo cognitio simul advenit, amor e medio supersurrexit.
Considerando-se que o título desse blog é Outsider à beira do abismo, eu não poderia deixar de tecer considerações sobre o outsider. Ora, falar do outsider exige que falemos também do seu oposto: o insider. O outsider é a negação do insider: o insider é a tese, o "normal", o outsider é sua antítese, sua negação, sua corrupção.
O que é um outsider? É essa pergunta que tentarei responder no presente capítulo. Ou melhor, o que eu farei é apresentar aquilo que, no momento, eu penso ser um outsider. Afinal, esse blog não trata da verdade, nem de arqueologia das idéias; ele trata, isso sim, das minhas tentativas (limitadas, contingentes e determinadas bio-socio-psico-economico-historicamente) de complexificar o meu discurso do mundo (ou seja, a minha interpretação discursiva do real e do ideal - ver cap. XCVI).
Como tantos outros capítulos desse blog, o presente capítulo é uma coleção de considerações sobre o tema indicado em seu título, não possuindo uma estrutura linear (começo, desenvolvimento, fim – como nos ensinam nas aulas de português na escola), nem pretendendo defender algum argumento central, o qual se apresentaria na conclusão (aliás, não há conclusão).
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Eu conheci a categoria "outsider" lendo o livro O outsider: o drama moderno da alienação e da criação, de 1956, escrito por Colin Wilson. Poucos são os livros que, de tão fraquinhos, eu comecei a ler de desisti (e olha que eu li O pequeno príncipe até o final, e depois o li novamente para escrever o capítulo CI). Esse foi um deles. A metodologia do livro é péssima: o autor faz uma análise de toda uma coleção de livros, a maioria romances, outros biografias. As opiniões pessoais do autor (com as quais eu discordo quase completamente) são demasiado visíveis por baixo de um verniz de imparcialidade. Como se não bastasse, o autor está intoxicado pelo racionalismo, negando, por exemplo, o pensamento schopenhauriano (ao mesmo tempo em que plagia a estrutura d' O mundo como vontade e como representação) e a psicanálise.
Logo no começo do livro (capítulo I), Wilson deixa claro (talvez para agradar ao leitor insider e assim vender mais livros) que ele não dá validade às sensações do outsider:
"A nós [insiders] nos compete julgar se o mundo pode ser visto de uma tal maneira, que torna inevitáveis as conclusões de [H. G.]Wells [no seu último e apocalíptico livro: Mind at the of its tether]; em caso afirmativo, decidir se essa maneira de ver as coisas é mais verdadeira, mais válida, mais objetiva do que a nossa maneira habitual de ver [isso é, a maneira do insider]. Mesmo que decidamos, antecipadamente, que a resposta é "não", haverá muito o que aprender com o exercício de mudar de ponto de vista."
Depois de ler várias outras besteiras análogas a essa, eu cansei desse livro e não o li até o fim. Outro livro que não agüentei ler - pois tinha besteira ingênuas em quase todas as páginas - é Tertium Organum (livro que, considerando-se a pretensão do seu título, foi um completo fracasso), do matemático-esotérico-pseudofilósofo P.D. Ouspensky. Aliás, não surpreende que Ouspensky seja mencionado nos capítulos finais de O outsider: o drama moderno da alienação e da criação, assim como não supreende que Wilson - autor de dezenas de livros (provavelmente um pior que o outro) - tenha publicado The strange life of P.D. Ouspensky (1993).
A sensação de irrealidade, que repetidas vezes Colin Wilson afirma ser uma característica do outsider, é apresentada por Jair Ferreira dos Santos (no livro O que é pós-moderno, de 1985) como uma sensação típica da condição pós-moderna.
No cap. XCV eu disse o seguinte sobre a sensação de irrealidade:
"Eu, desde o capítulo I, já falei várias vezes sobre a sensação de irrealidade. Agora percebo que essa sensação é um mero artifício para negar a realidade: como eu não aceito a realidade tal como ela é, ela me parece estranha, irreal. É mais fácil acreditar que esse mundo é irreal do que aceita-lo como ele é. Por "realidade" me refiro à cotidianidade medíocre e mecânica do trabalho, do tédio, da rotina, e da frustração: é dessa realidade que o indivíduo busca evadir-se por meio de delírios megalomaníacos. Quando ele "pressente" que o mundo não é real, o que ele está fazendo é negar essa realidade da cotidianidade medíocre e mecânica, em prol de um escapismo: o real é tão insuportável, é tão assolador para o princípio de prazer, que é preferível advogar a sua irrealidade do que aceitá-lo. De certa forma, a religião faz algo parecido, quando busca desprezar o mundo presente em favor de um mundo imaginário pós-morte. Em ambos os casos, a negação da realidade é um artifício adaptativo, que serve justamente para inserir o indivíduo na realidade que ele nega. Dessa forma, o indivíduo cria uma ilusão para adaptá-lo ao mundo, e no caso essa ilusão é justamente a irrealidade (ou a irrelevância) desse mesmo mundo que é o único efetivamente existente e, por isso mesmo, do qual o indivíduo não é capaz de evadir-se definitivamente, mas apenas de maneira imaginária."
O outsider, não raro, pressente um novo mundo (If living is seeing/ I'm holding my breath/ In wonder - I wonder/ What happens next?/ A new world, a new day to see - Björk, New World), pressente uma realidade diversa da cotidianidade miserável construída e vivida pelos insiders. Será esse pressentimento do outsider o pressentimento de algo real? Ou será apenas um delírio regressivo, um artifício para negar a única realidade possível e inaceitável? Eu, até o presente momento, não estudei e refleti o bastante para poder responder a essa questão.
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Eu, que critico o reducionismo ontológico causado por um uso exagerado do princípio do terceiro excluído (ver caps. CVI, CXIII e CXVI), não iria cair no erro ingênuo de dividir o mundo em dois pólos estanques e claramente definidos: insider x outsider. Antes, admito que essa dicotomia é apenas uma dos muitos instrumentos analíticos da realidade social e psicológica. Admito também a dificuldade de se aferir metodologicamente, na prática, em qual dessas duas categorias algumas pessoas se encaixam (embora outras possam ser facilmente categorizadas).
Mas, se é para esboçar uma tipologia insider x outsider, eu prefiro admitir dois conjuntos amplos (insider e outsider) dentro dos quais há infinitas variações dentro de subconjuntos mais amplos, assim classificados (ver figura abaixo):

* Superoutsider: Abandona voluntariamente a sociedade, virando um eremita, um mendigo, um andarilho, etc.
* Outsider: Não participa de grupos sociais, a não ser aqueles que são essenciais para sua sobrevivência, a saber: a família (enquanto ainda depende economicamente dela) e o trabalho. Se o outsider for rico o bastante para não depender nem desses dois grupos, então ele não participará nem deles.
* Out-insider: Participa, de forma efêmera e marginal, de grupos contestadores do establishment (p.ex.: ambientalistas, protetores dos animais, anarquistas, vegetarianos, punks, gays, ateus, Marcha da maconha, etc.).
* Ponto neutro: Ponto imaginário (um tipo ideal extrapolado) no qual o indivíduo é 50% out-insider e 50% in-outsider.
* In-outsider: Participa dos mesmos grupos contestadores do establishment, mas participa ativamente, inclusive como liderança.
* Insider: Essa é a "pessoa comum", sua vida gira em torno da rotina trabalho-família-consumo conspícuo-entretenimento-religião. A homeostase de sua psique depende visceralmente da vida em grupos, do afeto alheio. Não participa de grupos contestadores do establishment. Esse tipo de gente está em toda parte e 100% das propagandas da televisão é feita para ele.
* Superinsider: É uma caricatura do insider. É totalmente conservador (ou apolítico - o que no fundo dá no mesmo) e não tem vida psíquica fora dos afetos grupais, e dos grupos mais estereotipados possíveis (igreja - uma igreja grande, como a católica ou a IURD, nada de seitas marginais - , trabalho e família: e nada mais, além da indústria cultural - esse tipo de pessoa liga o rádio ou a televisão para "não se sentir sozinha", ela não pode ficar sozinha consigo mesma sem surtar). Nunca pensou nada que não seja um chavão, um senso comum.
Dentro de cada um desses conjuntos seriam observadas infinitas variações, de acordo com a distribuição das outras variáveis sociais, psicológicas, biológicas, históricas, etc.
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Com a pós-modernidade observou-se uma certa proliferação de características outsiders. Mas não se engane: o mundo está cheio de insiders, até "sair pelos ouvidos". O insider é a "pessoa comum". O que é uma "pessoa comum/normal"? Alguns pensam que pessoas comuns não existem, que "de perto, ninguém é normal", que "de médico e louco, todo mundo tem um pouco", e blá, blá, blá. Essa não é minha opinião. Embora admita que é um reducionismo dividir o mundo em dois pólos rígidos e opostos (insiders x outsiders), também de forma alguma vou negar a existência de um estereótipo (um arquétipo) da normalidade, o qual não é algo eterno, mas construído histórica e socialmente e em permanente modificação.
A vida de um insider se esgota no circuito trabalho-família-consumo conspícuo-entretenimento-religião. Se isso parece simplismo para você (como, francamente, parece para mim também), é porque você precisa conhecer melhor o "mundo real", se relacionar mais com "o povo", com "pessoas honestas e trabalhadoras", com "mães e pais de famílias", precisa visitar igrejas e ver o que as pessoas ouvem e falam lá dentro, precisa ligar a televisão e assistir aos programa de maior audiência, etc. Verá como a vida da maioria das pessoas gira em tordo desses quatro pólos - e não precisará de muito esforço para perceber que a maioria das pessoas nem sequer desconfia que a vida possa ser mais do que isso. Se você ainda não está convencido, ou ainda está um pouco desconfiado de que a vida das pessoas em geral não é "mais do que isso", isso é um sinal de que você provavelmente é um outsider.
Esse circuito básico preenche a vida do insider de tal forma que ele simplesmente não desenvolve o hábito de questionar as próprias atitudes. O insider simplesmente vive, não questiona, não tem "perplexidades do intelecto". Para citar Schopenhauer (n' O mundo como vontade e como representação, tomo I, § 60, terceira e última edição de 1859):
"O homem, desde que começou a conhecer-se, vê-se ocupado em querer,e regra geral a sua inteligência permanece numa relação constante com a sua vontade. Começa por procurar conhecer bem os objetos da sua vontade, depois os meios de alcançá-los. Então vê o que tem a fazer, e em geral não procura saber mais nada. Ele age, fatiga-se: a consciência, que tem de trabalhar sempre para o alvo que a sua vontade persegue, mantém-no preparado e ocupado; o seu pensamento ocupa-se com a escolha dos meios. Tal é a vida de quase todos os homens [insiders]: eles querem, sabem, o que querem, e procuram-no com sucesso suficiente para escapar ao desespero, suficientes fracassos para escapar ao aborrecimento com sua conseqüências. Daí resulta um certo júbilo, ou pelo menos uma paz interior, onde nem riqueza nem pobreza têm grande influência: nem o rico nem o pobre fruem aquilo que têm, visto que, vimos por que, os seus bens apenas os afetam negativamente; o que os mantém neste estado é a esperança de bens que esperam como prêmio das suas dores. Portanto, trabalham, persistem, com seriedade, mesmo com ar importante, tais como as crianças aplicadas no seu jogo - É apenas excepcionalmente que uma vida destas vê o seu curso perturbado, uma vez que a inteligência se libertou do serviço da vontade [Nietzsche e Foucault não concordariam com essa afirmação], e se dedicou a considerar a própria essência do universo, de um modo geral; ela chega então, para satisfazer a necessidade estética, a um estado contemplativo, para satisfazer a necessidade moral, a um estado de abnegação. Mas a maior parte dos homens foge, durante a sua vida, à frente da necessidade, que não os deixa refletir."
O hábito de questionar é negado pelo insider, que geralmente tem respostas prontas para quase todas as questões que considera relevante (quanto às demais, nem mesmo pensa nelas). O recurso a lugares-comuns é recorrente, p.ex., "a curiosidade matou um gato", ou "papel aceita tudo". Questionar é trazer insegurança, é abalar a cotidianidade reificada, é ameaçar destruir tradições e verdades eternas: nada disso interessa ao insider, que já está totalmente ocupado com a rotina circular trabalho-família-consumo conspícuo-entretenimento-religião e não quer pensar em nada além disso.
Assim como as categorias insider e outsider escondem uma infinidade de formas intermediárias, igualmente um indivíduo que atualmente se encaixa em uma categoria não está condenado a viver para sempre nela. Se, por um lado, o outsider permanentemente é coagido pela vida em sociedade a se tornar um insider, por outro as contradições, infelicidades e vacuidades da vida de insider pode levar um insider a "abandonar tudo" e a virar um outsider. Eu conheço pessoalmente pelo menos um caso desses. Quem já trabalhou com serviço social deve saber que é comum a figura do "mendigo voluntário": o sujeito que abandonou família e trabalho ("tudo") para perambular sozinho pelas ruas. Um caso famoso é o do "Professor", que primeiro abandonou trabalho e família para viver como mendigo e, depois, abandonou os amigos mendigos para voluntariamente morrer de fome. O caso foi veiculado pela mídia; por exemplo, nas duas reportagens da revista CartaCapital reproduzidas nas imagens abaixo (clique nas imagens para ampliar e ler): respectivamente, p. 6-7 da revista número 411 (20/09/2006) e p. 6-7 da revista número 415 (18/10/2006).
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Os caminhos que conduzem à condição de outsider são tão variados quanto à tipologia dos outsiders (e eu não vou me aventurar, aqui, a esboçar essa tipologia- pois precisaria estudar muito mais esse tema para me aventurar a fazê-lo). Seja como for, evidentemente todas as pessoas em todas as sociedades são educadas para se transformarem em insiders, pois é nesse sentido que se esforçam os processos de socialização e individuação (ver cap. CXII, ainda não postado). Quando esses processos falham (ver cap. CXII), o indivíduo resultante é um "desajustado". O conjunto dos desajustados, contudo, é mais amplo que o dos outsiders: todo outsider é um desajustado, mas nem todo desajustado é um outsider, o que significa que um desajustado pode ser um insider (e viver inserido me grupos marginais - mas inserido em grupos).
O comportamentos dos outsiders é muito diverso. O que os une num grupo é o fato de não participarem de grupos (o grupo dos outsiders é o grupo daqueles que não participam de grupo algum), mas, a depender dos grupos hegemônicos no ambiente de cada outsider, dois outsiders podem ter um perfil ideológico opostos ou completamente inconsistentes um com o outro.
O outsider pode ser um medíocre, assim como o insider pode ser um gênio: a inteligência pode até ser importante na configuração de muitos casos de outsider, mas certamente seria equivocado qualificar todo outsider como mais inteligente que as pessoas com as quais acaba convivendo por necessidade, a menos que o outsider chegue ao extremo de virar um eremita, um andarilho, ou um mendigo, nesses casos ele pode praticamente abandonar qualquer relacionamento com o resto da humanidade.
O outsider pode ser um medíocre, um perdedor, um fracassado; mas ele admite isso para si próprio, diferentemente do insider (que não obstante siga estereótipos acredita ser alguém diferente, único, original, especial - como, inclusive, ratificam-lhe insistentemente (sem que ele perceba a manipulação barata) os discursos publicitários ("porque você é especial", "porque você vale muito", "exclusivo [referindo-se a algum produto massificado] como você", "a qualidade que você merece"[e o que eu mereço?], etc.)). Pois ele, o outsider, possui uma profunda autocrítica, a qual seria insuportável para um insider. O outsider critica os outros, mas critica a si mesmo mais do qualquer outra pessoa; se ele não tolera a estupidez alheia, é sensato o suficiente para monitorar a si mesmo. A autocrítica, tão necessária para se evitar a estupidez, é rara entre insiders - e mundo segue miserável e tragicômico, cheio de idiotas cegos e faladores por toda parte. Como disse Schopenhauer (não lembro onde), "a massa tem olhos, bocas e ouvidos, mas não muito mais do que isso".
O outsider muitas vezes é um iconoclasta, outras vezes é um autista, outras é um sociopata, outras tem sérios transtornos de personalidade, outras ainda tem mais de uma dessas característica; por fim, ele pode não ter nenhuma delas. As formas das ligações entre todos esses fenômenos me são desconhecidas e exigiriam, para serem decifradas, estudos aprofundados.
Principal característica do outsider é a independência em relação aos afetos grupais. Dizer que o outsider é completamente desligado do afeto dos outros é exagero, mas ele, comparado ao insider, possui forte independência com relação a esse afeto - o que, aliás, o aproxima do autista (é bem provável que muitos outsiders sejam autistas). Para entender melhor o que é o outsider, seria necessário estudar a psicologia social e entender como os grupos sociais se organizam e como os grupos afetam os comportamentos individuais. Eu nunca estudei psicologia social, então o que direi a seguir é meu achismo, não sei se são conclusões que seriam ratificadas por essa ciência.
O outsider não desenvolve sua alteridade de forma grupal: enquanto outsider, ele está condenado à solidão: tão logo ele consiga se integrar com sucesso num grupo (seja lá qual for), ele deixa de ser um outsider. O outsider não se encaixa no esquema afetivo-libidinal oferecido pelos grupos sociais, e não consegue esgotar sua vida na rotina circular trabalho-família-consumo conspícuo-entretenimento-religião: essa rotina lhe é repugnante, e se puder - se tiver autonomia financeira suficiente - ele a abandonará completamente.
O outsider cansa das pessoas. Ele prefere se relacionar com desconhecidos (que não lhe apresentam intimidades - é que conhecer as pessoas mais a fundo é decepcionante, pois revela como elas são miseráveis, fúteis, superficiais, sem graça, vazias, hipócritas, estúpidas, etc.). Ao contrário do que ocorre com o insider, quanto mais um outsider conhece alguém, mais ele tem vontade de se afastar dessa pessoa - conviver anos com uma mesma pessoas (por exemplo, colegas de trabalho) é para ele um martírio. Prefere a solidão, e a busca com alegria (para ler uma defesa narcísea e eloqüente da solidão, ver cap. ### 6, no qual há um texto de Schopenhauer - que evidentemente era um outsider).
Perguntar seriamente "qual é o sentido da vida?" - em vez de simplesmente se agarrar a alguma das respostas disponíveis nas inúmeras comunidades interpretativas - torna o indivíduo um outsider (e aqui o outsider se aproxima do verdadeiro filósofo). O outsider tanto se questiona, e tantas dúvidas tem, justamente porque não participa de nenhum grupo, e, portanto, está à margem do processo de formação e difusão de interpretações da realidade. O outsider, por recusar as respostas prontas fornecidas pelos grupos sociais, ou busca construir suas próprias verdades (o que evidentemente é muito mais custoso do que simplesmente se agarrar às respostas prontas e acabadas disponíveis aos montes na sociedade), ou simplesmente desiste de questionar, passando a viver num estado de suicídio intelectual.
Por comunidade interpretativa eu quero dizer o seguinte (conforme o livro Condição pós-moderna: uma pesquisa sobre as origens da mudança cultural, cap. 3, de David Harvey, 1989): comunidades "formadas por produtores e consumidores de tipos particulares de conhecimento, de textos, com freqüência operando num contexto institucional particular (como a universidade, o sistema legal, agrupamentos religiosos), em divisões particulares do trabalho cultural (como arquitetura, a pintura, o teatro, a dança) ou em lugares particulares (vizinhanças, nações, etc.). Indivíduos são levados a controlar mutuamente no âmbito desses domínios o que consideram conhecimento válido." Isso guarda semelhança com o que eu disse no cap. LVIII: "Dessa forma, embora as pessoas que possuem ensino superior estudem basicamente a mesma quantidade de tempo, suas visões de mundo não são semelhantes , e elas (as pessoas) ficam, em geral, presas dentro do “mundinho” desenhado pelas teorias estudadas por cada carreira profissional. Ao que parece, aqueles que estudam mais, como médicos e engenheiros, são, inclusive, mais bitolados que os demais. Acreditam que esse “mundinho” representa fielmente o “mundo real” (seja lá o que isso for). (...) Destarte, cada carreira profissional cria o seu “mundinho”, no qual existe um ideal implícito: o de que o mundo seria melhor se todos pensassem e agissem tal qual agem e pensam os indivíduos de categoria profissional em questão. No indivíduo, o processo é análogo: em nosso conselhos e críticas (que dizem mais a nosso respeito do que a respeito da pessoa aconselhada ou criticada) transparece a arrogância de recriar o mundo a nossa imagem e semelhança: “Vi que todos se tornaram iguais a mim, e compreendi que o mundo estava salvo”. A realidade, infelizmente, é bem mais complicada do que isso."
O conhecimento grupal, mas principalmente a afetividade grupal, fundamentam não raro uma metanarrativa, muitas vezes associada a uma teleologia moral. Outras vezes, o grupo fornece apenas afetividade a uma forma de catarse (entretenimento, hobibes, etc. ). Tudo isso compõe a construção de um sentido para a vida (que, a priori, não tem sentido algum a não ser se perpetuar e se multiplicar). Essa questão não é apenas racional mas é, antes e principalmente, afetiva. Mas o que confere sentido à vida das pessoas não é nenhuma explicação racional da totalidade existencial (uma metanarrativa); são, isso sim, os afetos grupais e amorosos/sexuais. Todavia, descobrir essa verdade não é garantia de que o outsider irá buscar construir essas afetividades em sua vida. Se é isso (afetividades) que confere sentido à vida, então talvez seja melhor viver uma vida sem sentido; se isso é, no limite, essencial para a própria perpetuidade da vida humana (individual e coletiva), então talvez seja melhor simplesmente não viver: se a vida se resume a essa miséria, então ela não tem valor algum.
No primeiro caítulo d' O outsider: o drama moderno da alienação e da criação, somos informados que "O outsider é alguém que despertou para o caos". Ora, o caos intuído pelo outsider é a fragmentação social, é o vazio, é a incapacidade de atribuir um sentido, é a incapacidade de formar vínculos afetivos que conferem sentido ao mundo.
A independência do outsider com relação aos grupos sociais lhe permite observar padrões invisíveis ao insider - o que ajuda a alimentar a aparência, às vezes verdadeira, de superioridade intelectual do outsider (como foi dito no capítulo LXXVII, é preciso ser doente pare entender um mundo que é doente - é que o patológico fornece, pelo exagero do burlesco, um vislumbre do que está em jogo nas condutas sociais gerais). Por outro lado, a falta de diálogo com outras pessoas pode levar o outsider a criar um mundo discursivo que pouco tem a ver com a "realidade" (seja lá o que for isso), levando-o a se perder em seus delírios. Igualmente, pelo mesmo motivo, um outsider pode demorar anos para perceber, com perplexidade, fatos evidentes da vida (p.ex., ver cap CIX, parágrafo 94, ou ainda o cap. XLIV).
A tragédia do outsider está na incapacidade de substituir o mundo que ele nega: ele não aceita o mundo do insider, mas não consegue - sozinho - criar um mundo alternativo que seja efetivamente viável.
A existência de outsiders é um forte indício da existência de um processo social organizado (e falho, sujeito à contingências) de "fabricação de pessoas normais" (novamente, ver capítulo CXII).
Posar de outsider satisfaz o narcisismo - o epíteto de outsider pode ser usado para alimentar um sentimento de superioridade em relação aos demais, por supostamente participar de um grupo seleto de pessoas "eleitas". Por isso, há muitos posers de outsiders. Não confundir querer ser e ser: o outsider não se consegue se encaixar na sociedade, mesmo sendo pressionado para isso: encaixar-se seria abandonar a sua identidade em troca de outra que ele despreza. Um outsider não posa para os outros, pois a opinião alheia não lhe importa, se lhe importasse ele teria uma dependência afetiva que o transformaria num insider.
Ter muito dinheiro (a ponto de viver permanentemente em ócio conspícuo) permite ao indivíduo a liberdade de desenvolver a sua alteridade. Se o insider pode, quando rico, apresentar comportamentos extravagantes, a riqueza, para o outsider, é praticamente uma porta aberta para a insanidade, pois ela elimina os últimos vínculos coercitivos que prendem o outsider aos padrões estabelecidos - a dependência financeira com relação aos familiares e a necessidade de trabalhar para sobreviver.
Se todos se tornassem outsiders seria o fim do mundo - pelo menos do mundo como o conhecemos: a existência humana chegaria num impasse decisivo: ou mudaria radicalmente, ou acabaria de uma vez.
Existem mais outsiders homens do que mulheres (quer em função da maior agressividade masculina, quer em função da maior uniformidade do comportamento feminino quando comparada à diversidade de comportamentos masculinos). O número de outsiders diminui com o envelhecimento da população. Em outras palavras: a maioria dos outsiders é formada por homens jovens.
O destino de muitos outsiders é se tornarem insiders, ou artistas (devido a sua forma ímpar de ver a realidade), e alguns poucos, talvez, até se tornem místicos ou mesmo santos (como quer Colin Wilson, pelo menos até onde eu li aquele livro dele). Mas o destino de muitos outros é mais trágico: suicídio, chacina, mendicância, loucura, prisão, etc. - de fato, ser um outsider é viver constantemente à beira do abismo (segundo o mesmo Wilson, o outsider já é vitorioso se conseguir sobreviver a si mesmo sem se matar). É difícil sobreviver como outsider a vida inteira, embora a ambiência urbana pós-moderna facilite em muito esse fardo (o que ajuda a entender o suposto aumento do número de outsider e de out-insiders - inclusive, parece existir uma correlação entre (pós-)modernidade e a emergência de outsiders, mas, para ratificar essa suposição, seria necessário empreender pesquisas históricas).

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Tempore, quo cognitio simul advenit, amor e medio supersurrexit.






