Ele me disse a verdade:
Eu sou um deformado.
Como eu nunca percebi isso antes?
[Segundo Lacan, só percebemos algo em nós quando os outros nos falam.]
Onde eu estive todo esse tempo?
Onde estiveram meus pais nos últimos 13 anos?
Onde estiveram @s professor@s?
Onde esteve pelo menos alguém – uma única pessoa – que se importasse?
Agora não há mais conserto.
De um dia para o outro,
Vi-me responsável pelo meu passado,
Vi-me responsável por escolhas que não fiz.
Ou fiz?
[Segundo Lacan - e meus pais - fiz]
Ele me disse a verdade.
De repente, tive flashbacks,
Que prenunciavam a revelação,
Que diziam, sem palavras,
O que eu já deveria saber.
Mas eu, ingênuo, não percebera.
E quem perceberia?
[Segundo Lacan, ninguém.]
E fiquei inescrutavelmente perplexo quando
Ele me disse a verdade.
O ódio que eu sentia por ele arrefeceu;
Mas o ódio apenas mudou de objeto.
Pois eu não poderia perdoar o que fizeram comigo.
Jamais perdoarei.
O mundo desmoronou, de novo e definitivamente,
Naquele dia, quando
Ele me disse a verdade.
Em vão tentei consertar
O que já não tinha conserto.
Meus pais, que nada fizeram nos 13 anos anteriores,
Continuaram indiferentes.
Quando eu os acusei,
Fui informado que a culpa era minha,
Afinal, eu escolhi nascer, não?
[Segundo Lacan, nós escolhemos nascer...]
Eu não vou esquecer.
Eu não vou perdoar.
Vivo com um sonho ridículo,
Espero pelo dia no qual haverá conserto
Viverei o bastante?
Talvez não.
Mas existe uma esperança.
E, até lá, eu me arrastarei.
Até descobrir
Que não me importa mais,
Que todo caminho foi em vão.
Já faz alguns dias
Que ando numa depressão fodida.
Sempre reclamo de falta de tempo,
Mas...
Já faz alguns dias
Que não faço nada.
A minha lista infinita de coisas a fazer?
Já faz alguns dias
Que tento chorar e não consigo.
Qual foi a última vez que eu chorei?
Já faz alguns anos, mas
Agora eu consegui.
... [pausa para eu terminar de chorar]
[Ta legal, isso ficou bastante emo...que se dane!]
Já faz alguns dias
Que espero apaticamente
Deitado em minha cama.
Encolhido, lembrando o que,
Já faz alguns dias,
Não sai da minha mente.
De voltar a ser psicanalisado.
Nem fodendo!
Não vou gastar 20% da minha renda nisso.
Não voltarei rastejando.
Pedindo o que eu sei que não pode ser dado.
Eu já sei que não há salvação.
[Segundo Lacan, o grande Outro não existe.]
Levantei e escrevi o que,
Já faz alguns dias,
Eu remôo.
O que,
Já faz alguns dias,
Me consome.
Ela morreu aos 63 anos.
Esperei meio século por isso.
E o que mudou?
Eu sonhei.
E o que adiantou?
Ela morreu aos 63 anos.
O que é um ser humano?
E se Menguele estivesse certo?
Eu ia me foder de qualquer jeito.
Eu estou acabado,
Sempre estive.
Mas insisti em negar o óbvio.
Ela morreu aos 63 anos.
Quantas vezes eu sonhei com isso?
Ver esse cadáver?
Olhar para esses olhos,
Agora tão frios quanto antes?
O que eu farei agora?
O mesmo que fiz nos últimos 50 anos:
Nada.
Ela morreu aos 63 anos.
Depois de tanto tempo,
Que diferença faz?
Nenhuma.
Isso conserta o meu passado?
Não [não há conserto].
Isso conserta o meu futuro?
Não [não há conserto].
Isso conserta o meu presente?
Não [não há conserto].
O que isso muda?
Nada.
Quem se importa?
Ninguém [isso não é novidade].
E, então, por que eu me olho no espelho
E vejo um sorriso nos meus lábios?
Tudo em vão.
Um completo desperdício.
Algumas vidas destruídas,
Inclusive a minha.
Eu não entendo.
Nunca vou entender
O porquê de tudo isso.
Todo sofrimento em vão.
Vingança?
Agora que
Ela morreu aos 63 anos?
Tarde demais.
Está tudo ligado, misturado:
Passado, presente, futuro,
Amor, ódio, indiferença,
Desejo, sonho, delírio,
Culpa, medo,
Trabalho,
Mentira,
Angústia,
Está tudo resumido
Num cadáver.
Que hoje, quando
Ela morreu aos 63 anos,
Está diante desses olhos
Que a terra há de saborear também [ou não].
Está tudo resumido
Em nada.
Vacuidade.
Meus pais choraram porque hoje
Ela morreu aos 63 anos.
Agora faltam eles.
Eles se faltam agora que
Ela morreu aos 63 anos.
Afinal, foram 63 anos.
Mas, o que são 63 anos
Para a história do universo?
Ou para a minha vida?
Tudo que começa acaba (?)
Ela morreu aos 63 anos.
Nem acredito que eu vivi até aqui.
Os meus desejos estúpidos
Ainda são possibilidades no horizonte.
Embora cada vez eles me valham menos,
Embora cada vez eu menos faça questão de realizá-los.
Ainda são promessas
Às quais eu me agarro por não ter mais nada
Para justificar a difícil tarefa de levantar toda manhã.
A vida é uma merda, definitivamente.
E ela, que tão cedo me ensinara isso,
Morreu aos 63 anos.
Agora que cheguei até aqui, o dia em que
Ela morreu aos 63 anos,
Talvez esteja na hora de eu desistir também,
De escolher morrer também.
O que serei sem o grande Outro?
Há outros Outros.
Mas a morte é uma libertação.
Se eu pudesse voltar no tempo
Se eu pudesse desfazer uma única escolha do meu passado
Seria a primeira:
Dessa vez eu escolheria não nascer!
Ela morreu aos 63 anos.
Que ando pensando:
Ela morreu aos 63 anos [2037]...
E eu, quando estarei livre?
Pois a minha vida,
Desde aquele dia quando
Ele me disse a verdade [1999],
Já acabare-se mesmo,
Restando-me poucos sonhos,
Um dos quais,
Já faz alguns dias [2037],
Se realizou quando
Ela morreu aos 63 anos.
[Isso se chama sublimação] [2010]
[E eu quero que Lacan se foda!!! :P]
***
Tempore, quo cognitio simul advenit, amor e medio supersurrexit.








