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sábado, 10 de julho de 2010

CXI – Acerca (de uma parte) do (meu) inominável: passado, presente e futuro (flashback # 12 /flashforward # 5 )

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§ 111



A mediocridade é meu passado; caos é meu presente; a decadência é meu futuro. Com todo vapor ao colapso!




I – Flashback # 12 (1999)

Ele me disse a verdade:
Eu sou um deformado.
Como eu nunca percebi isso antes?
[Segundo Lacan, só percebemos algo em nós quando os outros nos falam.]
Onde eu estive todo esse tempo?
Onde estiveram meus pais nos últimos 13 anos?
Onde estiveram @s professor@s?
Onde esteve pelo menos alguém – uma única pessoa – que se importasse?
Agora não há mais conserto.
De um dia para o outro,
Vi-me responsável pelo meu passado,
Vi-me responsável por escolhas que não fiz.
Ou fiz?
[Segundo Lacan - e meus pais - fiz]

Ele me disse a verdade.
De repente, tive flashbacks,
Que prenunciavam a revelação,
Que diziam, sem palavras,
O que eu já deveria saber.
Mas eu, ingênuo, não percebera.
E quem perceberia?
[Segundo Lacan, ninguém.]
E fiquei inescrutavelmente perplexo quando
Ele me disse a verdade.

O ódio que eu sentia por ele arrefeceu;
Mas o ódio apenas mudou de objeto.
Pois eu não poderia perdoar o que fizeram comigo.
Jamais perdoarei.
O mundo desmoronou, de novo e definitivamente,
Naquele dia, quando
Ele me disse a verdade.

Em vão tentei consertar
O que já não tinha conserto.
Meus pais, que nada fizeram nos 13 anos anteriores,
Continuaram indiferentes.
Quando eu os acusei,
Fui informado que a culpa era minha,
Afinal, eu escolhi nascer, não?
[Segundo Lacan, nós escolhemos nascer...]
Ele me disse a verdade.

Eu não vou esquecer.
Eu não vou perdoar.
Vivo com um sonho ridículo,
Espero pelo dia no qual haverá conserto
Viverei o bastante?
Talvez não.
Mas existe uma esperança.
E, até lá, eu me arrastarei.
Até descobrir
Que não me importa mais,
Que todo caminho foi em vão.

Ele me disse a verdade.


II – Presente (2010)



Já faz alguns dias
Que ando numa depressão fodida.
Sempre reclamo de falta de tempo,
Mas...
Já faz alguns dias
Que não faço nada.
A minha lista infinita de coisas a fazer?
Abandonada.

Mas quem disse que sou uma máquina eficiente?
Sou uma bem fajuta, sucateada.
Calcular? Calculo muito mal...
Pensar? Até penso bastante,
Mas não o suficiente para me libertar de minha miséria,
Não o suficiente para me redimir do meu passado.
Eu sou um caso perdido, eu sei.

Já faz alguns dias
Que tento chorar e não consigo.
Qual foi a última vez que eu chorei?
Já faz alguns anos, mas
Agora eu consegui.
... [pausa para eu terminar de chorar]
[Ta legal, isso ficou bastante emo...que se dane!]

Já faz alguns dias
Que espero apaticamente
Deitado em minha cama.
Encolhido, lembrando o que,
Já faz alguns dias,
Não sai da minha mente.

Já faz alguns dias
Que reconsidero a possibilidade
De voltar a ser psicanalisado.
Nem fodendo!
Não vou gastar 20% da minha renda nisso.
Não voltarei rastejando.
Pedindo o que eu sei que não pode ser dado.
Eu já sei que não há salvação.
[Segundo Lacan, o grande Outro não existe.]

Eu mudei desde que comecei esse blog?
Não o suficiente.
Alguns problemas simplesmente não têm solução.
Mas eu (acho que) sei o que eu deveria fazer
Para solucionar meus "problemas insolúveis"
(Não há certezas nem garantias).
Todavia, eu não estou disposto a fazê-lo.
Prefiro viver e morrer infeliz,
A ter uma felicidade imbecil.
Mais um motivo para eu não voltar...
Não me venham falar de amor...,
Porque estou cansado de ouvir disso.

Reuni as minhas forças
Levantei e escrevi o que,
Já faz alguns dias,
Eu remôo.
O que,
Já faz alguns dias,
Me consome.


III – Flashforward # 5 (2037)

Ela morreu aos 63 anos.
Esperei meio século por isso.
E o que mudou?
Eu sonhei.
E o que adiantou?
Ela morreu aos 63 anos.

O que é um ser humano?
E se Menguele estivesse certo?
Eu ia me foder de qualquer jeito.
A vida é uma fodeção eterna.
E quem não gosta de foder?
[E quant@s não adoram ser fodid@s?]
Eu estou acabado,
Sempre estive.
Sempre estarei.
Mas insisti em negar o óbvio.
Ela morreu aos 63 anos.

Quantas vezes eu sonhei com isso?
Ver esse cadáver?
Olhar para esses olhos,
Agora tão frios quanto antes?
O que eu farei agora?
O mesmo que fiz nos últimos 50 anos:
Nada.

Ela morreu aos 63 anos.
Depois de tanto tempo,
Que diferença faz?
Nenhuma.
Isso conserta o meu passado?
Não [não há conserto].
Isso conserta o meu futuro?
Não [não há conserto].
Isso conserta o meu presente?
Não [não há conserto].
O que isso muda?
Nada.
Quem se importa?
Ninguém [isso não é novidade].
E, então, por que eu me olho no espelho
E vejo um sorriso nos meus lábios?
Ela morreu aos 63 anos.

Tudo em vão.
Um completo desperdício.
Algumas vidas destruídas,
Inclusive a minha.
Eu não entendo.
Nunca vou entender
O porquê de tudo isso.
[Não há porquê.]
Todo sofrimento em vão.
Vingança?
Agora que
Ela morreu aos 63 anos?
Tarde demais.

Está tudo ligado, misturado:
Passado, presente, futuro,
Amor, ódio, indiferença,
Desejo, sonho, delírio,
Culpa, medo,
Trabalho,
Mentira,
Angústia,
Pobreza. ["Não é a pobreza que causa a dor, mas a cobiça." Epícteto]
Está tudo resumido
Num cadáver.
Que hoje, quando
Ela morreu aos 63 anos,
Está diante desses olhos
Que a terra há de saborear também [ou não].
Está tudo resumido
Em nada.
Vacuidade.
Mas e daí?

Meus pais choraram porque hoje
Ela morreu aos 63 anos.
Agora faltam eles.
Eles se faltam agora que
Ela morreu aos 63 anos.
Afinal, foram 63 anos.
Mas, o que são 63 anos
Para a história do universo?
Ou para a minha vida?
Tudo que começa acaba (?)

Ela morreu aos 63 anos.
Nem acredito que eu vivi até aqui.
Os meus desejos estúpidos
Ainda são possibilidades no horizonte.
Embora cada vez eles me valham menos,
Embora cada vez eu menos faça questão de realizá-los.
Ainda são promessas
Às quais eu me agarro por não ter mais nada
Para justificar a difícil tarefa de levantar toda manhã.
A vida é uma merda, definitivamente.
E ela, que tão cedo me ensinara isso,
Morreu aos 63 anos.

Agora que cheguei até aqui, o dia em que
Ela morreu aos 63 anos,
Talvez esteja na hora de eu desistir também,
De escolher morrer também.
O que serei sem o grande Outro?
Há outros Outros.
Mas a morte é uma libertação.

Se eu pudesse voltar no tempo
Se eu pudesse desfazer uma única escolha do meu passado
Seria a primeira:
Dessa vez eu escolheria não nascer!

Ela morreu aos 63 anos.


IVConcluo (2.9.1.7.?)

Já faz alguns dias
Que ando pensando:
Ela morreu aos 63 anos [2037]...
E eu, quando estarei livre?
Pois a minha vida,
Desde aquele dia quando
Ele me disse a verdade [1999],
Já acabare-se mesmo,
Restando-me poucos sonhos,
Um dos quais,
Já faz alguns dias [2037],
Se realizou quando
Ela morreu aos 63 anos.

[Isso se chama sublimação] [2010]
[E eu quero que Lacan se foda!!! :P]





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Tempore, quo cognitio simul advenit, amor e medio supersurrexit.

sábado, 27 de fevereiro de 2010

### 31 - Perdendo dentes (Pato fu).

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31





Perdendo Dentes
Pato Fu
Composição: John/Fernanda Takai


Pouco adiantou
Acender cigarro
Falar palavrão
Perder a razão

Eu quis ser eu mesmo
Eu quis ser alguém
Mas sou como os outros
Que não são ninguém

Acho que eu fico mesmo diferente
Quando eu falo tudo o que penso realmente
Mostro a todo mundo que eu não sei quem sou
Eu uso as palavras de um perdedor

As brigas que ganhei
Nem um troféu
Como lembrança
Pra casa eu levei

As brigas que perdi
Estas sim
Eu nunca esqueci
Eu nunca esqueci

Pouco adiantou
Acender cigarro
Falar palavrão
Perder a razão

Eu quis ser eu mesmo
Eu quis ser alguém
Mas sou como os outros
Que não são ninguém

Acho que eu fico mesmo diferente
Quando eu falo tudo o que penso realmente
Mostro a todo mundo que eu não sei quem sou
Eu uso as palavras de um perdedor

As brigas que ganhei
Nem um troféu
Como lembrança
Pra casa eu levei

As brigas que perdi
Estas sim
Eu nunca esqueci
Eu nunca esqueci

As brigas que ganhei
Nem um troféu
Como lembrança
Pra casa eu levei

As brigas que perdi
Estas sim
Eu nunca esqueci
Eu nunca esqueci


Disponível em: http://letras.terra.com.br/pato-fu/30235/






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sábado, 2 de janeiro de 2010

XCII - Povo em fila (flashback # 9 - 17/05/2007)

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§ 92





Povo em fila.


Fazenda Rio Grande
As nuvens transpassam o horizonte
O tempo escorre como azeite derramado
O vento carrega o pressentimento da morte

Caixa Econômica Federal
O povo adentra à agência bestializado
Parece gado na fila do matadouro
O mecanismo da porta giratória transcende à compreensão
À medula espinhal não cabe entender
Ninguém espera que algo mude
Sem redenção

O descalabro
A mais crassa ignorância
A rotina
Amputação, necrose
Vômito ao chão...
Nada falta para compor as negras cores do cenário

Espetáculo trágico,
Diante do qual Portinari ver-se-ia coagido a retocar " Os retirantes"





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Tempore, quo cognitio simul advenit, amor e medio supersurrexit.

sábado, 6 de dezembro de 2008

XLI - Eles não têm piedade.

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§ 41








(...) Daí resultam resistências que de todos os lados opõem obstáculo a esse esforço, essência íntima de todas as coisas, reduzem-no a um desejo mal satisfeito, sem que, contudo, ele possa abandonar aquilo que constitui todo o seu ser, e o forçam assim a torturar-se, até que o fenômeno desapareça, deixando o seu lugar e a sua matéria imediatamente açambarcados por outros. (Arthur Schopenhauer, O Mundo como Vontade e como Representação, tomo I, §56)


I am up in the clouds
I am up in the clouds
And I can't and I can't Come down.

I can watch but not take part
Where I end and you start
Where you left me alone
You left me alone.


(Radiohead - Where I end and you began)


Eles sempre estão ali,
Em toda parte, à espreita.
Não há paz.
Eles estão me olhando,
Todo o tempo.
A forma é mais importante
Que o conteúdo.

Eles me perseguem.
Atormentam...
...Meu corpo,
Vítima de si mesmo.
Torturado por sua própria cegueira.
Torturado por sua própria presunção.

Eles não têm piedade.
Eles não pedem piedade.


Eu não consigo sonhar.
Ai, se eu pudesse
Eu faria... qualquer coisa.
Se fosse tão fácil assim,
Eu já teria resolvido; mas
Eu fiz tudo o que pude,
E isso não é o bastante.

Somos cúmplices no mesmo crime.
Pagamos por ele todos os dias
Eu posso ver a dor em seus olhos.

Eu trocaria toda a minha vida
Por um único momento, que não virá.

Desperdiçado.
Confundem o que é real.
Sempre se escondendo.

Eles lêem meus pensamentos.
Sabem de tudo.
Deixam-me ver quem eu realmente sou.
Sem que eu consiga entender o que foi
Que eu fiz para merecer isso.
Sem que eu consiga entender como
Tal coisa pode acontecer.

Eu quero esquecer, completamente:
O que eu sei;
O que eu sinto;
O que eu faço;
O que eu sou.

Um dia não haverá mais dor.






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Tempore, quo cognitio simul advenit, amor e medio supersurrexit.

sábado, 2 de agosto de 2008

XXXI - Desideratum. Desideratum. Desideratum. Desideratum. Desideratum. Desideratum. Desideratum. Desideratum. Desideratum. Desideratum.

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§ 31








I used to think
I used to think
There was no future left at all
I used to think

(Radiohead, I Might be Wrong)


Pois bem, esta situação do homem perdido sem remédio é a própria imagem da nossa impotência para lançar longe de nós a vontade, uma vez que a nossa pessoa é apenas a realização objetiva desta última. (Arthur Schopenhauer, O Mundo como Vontade e como Representação, Tomo I, §59)


Enquanto cavalgávamos, éramos desencarnados, inconscientes da carne ou do sentimento, e quando, num intervalo, desaparecia a excitação, era com certa hostilidade que víamos nossos corpos com a compreensão desdenhosa de que alcançavam sua mais alta finalidade não como veículo do espírito, mas quando, dissolvidos, seus elementos serviam para adubar um campo. (T. E. Lawrence, Os sete pilares da sabedoria.)
Os pensadores antigos procuravam com todas as forças a felicidade e a verdade - e nunca ninguém encontrará o que é obrigado a procurar, diz o maldoso princípio da natureza. Mas quem procura em tudo a inverdade e se associa livremente com a infelicidade, para este, talvez, está preparado um outro milagre da desilusão: algo indizível, do qual a felicidade e verdade são apenas imagens e meros ídolos, acerca-se dele, a Terra perde seu peso, os acontecimentos e potências do mundo se tornam sonhos e, como nas tardes de verão, se espraia em torno dele uma transfiguração. Para aquele que contempla é como se começasse a acordar e como se fossem apenas as nuvens de um sonho evanescente que brincassem ainda em torno dela. Também estas acabarão por dissipar-se: então será dia. (Nietzsche, Considerações Extemporâneas, III, § 4)
Falamos o que não devia/Nunca ser dito por ninguém.(Legião Urbana, Ainda é cedo)

Avisa que é de se entregar o viver.
(Los Hermanos, Pois é)
Vivi tão pouco que tendo a imaginar que não morrerei. Parece inverossímil que uma vida humana se reduza a tão pouco. A gente imagina, apesar de tudo, que algo, cedo ou tarde, acontecerá. Profundo engano. Uma vida pode ser muito bem, ao mesmo tempo, vazia e curta. Os dias passam pobres, sem deixar nem lembranças; depois, de um golpe, acabam.
Às vezes, também, tenho a impressão de que conseguirei me instalar duradouramente numa vida ausente. Que o tédio, relativamente indolor, me deixará continuar a realizar os gestos corriqueiros da vida. Novo engano. O tédio prolongado não é uma posição sustentável. Transforma-se, cedo ou tarde, em percepções nitidamente mais dolorosas, de uma dor positiva. É exatamente o que está acontecendo comigo.
(Michel Houellebecq, Extensão do domínio da luta, parte I, cap.12)

Idéias fixas
Perseguem-me
O tempo todo,
Sem descanso,
Sem chance de escapatória.
Sem vontade de parar (de desejá-las).
Sem vontade de continuar (a viver).
Até que a morte venha me redimir.
Os outros viverão por mim.

De que vale percorrer
Toda a terra,
Todos os mares,
Se eu não posso chegar ao céu?

O mundo inteiro
Já não é o bastante,
Pois tudo o que eu quero
Ele não pode me fornecer.
A vida não é o suficiente.
Não vale a pena,
Definitivamente.
Desperdiçado.

Amargo me tornei.
Sinto ódio, todo o tempo.
Desapontamentos.
Frustrações.
Desencanto.
Angústia.
Nãos.
Não vou esquecer;
Não vou perdoar;
Não vou aprender;
Não vou entender;
Não vou aceitar.

Não, a vida não é bela.
Não, a vida não é boa.
Não, a vida não é justa.
Não, tudo não vai ficar bem.
Não, eu não vou ficar bem.
Não tenho culpa se a vida é uma ilusão.
Não vou mentir e
Dizer que sou feliz.


Por que eu deveria sorrir?
Por que eu deveria me importar?
Por que eu deveria respeitar?
Por que eu deveria acreditar?
Por que eu deveria me desculpar?
Por que eu deveria fingir?
Por que eu deveria crescer?

Eu perco tempo demais.
Eu não consigo sonhar.
Eu não consigo lembrar
Como é que eu fui ficar assim.
Eu não consigo lembrar
Quando é que eu me perdi completamente.
Irreconciliado com a civilização.

Quanto mais eu sei,
Mais eu descubro
Que tudo é mentira.
Tudo o que eu sei está errado.
Melhor seria não ter nascido.
Difícil é encontrar um só
Motivo para não se matar.
- Na morte não há dor.

À beira do abismo,
No limite.
Sem ilusões,
A verdade irrompe.
E a verdade ofende.
E a verdade é mesmo terrível.
Inaceitável.
Inferno é acordar todas as manhãs
Sem saber o porquê.
Mas nada está tão ruim
Que não possa piorar.
O poço não tem fundo.
E a luz no fim do túnel
É de um incêndio.

Permaneço atônito
Diante de um mundo que me choca
E, inescrutavelmente perplexo,
Eu me pergunto:
Por que as coisas são assim?
Por que as pessoas aceitam a vida como ela é?
Por que as pessoas se sujeitam,
Com a tranqüilidade da inconsciência,
A reproduzir tudo isso que aí está?
Vontade de saber.

O vazio.
O despropósito.
A indiferença.
É tudo uma grande farsa.
O caos reina.
Mas as pessoas não querem saber.
As pessoas querem ser enganadas.
As pessoas gostam de ser enganadas.
As pessoas são estúpidas.
Pois sem ilusões não conseguiriam viver.
Pois sem ilusão não conseguiriam suportar
O fardo da vida.
Um dia eu fiquei cego.
E já não há realidade,
Apenas escombros.
E já não há explicações,
Apenas jogos de palavras.
E já não há mais saídas,
Apenas portas fechadas.
E já não há mais sabedoria,
Apenas sofística.
E isso não é suficiente.
Não serve.
Pelas manhãs,
Pílulas,
Paliativos,
Que adiam o inevitável,
Que escondem o evidente,
Que negam o inegável,
Que perdoam o imperdoável,
Que tentam, sempre em vão,
Remediar o que já não tem remédio,
Consertar o que já não tem conserto,
Curar o que já não tem cura.

Um dia eu cheguei a acreditar
Que a vida talvez fosse boa.
Mas logo depois eu mudei de opinião.
Ninguém disse que seria fácil.
Ninguém jamais disse que seria tão difícil assim.


Tudo é tão insípido
Tudo é tão vazio.
Tudo é tão cretino.
Tudo é tão sem graça...

Quanto mais as coisas mudam,
Mais elas ficam iguais.
No fim eu vi o começo.
Progresso?
Que querem dizer com isso?
Pois a verdade é uma só
E não poderia ser diferente.

Eu fui tão longe que
Eu já nem sei ao certo
O que é mentira e o que é verdade,
O que é certo e o que é errado.
Eu (acredito que) sei sobre o que tudo é.

É sempre a mesma coisa.
Todos os dias são iguais.
Prisioneiro de um presente perpétuo,
Sem passado ou futuro.

Se a vida é um
Contínuo desdobramento da atividade
,
Então o que ocorre quando
Ela não consegue mais se desdobrar?


O real é miserável.
O hiper-real é ilusório.
Ambos são insuficientes.

Perambulo sofregamente
Por esse vale de lágrimas
E de ilusões,
Numa realidade hedonista de escombros.
E estas pessoas
- Estes fantasmas que,
Distantes, flutuam –
Elas já não me importam mais.
Elas já não me machucam mais.
E este lugar,
Ele já não possui valor algum.

Não devo nada para ninguém
Nada
Para ninguém.
Ninguém.
Por mim podem morrer todos,
Inclusive eu.
Eu não respeito ninguém.
Ninguém vai me dizer o que fazer.
Ninguém vai me dizer o que pensar.
Ninguém vai ousar me declarar verdades eternas.
Mesmo que todos digam que eu estou errado,
Eu não mudarei a minha opinião.
Também Schopenhauer, entre a primeira e a última edições da sua obra [máxima,]
Teve quarenta anos para mudar de opinião.
Mas não o fez...Pelo contrário,
Na velhice ele declarou:
"Aquilo que eu sabia antes, agora eu sei ainda mais".

De que vale ter boa vontade?
Para que todo esse barulho?
Para que toda essa agitação?
Se morreremos todos mesmo.
Por que eu deveria me levantar,
Se ainda hoje terei que me deitar novamente?
Por que tentar só mais uma vez
Se eu já vi tudo?

Deixe-me totalmente só.
Ninguém pode me ver chorar.
Colapsando paulatinamente,
Sem sair do lugar,
Nessa vida longa demais.

De que adianta se esforçar?
A sombria chama do desejo,
Para apagá-la eu faria qualquer coisa.
A espera interminável.
Mil obstáculos.
Mil dificuldades.
O prazer fugaz.
E por fim a desilusão.

Se ao menos houvesse
Um único momento
Que justificasse tudo isso.
Não há nenhum.
Não há nada.
E eu tentei.
E eu fiz tudo o que pude.
Mas não foi o bastante.

Preso nessa agonia.
O tempo escorre lentamente,
Dolorosamente.
E eu conto os dias.
E eu conto as horas.
Para a minha alforria,
Para o dia da minha fuga.

Pois se a vida
Me ofereceu algo de bom
Certamente o foi a convicção
De que tudo isso não é para sempre.

Quando eu acordar,
Quero que essa dor vá embora
Para eu nunca mais lembrar
De quem eu sou,
Do que eu sou,
De que eu estive nesse lugar,
De que eu conheci essa gente.

Nunca haverá satisfação.
Nunca haverá paz.
A dor não se interrompe.
Não há saída,
Para lugar nenhum.
A vida é uma prisão.

É tarde demais,
Sempre foi.
E sempre será.
Não há mais volta.
Agora não adianta mais.
E daí?
Por que alguém deveria se importar?
Agora não funciona mais.
E que diferença faz?

Eu precisaria acreditar
Que tudo isso faz algum sentido.
Eu precisaria acreditar
Que tudo isso não é em vão
Eu precisaria acreditar
Que meu sofrimento será recompensado
Mas as fantasias se desvanecem
Diante das evidências inequívocas,
E que se repetem de novo e de novo,
Da vacuidade e da futilidade radical da vida.

Foi tudo em vão,
Foi tudo um completo e
Total e irremediável desperdício.
Inútil.
Não tenho dúvida alguma disso.

Eu não posso continuar.
Eu não agüento mais.
Quero ir embora
Para nunca mais voltar.
Quero desaparecer.
Isso já não foi o bastante?
Ó, por favor...
Tanta gente morrendo por aí.
Tanta gente implorando
Para viver um pouco mais,
Para sofrer um pouco mais.
Por que não eu?
Se um dia, há quase dez anos,
Eu já acordei morto mesmo?
Por que continuar?
Se para mim a vida já terminou?

Sinto muito que seja assim.
Mas não há nada mais o que fazer,
A não ser esperar
O tempo passar
E acabar com tudo o que restou,
De uma vez por todas.

E assim, pela primeira
E última vez,
Eu terei algo que
Desejei ardentemente.

Isso é o que acontece
Quando se vai pelo caminho errado.
Mas nesse jogo de soma zero,
Para uns vencerem outros devem,
Necessariamente, perder.
Pois o prazer se paga com a dor.

Isso não vai ficar assim.
(Ou vai?)





***

Tempore, quo cognitio simul advenit, amor e medio supersurrexit.

sexta-feira, 6 de junho de 2008

XXIV - Um bilhete.

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§ 24




Death we know/Comes to all of us alive/But all I want is you/All I need is you/All I want... (Serj Takian, Elect the dead)


Por que desejamos algo que seja o nosso oposto, que "nos complete"?
Por que dia após dia?
Por que somos dominados por essas volições?
Por que nossa racionalidade não consegue nos salvar disso?
Por que nenhuma outra coisa é capaz de nos saciar?
Por que as coisas são assim?
Por que semana após semana?
Por que desejamos aquilo que não podemos ter?
Por que nossos olhos confessam o que não temos coragem de dizer?
Por que não conseguimos acabar com tudo isso?
Por que mês após mês?
Por que o tão igual parece tão diferente?
Por que não há paz?
Por que sofrer, tremer, chorar?
Por que chegamos a preferir a morte à vida?
Por que vivemos uma mentira, uma farsa?
Por que a dor não se interrompe?
Quero me libertar.





***

Tempore, quo cognitio simul advenit, amor e medio supersurrexit.

segunda-feira, 18 de fevereiro de 2008

I - Não estou aqui.

.
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§ 1







Ando pelas ruas (de Cu-ritiba)
As nuvens transpassam o horizonte
Cada um vegetando a sua vidinha miúda
Ninguém espera que algo mude

As pessoas flutuam como fantasmas
Tudo parece um grande holograma

Eu não estou aqui
Isso não está acontecendo, acontecendo

Olho em redor
Procurando....
....Sentido
Todos são tão...parecidos
Tão iguais, diferentes, iguais
Iguais
Estão esperando

Isso realmente está acontecendo
Acontecendo
Não:
Isso não é real
Definitivamente, não é real
Real, não pode ser.





***
Tempore, quo cognitio simul advenit, amor e medio supersurrexit.