§ 1.113.688
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O que o sono é para o indivíduo, a morte é para a vontade enquanto coisa-em-si. Ela não resistiria a continuar por toda uma eternidade as mesmas atribulações e sofrimentos, sem ganho verdadeiro, se lhe restassem recordação e individualidade. (Arthur Schopenhauer, O mundo como vontade e como representação, Tomo II, capítulo XLI - Da morte e da sua relação com a indestrutibilidade do nosso ser-em-si.)
Trata-se de considerar sob esta perspectiva, na existência humana, o destino secreto que pertence por essência à Vontade em si mesma. (Ibidem,Tomo I, capítulo LVI.)
Ora, depois do que disse no meu segundo livro a respeito da dependência de todos os fenômenos da Vontade, creio poder admitir que no dia em que desaparecesse [mediante ascese] a sua manifestação mais elevada [a humanidade], a animalidade, que é o seu reflexo enfraquecido, desapareceria também. Desde modo, encontrando-se totalmente suprimido, o resto do mundo cairia no nada, visto que sem sujeito não existe objeto [ergo bibamos]. (Ibidem, Tomo I, cap LXVIII)
Da mesma forma que o querer, suprimida igualmente a totalidade do seu fenômeno; suprimidas, enfim, as formas gerais do fenômeno, o tempo e o espaço; suprimida a forma suprema e fundamental da representação, a de sujeito e objeto. Já não existe nem Vontade, nem representação, nem universo. (Ibidem, Tomo I, cap LXXI.)
Não se pode dizer tudo num mesmo dia, e não se deve responder mais do que aquilo que foi perguntado.
Passará o céu e a terra, mas as minhas palavras não passarão. (Marcos, 13:31)
Only fools are enslaved by time and space.
Sim, a "anormalidade" que encaramos é um signo defensivo, algo que pretende evitar-nos uma loucura mil vezes mais dolorosa do que a que conhecemos, loucura que, certamente, causaria a bancarrota e a falência fisiológica de nosso ser. (Ezio Flavio Bazzo, Toaletes e guilhotinas: Uma epistemologia da merda e da vingança, II)
Invadir a Base de São José dos Campos para localizar e sequestrar o "E.T. de Varginha"? É, agora eu reconheço que não foi uma idéia muito boa... Eu já tinha participado de várias operações da GaiaCorp., e quase sempre eu tinha pressentimentos de morte antes e depois de decidir participar delas. Porém, dessa vez, os pressentimentos estavam certos. Nós acreditávamos que tínhamos estudado detalhadamente os sistemas de segurança da base, mas não tínhamos. Desligamos um dos sistemas apenas aparentemente, e quando nós percebemos isso já era tarde: já estávamos trocando tiros com os soldados. E no meio desse "pipoco" eu fui atingido mortalmente; o tiro me atravessou o fígado, pelas costas. Eu caí no chão, e enquanto era arrastado pelos soldados contemplei o rastro deixado pelo meu sangue no chão. Eu estava com muito frio. Foi quando eu morri.
Porém, como quem que, estando muito cansado, é acordado repentinamente na manhã seguinte por uma outra pessoa, eu abri os olhos imediatamente depois de fechá-los. Para mim era como se tivesse passado apenas um segundo, e não 21.408 anos. Quando acordei, meus olhos foram ofuscados pela luz branca que emanava do ambiente. Eu estava numa sala cilíndrica, com uns 5 metros de diametro e uns 4 de altura ; o teto, o chão e as paredes eram todos feitos do mesmo material, que parecia vidro branco. Não havia portas ou janelas visíveis. A luz emanava uniformemente de todos os lados. Eu estava sentado numa cadeira parecida com uma cadeira de dentista, também branca. Em minha frente estava um homem, cuja aparência seria melhor descrita como a de um chinês albino de 25 anos; os olhos dele eram azul-acinzentados, como os olhos dos cegos; ele vestia a mesma coisa que eu: uma espécie de túnica romana, que era de um cinza tão claro que quase se confundia com o resto do ambiente. Foi quando ele me falou, com sua voz apática de trovão:
Kalki: "Encontrar-nos-emos onde não há trevas."
Duan Conrado: "Como?"
Kalki: "A última frase do seu blog."
Duan Conrado: "Ah, é né... E quem é você?"
Kalki: "Pode me chamar de Kalki.Você sabe onde está, Duan?"
Duan Conrado: "Bem, você não deve trabalhar para o governo brasileiro. Na verdade, você nem parece muito humano."
Kalki: "Você morreu naquela noite, Duan."
Duan Conrado: "Morri. Então eu devo estar no inferno, apesar de aqui não parecer com ele..."
Kalki: "Não. Você está no futuro. Se tomarmos a finada Terra como referencial, e se adotarmos o Calendário Gregoriano, vigente na sua época, nós estaríamos no ano de 23.426 d. C."
Duan Conrado: "Mas que lugar é esse? E por que eu tenho a sensação de que o tempo escorre mais lentamente?"
Kalki: "Isso aqui não é exatamente um lugar, mas sim uma superposição de lugares. É difícil de explicar-lhe com a linguagem primitiva e linear que você conhece. Mas tenha certeza que, quando você vir você entenderá. Com relação ao tempo, ele está passando mais lentamente para todos, não apenas para você."
Duan Conrado: "Espera aí. Você está dizendo que eu morri em 2.018, naquela base militar e que agora eu fui ressuscitado em 23.426 d. C. e que eu nem estou na Terra? O que aconteceu com a Terra?!"
Kalki: "A Terra foi destruída em 3.797 d. C. na Quarta Grande Guerra entre trans-humanos e máquinas. O próprio universo onde você viveu foi destruído em 20.302 d.C, quando o seu arquiteto, Jesus (também conhecido por Lúcifer, Mamom, Jeová, Brama, Ashtar Sheran, etc.), foi assassinado pelos trans-humaquinos na última guerra ocorrida no sub-multi-des-pan-verso, a "Guerra para acabar com todas as guerras". Nessa época eu tinha apenas 313 anos."
Duan Conrado: "Hum...Parece uma história muito interessante: guerra entre trans-humanos e máquinas, destruição da Terra, assassinato de Jesus pelos trans-humaquinos, destruição do universo, você com quase 4.000 anos de idade. Foram 21 séculos bem agitados, não?"
Kalki: "Sim. Depois do assassinato de Jesus, as coisas mudaram muito rapidamente. Já faz 1.409 anos que não há guerras no sub-multi-des-pan-verso. A vida inteligente se reduz a apenas 1.022 trans-humaquino em todo sub-multi-des-pan-verso, contando agora com você."
Duan Conrado: "O que são trans-humaquinos?"
Kalki: " O fim da Quarta Grande Guerra entre trans-humanos (Homo evolutis) e máquinas foi marcado pela fusão definitiva entre essa as duas formas de vida. Você ainda não percebeu, mas você também é um trans-humaquino. Nós viajamos no tempo, fomos até a Terra na noite da sua morte, tiramos amostras do seu DNA e fizemos um upload da sua mente. Depois reconstruímos seu corpo, mas o modificamos substancialmente, de tal forma que pouca coisa de "humano" restou em você. Todas essas operações podem até lhe soar muito complexas, mas atualmente, com a Pandora, é tudo tão fácil que se faz com a tranquilidade da inconsciência."
Duan Conrado: "E Pandora, que seria?"
Kalki: "Pandora é um complexo virtual-bio-nano-meca-tectrônico capaz de criar qualquer coisa a partir do nada. É capaz inclusive, de criar, descriar e recriar universos inteiros. É quase como uma impressora multidimensional"
Duan Conrado: "Nossa... E por que o tempo está passando tão lentamente?"
Kalki: "O sub-multi-des-pan-verso está morrendo. A voluntas está tornando-se noluntas. Chegamos a uma saturação completa do próprio Ser, e portanto ao seu esvaziamento absoluto. A história da evolução do homo sapiens e de seus superadores implicou não somente na destruição da Terra, mas também na aniquilação da própria totalidade sub-multi-des-pan-versica."
Duan Conrado: "Parabéns para nós! Mas vocês não vão fazer nada? Vai ficar por isso mesmo?"
Kalki: "Ninguém dá a mínima, justamente porque chegou-se a essa saturação do Ser, a essa transmutação transcendental. E mesmo que quiséssemos, não poderíamos alterar a própria totalidade. Apenas podemos manipular objetos quando ele existe para um referencial. Mas não há referencial para a totalidade se relacionar. Nós esgotamos as possibilidades do Sansara, reta-nos apenas aguardar pelo Nirvana. Do nada viemos e ao nada voltaremos."
Duan Conrado: "Isso é a exorbitação tresloucada do blasé...Mas que diferença faz? E quanto tempo o Sansara ainda têm de vida?"
Kalki: "De acordo com o sistema métrico do seu planeta e da sua época, 71 horas, 58 minutos e 34 segundos."
Duan Conrado: "Humpf... Mas, afinal, por que você me ressuscitou?"
Kalki: "Bem, nós não temos muito o que fazer, sabe. A maioria de nós coleciona universos, mas ninguém mais se diverte com isso. Nós já ressuscitamos muita gente, inclusive todos os gênios da humanidade já foram ressucitados, mas a maioria já desapareceu, restam apenas alguns, como Popper e Lukàcs, por exemplo. Em resumo: ressuscitamos você apenas para passar o tempo. Eu encontrei os arquivos do seu blog. E vi que no capítulo LVIII você previu a possibilidade de um humano absorver todo o conhecimento existente por meio da sua fusão neuro-computacional com um gigantesco banco de dados. Pois é, isso já é uma realidade há milhares de anos, não foi de outra maneira que eu poderia ter tido acesso a algo tão insignificante quanto o seu blog."
Duan Conrado: "O que você quer dizer com 'desaparecer'?"
Kalki: "Quando o Ser, a coisa-em-si e para-si, se satura, o indivíduo simplesmente transita para o nada: ele literalmente desaparece. É isso que agora está acontecendo com a própria totalidade sub-multi-des-pan-versica. Por isso o tempo está passando mais lento: tudo, inclusive o espaço-tempo, está sendo tragado pelo nada."
Duan Conrado: "E vai dar tempo de eu absorver zilhões de zilhões de petabytes de informação em menos de 72 horas?"
Kalki: "Em meia hora você terá a completa ubiqüidade . É fácil, pois cada ponto do espaço-tempo contém toda informação do sub-multi-des-pan-verso três vezes: uma como coisa-em-si, outra como representação, outra como representação da representação. Cerca de duas horas depois, ou seja, muito antes do Nirvana, você já terá desaparecido."
Duan Conrado: "E por que você não desapareceu?"
Kalki: "Isso ser-lhe-á inteligível no momento adequado."
Duan Conrado: "Quem viveu um único momento, viveu todos."
Kalki: "E quem não viveu, também. Mas vamos acabar com essa conversa nessa prisão dessa linguagem primitiva que você usa."
Duan Conrado: "Ei..."
Kalki: "Não precisa agradecer."
Duan Conrado: "Tempore, quo cognitio simul advenit, amor e medio supersurrexit." (1)
Kalki: "Hae omnes creature in totum ego sum, et praetr me aliud ens non est." (2)
Após isso, Kalki me apresentou alguns dos seus "amigos" (outros trans-humaquinos que no estavam por ali no momento) e sem mais delongas eu fui introduzido na ubiqüidade. Tudo que eu soube, eu não tenho como explicar aqui. Depois eu desapareci, para sempre.
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(1) E sobrevindo o conhecimento, ao mesmo tempo do seio das coisas se elevará o amor.
(2) Eu sou todas as criaturas e inexistem seres exteriores a mim.