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sábado, 9 de janeiro de 2010

XCIII - Uma breve crítica ao cristianismo e a sua mais atroz forma: o (neo)pentecostalismo - parte 16 de 16.

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§ 93






Apêndice: O “testemunho” nas seitas (neo)pentecostais.



Além do louvor, da pregação, do batismo com o Espírito Santo e da expulsão de demônio, outro evento que se repete no cotidiano (neo)pentecostal são chamados “testemunhos”. De forma genérica os testemunhos podem ser definidos como narrativas apresentadas durante os cultos cujo objetivo é reforçar a fé dos presentes mediante o relato de supostas intervenções divinas.

Como as seitas (neo)pentecostais não possuem, efetivamente, um “ritual” – um corpo padrão de rituais – (e por isso mesmo são seitas), cada igreja apresenta os testemunhos no momento em que lhe aprouver; porém, em geral, eles são apresentados no fim da pregação do pastor (como se fossem “provas” da veracidade de tudo que ele acabou de dizer), antes da oração do final do culto.

Quando chega o momento “dos testemunhos” o pastor convoca alguns dos fiéis ali presentes a subirem ao púlpito (quando existe um) e narrarem aos demais supostos fatos que “mostrem a ação de deus/de Jesus em nossas vidas”. As histórias narradas nunca são complexas ou especiais; tratam-se, isso sim, de narrativas nas quais tudo de bom é associado a Jesus e tudo de ruim é associado a Satanás (ou a um teste de deus – é desnecessário repetir que a própria idéia de um deus onisciente que faz testes está desprovida de cabimento). Por “tudo de bom” se entende: curas de doenças, (re)colocação no mercado de trabalho, e, principalmente, a realização de toda sorte de desejos estereotipados e previsíveis: casa própria, casamento, sucesso nos negócios, felicidade... Acontecimentos dos mais comezinhos são atribuídos à mão divina; por exemplo: a pessoa foi despedida sem justa causa, foi sacar o FGTS, e quando descobre que possuía outros saldos para sacar (de outros empregos dos quais ela tinha se esquecido) atribuí essa “benção” a deus. São muito comuns, também, narrativas de casos de conversão, em geral de um parente ou vizinho, e de como o convertido se transformou numa pessoa melhor (não se embriaga mais, ficou atencioso com esposa e filhos, não briga mais com a família, se livrou de qualquer vício, não tem mais “depressão” ou “estresse”, etc.). Por fim, há eventuais narrações de expulsões de demônios, que podem ser “indiretas” (por exemplo: ao ser assaltado o fiel intercedeu “em nome de Jesus” e o assaltante, notadamente tomado por espíritos malignos, fugiu).

Além desses relatos rápidos e comezinhos, há eventualmente relatos mais complexos e cinematográficos (curas de doentes terminais, ressurreições, conversões de supostos satanistas), os quais geralmente são apresentados mesmo no lugar de parte do tempo destinado normalmente a pregação do pastor. Esses relatos são apresentados com pompa, com um prólogo do pastor, em vários igrejas (o fiel é convidado a peregrinar em vários templos da seita repetindo a sua história).

Já nos chamados “retiros” – encontros de lavagem cerebral que geralmente duram três dias – os testemunhos, assim como o louvor e a pregação, são fragmentados por toda a grade horária. Nesses eventos são comuns os testemunhos especiais mencionados no parágrafo anterior, bem como os relatos de missionários (pastores e fiéis imbuídos de disseminar “a palavra” em locais distantes). O motivo dos relatos dos últimos é evidente: além de convencer os fiéis a crer, quer-se convence-los a evangelizar, e assim espalhar esse câncer da humanidade pelo resto do mundo que ainda está livre dele.

Durante os testemunhos, é comum a presença de um “diálogo” entre o narrador e um seleto grupo de ouvintes, notadamente formado pelos mais fiéis da seita, os quais, por sua vez, geralmente, são mulheres idosas. Enquanto o narrador conta as “coisas ruins” esse público fica calado; à medida que são apresentadas as supostas intercessões divinas o seleto grupo passa a glorificá-la, com palavras como “aleluia”, “amém”, “glória a deus”, “Oh glória”,etc.; o clímax do relato e dessa glorificações ocorrem juntamente com a ovação popular incitada pelo pastor.

O objetivo dos testemunhos é, em efetivo, prover os fiéis de supostas “provas” da existência de deus e da sua ação miraculosa, a fim de que eles possam fortalecer a sua fé. Mesmo que se diga que ter fé é acreditar em algo que não pode ser provado, a verdade é que os fiéis estão vendo – e repetindo para si mesmos – provas da existência e da ação de deus em cada canto no qual colocam seus olhos.







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Tempore, quo cognitio simul advenit, amor e medio supersurrexit.

sexta-feira, 25 de dezembro de 2009

XCI - Uma breve crítica ao cristianismo e a sua mais atroz forma: o (neo)pentecostalismo - parte 15 de 16.

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§ 91





3.6. A glossolalia


Depois de ser “batizado com o Espírito Santo” (o que em geral só ocorre depois do “batismo nas águas”,o qual por sua vez geralmente exige que o fiel participe de um pequeno curso, bem menos extenso que a catequese católica) o indivíduo se torna propenso a receber alguns dos tais dos “dons do Espírito Santo”, para manter um conectivo com Atos 2: 38 (como é sabido, os evangélicos se vangloriam de seguirem a Bíblia bem mais rigorosamente do que os católicos; no caso das seitas (neo)pentecostais, esse costume pode assumir feições verdadeiramente cômicas, pois tudo o que é dito deve estar fundamentado em alguma passagem bíblica, nem que a ligação seja totalmente tosca e descontextualizada (1)).

Novamente, não é difícil notar que todos esses dons xamânicos são de cunho psicológico, como “interpretação de sonhos”, “visões” (previsões do futuro) e “detecção de amarras espirituais” (descobre-se o que está impedindo outrem de “crescer espiritualmente”), entre outros. O único desses dons que se manifesta aos sentidos alheios (que não apenas ocorre dentro da cabeça do fiel) é o chamado “dom de falar a língua dos anjos”. Segundo os (neo)pentecostais, deus “irá compreender melhor” (?) os pedidos e louvores enunciados nessa língua (não sei por que um ser onisciente e criador do universo iria ter mais facilidade em usar um idioma a outro qualquer).

Não obstante ser a língua dos anjos supostamente um idioma único, cada um dos fiéis, não obstante a tendência humana ao mimetismo, costuma enunciar “frases” próprias. Todavia há algumas que se repetem. Em minhas observações in loco desses fenômenos eu constatei uma que se repetia bastante, que eu imagino que seja passada pelo fator “exemplo dado” do CDIPL e cujo som é mais ou menos o seguinte: /Chúricanta lacháia/.

O “embasamento bíblico” para o fenômeno de “falar em línguas” seria supostamente o segundo capítulo do livro de Atos. Uma atenta leitura de tais linhas permite constatar o óbvio: é descrito, sim senhor, um fenômeno no qual se “fala outras línguas”, mas essas outras línguas são outros idiomas, falados pelos mais diferentes povos da humanidade (e refletindo assim já aqui a pretensão de universalidade do cristianismo). É muito diferente falar, por milagre, outros idiomas existentes, e falar, supostamente por milagre, um suposto idioma que ninguém conhece e com o qual é impossível duas pessoas dialogarem (já que cada uma desenvolve “frases” próprias e aparentemente não intercambiáveis) e o qual é atribuído à linguagem angelical sem qualquer embasamento além da fé (como se eles precisassem de outro).

Na verdade, uma breve e relapsa pesquisa sobre esse assunto nos permite descobrir que o primeiro fenômeno (falar, por milagre, outros idiomas existentes) é chamado de “xenolalia” (ato sobrenatural de falar línguas que o falante não domina), enquanto o segundo é chamado de “glossolalia” (ato sobrenatural de falar línguas desconhecidas). Em minhas pesquisas não encontrei qualquer registro de casos de xenolalia (2). A glossolalia você pode conferir na igreja (neo)pentecostal mais próxima da sua casa.

Depois de tudo que observei, posso afirmar, sem dúvida, que todos os fenômenos de “falar em línguas” que presenciei eram glossolalias e que tinham gênese psicológica – não há, portanto, nada de “sobrenatural” ocorrendo nesses cultos.

Não sou psicólogo para aqui desenvolver uma explicação psicológica para esse fenômeno da glossolalia (neo)pentecostal – e garanto que muitos psicólogos não poderão desenvolver explicação alguma, muito menos aqueles que engrossam as fileiras do (neo)pentecostalismo (sim, isso existe!). Todavia, arrisco-me a tentar elucidar o que pode ser um dos componentes responsável por esse fenômeno.Retornemos ao CDIPL, ao fator “concepção materna de deus”. A associação do divido com a figura materna pode abrir, no subconsciente do indivíduo, reminiscências da relação do bebê com a mãe. O bebê possui forte ligação com a mãe, ele sente-se uma extensão do corpo dela, ou, antes, a sente como uma extensão de si. Porém há algo que separa a criança da unidade primeva com a mãe, e que aproxima a mãe dos outros (e do pai): a linguagem, essa coisa incompreensível para o bebê. O processo de maturação da criança passa pelo processo de desvendamento dos segredos da linguagem. São essa lembranças que um deus-mãe pode trazer: de uma linguagem incompreendida e misteriosa e do esforço para conhecê-la. Essas lembranças, ativadas num momento de contrição e de remeximento do inconsciente, culminariam com a expressão verbal, pelo fiel, daquilo que ele ouvia e não entendia: essa língua desconhecida que vêm a tona no fenômeno da glossolalia (neo)pentecostal.


3.7. "Não sofra mais"


Chega a ser assustador e grotesco o caráter de auto-ajuda que ganharam os cultos (neo)pentecostais. “(...) Pare de ficar sofrendo de complexo inferior. Dizendo ao mundo que não é ninguém. Eu venho falar do valor que você tem (...)” diz um dos cânticos que pode ser ouvido nos cultos dessa instituições.

Como exemplo concreto, segue-se um folheto de um templo (neo)pentecostal (eu omiti os dados de identificação da instituição) que caiu-me às mãos há algum tempo. O conteúdo de auto-ajuda é tão explicitamente ingênuo que eu considero prolixo descrevê-lo.





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(1) Nota pare esse blog: No capítulo ### 28 veremos muitos exemplos dignos de programas de televisão do naipe de Zorra Total ou de A praça é nossa.

(2) Nota pare esse blog: Caso o leitor conheça algum registro, ficarei grato em conhecê-lo.


Atenção: Como eu já disse no § 46, esse texto foi escrito em 2002, quando eu tinha 15 anos. Muito do que está escrito aqui já não representa com exatidão a minha atual forma de pensar. Porém creio que o texto ainda pode ser útil para aqueles que atualmente vivem situações (de apostasia) semelhantes às que eu vivi à época em que escrevi isso.

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Tempore, quo cognitio simul advenit, amor e medio supersurrexit.

sábado, 12 de dezembro de 2009

LXXXIX - Uma breve crítica ao cristianismo e a sua mais atroz forma: o (neo)pentecostalismo - parte 14 de 16.

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§ 89




3.5. Possessões demoníacas


A igreja pentecostal, por definição, é aquela na qual o Espírito Santo é tão ou mais adorado do que as outras duas pessoas da trindade. É praxe nessas seitas o chamado “batismo com o Espírito Santo”. Esse batismo ocorre, afirmam os pentecostais (baseados no livro bíblico de Atos), quando o Espírito Santo se introduz no “coração” (seja lá o que isso for...) da pessoa. Esse batismo é concebido como um passo essencial e, na prática, obrigatório como requisito para a salvação do crente (é até compreensível que Jesus salve alguém que o aceitou como seu salvador no leito de morte; mas se o fiel, depois de meses, e mesmo anos, freqüentando a igreja ainda não foi batizado pelo Espírito Santo, isso é um sinal de que ele ainda não está salvo, de que ele não reconheceu “de verdade” que é um pecador e que somente Jesus pode lhe salvar de si mesmo). Desta maneira, há dois batismos no pentecostalismo: nas águas e com o Espírito Santo; nenhum deles é requisito para a salvação, embora, na prática sejam obrigatórios para o fiel que quer simbolizar seu pacto definitivo com Jesus.

Outro fenômeno de praxe é o chamado “endemoniamento”. Como já dito, nessas igrejas há a crença de que demônios penetram nos corpos dos pecadores e que por meio dessa operação podem exercer fortes controles sobre o pecador (que no fim se torna uma marionete). O “endemoniamento” propriamente dito se dá quando o demônio invasor supostamente se expressa mediante o corpo do possuído (não raro fazendo uso do aparelho vocal da vítima para “dialogar” com a autoridade religiosa que tenta expulsa-lo); essa cena pode ser assistida tipicamente durante as seções de “libertação” (cujo objeto é justamente o exorcismo desses demônios), especificamente quando o suposto demônio se recusa a sair, não obstante as ordens proferidas pela autoridade religiosa (a dificuldade para se exorcizar um demônio é diretamente proporcional à força dele, bem como de quanto a vítima é uma pecadora: quanto mais pura a pessoa, menos “portas espirituais” são abertas aos demônios).

Mediante observações in loco dos dois fenômenos, é fácil perceber que ambos possuem gênese psicológica. Após estudar esses fenômenos, encontrei um conjunto de fatores responsáveis pelo seu desencadeamento. Denominei boçalmente esses fatores de “Cenário Desencadeador das Instabilidades Psicológicas Latentes” (CDIPL). Os principais fatores constitutivos do CDIPL são: “pessoas frágeis” + “ignorância” + “apelo emocional” + “exemplo dado” + “concepção materna de deus” + “músicas”. Vamos ver cada um deles mais de perto.

Pessoas frágeis. O conhecimento nulo de psicologia que estas pessoas possuem e as suas dificuldades em aprender com os seus erros e com os erros alheios, além da propensão para criar conflitos por pouca coisa (talvez inspirados pelas novelas às quais assistem todo maldito dia), fragilizam sua capacidade de se relacionar com o mundo, com seus familiares e consigo mesmas. Também há outros problemas, mais comuns nas classes menos favorecidas, como o alcoolismo e o desemprego. O nível de mediocridade e mesquinhez chega ao tragicômico. Tudo isso recrudesce uma configuração mental incapaz de solucionar conflitos – muitos patéticos e criados irracionalmente –, os quais vão se amontoando e desencadeando fortes mágoas da família e da sociedade. Até o ponto de saturação.

Ignorância. Esse fator já foi desenvolvido nos capítulos anteriores.

Apelo emocional. Essa ferramenta é usada juntamente com a música. Trata-se do fio condutor emocional da “seção de libertação”. O pastor vai tocando habilmente nos centros de fragilidades das pessoas (todos estereotipados até a caricaturização burlesca), vai fazendo um discurso crescentemente dramático e choroso (e é acompanhado pela música nesse seu progresso até o clímax); ao fim, termina chorando ou “falando em línguas” (glossolalia), ou ambos atos. Tudo isso incita o conflito e o sofrimento psicológicos no fiel, os quais podem se manifestar na triste forma de surto psicológico e de ações defensivas desesperadas – visto que a pessoa reconhece,nem que subconscientemente, a autoridade religiosa como agressora e causadora do presente sofrimento (não como real responsável, mas sim como o agente que trouxe ao lume aquelas amarguras outrora convenientemente esquecidas).

Música. A música é a linguagem da emoção, e, não surpreendentemente, as músicas da “seção de libertação” são todas chorosas e transmitem um forte apelo emocional de comoção e contrição; elas irradiam emoções dramáticas (mas nunca chegam ao trágico) e algumas, inclusive, assemelha-se às músicas new age, tão vilipendiadas pelos próprios pentecostais.

Exemplo dado. Aqueles que vão aos cultos sabem o que lá ocorrerá (embora o efeito surpresa muitas vezes se mostre útil para fisgar novo fiéis), e seu subconsciente já está pronto para o que ali se dará. Eles sabem que vão se emocionar, que terão que lutar com a culpa, e que todos os tristes fenômenos de praxe se repetirão. Além disso, podem ser seguidos os exemplos do próprio pastor e dos fiéis mais antigos. Some-se a isso a forte tendência que pessoas passivas têm, principalmente em um contexto grupal (como o da igreja), de imitar os membros mais proeminentes do grupo para tentar assim serem melhor aceitas por ele.

Concepção materna de deus. O divino é concebido maternamente: é carinhoso, amável, entende os problemas do fiel e é capaz de corrigi-los miraculosamente (aliás, insiste-se que apenas deus – e mais ninguém – é capaz de solucionar os problemas da vida da pessoa). Não obstante isso, que se configura como um sintoma de regressão, o mesmo deus também é encarregado que trazer o castigo, e, com ele, a culpa. Os fiéis se relacionam esquizofrenicamente com essa figura, fonte de consolo, salvação, culpa, danação, libertação da culpa, “bênçãos”, etc.

O CDIPL ajuda a perceber que tanto o “batismo com o Espírito Santo” quanto o “endemoniamento” não passam de surtos psicológicos. Uma cuidadosa observação in loco permite constatar o óbvio: não há nada de fantástico nesses dois fenômenos; após a ação do CDIPL, esses fenômenos manifestam-se como sintomas reativos. Eu já tive a “oportunidade” de presenciar centenas de pessoas nesse estado simultaneamente (aliás, todas as pessoas, menos eu, estavam nesse estado, inclusive todas as “autoridades”).

Normalmente, nos casos de “endemoniamento” nos quais o suposto espírito toma conta do aparelho vocal do pecador, este se restringe, em geral, a gemer ou gritar (respondendo ás ordens do exorcista) “não saio”. Mas será que realmente é um demônio respondendo? Ou será a própria pessoa tentando se defender de todas as agressões psicológicas que está sofrendo e que a levaram ao estado de surto?

Agora, se essas pessoas se recusam a admitir a validade das ciências naturais, certamente não terão maiores considerações pelos argumentos engendrados pela psicologia.



Atenção: Como eu já disse no § 46, esse texto foi escrito em 2002, quando eu tinha 15 anos. Muito do que está escrito aqui já não representa com exatidão a minha atual forma de pensar. Porém creio que o texto ainda pode ser útil para aqueles que atualmente vivem situações (de apostasia) semelhantes às que eu vivi à época em que escrevi isso.




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Tempore, quo cognitio simul advenit, amor e medio supersurrexit.

sexta-feira, 20 de novembro de 2009

LXXXVI - Uma breve crítica ao cristianismo e a sua mais atroz forma: o (neo)pentecostalismo - parte 13 de 16.


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§ 86






3.3. Juramos solenemente não reconhecer a verdade


A evolução das espécies, de Charles Darvin, é tida como "coisa do capeta" pelos clérigos neopentecostais. A maioria deles, para não arriscar dizer todos (o que provavelmente é verdade), acredita que essa teoria se resume a um único ponto: a afirmação infundada de que o homem "veio do macaco". Inclusive uma vez li em um jornal uma declaração de um vereador "crente" que dizia ser ridícula essa afirmação de que "o ser humano veio de um macaco fedorento". Se fosse apenas isso, seria fácil de refutar. Novamente a ignorância bate à nossa porta.

Refutar tal teoria é negar algo que possui profusão de incontestes provas. A mais óbvia está nos próprios fenótipos humanos - adequados, por modificações gênicas, ao meio no qual cada "raça" se desenvolveu, e não por desejo de invisível mão (ou mão visível, como acreditam os mórmons).

Outro exemplo de ignorância: Um certo pastor neopentecostal afirmou que, em seus "estudos" (leitura de um livro estadunidense comprado em livraria especializada em literatura religiosa) sobre a "hierarquia dos demônios", soube da existência de um demônio chamado Leviatã. O quê? Leviatã é personagem da mitologia persa - o que demonstra a confusão e o turbilhão de insanidade que permeia esses livros. Não seria muito pior ter nesta "hierarquia" nomes como "Arimã", "Górgonas" ou "Hades".

Nota para esse blog: como exemplo dessa ignorância, recomendo a leitura do seguinte texto da The Cutting Edge Ministries: Criaturas incríveis que desafiam a teoria da evolução. Saliente-se que as opiniões da The Cutting Edge Ministries são muito mais inteligentes e articuladas que as opiniões de um "crente" mediano brasileiro (eu ainda postarei nesse blog dois textos escritos por um "professor" da "escola de líderes" da igreja que eu freqüentei, intitulados "Como entrar no assunto da salvação" e "Desculpas, escusas e objeções ante o Evangelho").


3.4. O mundo é dos demônios


É chegada a hora de descrever dois fatos ocorridos comigo que chegam às raias do absurdo; o segundo, inclusive, considero a coisa mais absurda que já presenciei (1).

Em um evento organizado pela igreja neopentecostal que eu, então com 14 anos, freqüentava (por mero costume de família), teve-se a presença de um pastor que houvera trabalhado no estado do Amazonas. Não irei descrever o seu “depoimento”, irei direto ao ponto: o homem relatou um caso de cura, a cura do que, segundo ele, seria micose de uma habitante local, pelo poder “do nosso senhor Jesus Cristo”. Para piorar, o pastor, em suas intercessões, gritava, no intuito de promover a cura, “sai demônio!”. Assim, a expulsão de um demônio redundou na cura da senhora (é bom destacar que a cura não foi instantânea – apesar de existirem “testemunhos” desse tipo de cura – demorou semanas, senão meses).

Se existe alguma coisa que a ciência, após 400 anos de desenvolvimento, conseguiu comprovar sem sombra de dúvidas, certamente é que micose é causada única e exclusivamente por fungos. É de completa e abissal tosquidão acreditar, em pleno século XXI, que demônios podem ter participação na determinação dessa doença (e, por que não dizer?, de qualquer doença). Agora, se o indivíduo acredita nisso depois de ter freqüentado a escola, ou mesmo a faculdade (como eu já conheci) então ele é louco mesmo.

Ao fim do depoimento do senhor, fui perguntar a ele que sórdida relação havia entre fungos e demônios (e também entre demônios e qualquer tipo de doença). Você não ficará surpreso em saber que ele não tinha nenhuma resposta, e apenas afundou-se em seu animismo confuso acrescentando que “qualquer tipo de doença” pode ser “causada” pela possessão demoníaca. (E se um fiel de reputação ilibada adoecer? Então é um teste “do Senhor”, assim como ele fez com Jó. E se a pessoa morrer, e morrer com fé “no Senhor”? Então era porque já era a hora dele, já era a hora de ir para um lugar melhor, de cair fora desse mundo de merda, além de ser um “teste” adicional para os familiares. Aconteça o que acontecer: a culpa NUNCA é de deus, embora ele seja o criador de TUDO, inclusive do demônio e de uma humanidade imperfeita e, por isso mesmo, pecadora.)

Se o leitor possui alguma doença, deve desconfiar de si mesmo. Talvez haja um demônio, ou até mais de um (uma “legião”), em seu interior. O leitor deve correr ao templo (neo)pentecostal mais próximo, onde será devidamente curado por profissionais cuja reputação está acima de qualquer suspeita. Em troca desses benefícios, e também da salvação eterna, o leitor “apenas” precisa entregar o seu cérebro e mais 10% da renda mensal. Um belo negócio, não?

Mas ainda há coisa pior a relatar, que eu me obrigo a fazer pelo bem da verdade.

No mesmo evento, outro senhor (não sei se pastor ou fiel – eu compreensivamente não estava prestando muita atenção) deu seu depoimento, do qual eu transcrevo essas palavras literais: “Todos os dias eu saía de casa com óleo e ungia a rua e as casas dos vizinhos [porque a dele já estava pura], para tirar os espíritos de violência”. O quêêêêêêêêê?

Se fiquei estupefato com demônios causando doenças, o que dizer de “espíritos de violência”, que, segundo o depoente, são responsáveis pela violência que assola a nossa sociedade (principalmente nas periferias das capitais)? Como posso eu ter a petulância de querer refutar isso? A ignorância chegou a tal ponto que até fenômenos claramente sociais e econômicos são totalmente mistificados, associados a demônios. É a lógica do absurdo na sua mais radiante expressão.

Envergonhado de estar ligado a tanta miséria, rompi, no dia seguinte, minhas relações com igrejas pentecostais. Dias antes de completar 16 anos, eu estava livre do amor de Jesus. Aleluia!


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(1) Nota para esse blog: sete anos depois dessas palavras terem sido escritas, elas continuam verdadeiras.



Atenção: Como eu já disse no § 46, esse texto foi escrito em 2002, quando eu tinha 16 anos. Muito do que está escrito aqui já não representa com exatidão a minha atual forma de pensar. Porém creio que o texto ainda pode ser útil para aqueles que atualmente vivem situações (de apostasia) semelhantes às que eu vivi à época em que escrevi isso.





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Tempore, quo cognitio simul advenit, amor e medio supersurrexit.

sábado, 26 de setembro de 2009

LXXXI - Uma breve crítica ao cristianismo e a sua mais atroz forma: o (neo)pentecostalismo - parte 12 de 16.



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§ 81







3. Crítica ao (neo)pentecostalismo

3.1. Introdução



Antes de ser o ateu que eu sou, eu passei a minha vida cristã (que acabou aos meus 16 anos) numa igreja neopentecostal. Por isso me dou ao direito de criticar tais instituições: eu participei delas, não apenas assisti a um desses muitos programas que passam na televisão (que aliás já são bastante instrutivos). Já aqui eu me antecipo a uma crítica previsível que podem me fazer: podem me acusar de criticar a religião porque eu sofri algum trauma dela, em outras palavras, eu estaria "me vingando" de uma religião que não soube me acolher ou à qual eu mesmo não soube me adaptar. Em réplica a essa acusação eu lembro que, se por acaso eu estivesse criticando uma religião a qual eu jamais pratiquei, então iriam me acusar de criticar algo que eu não conheço. Ou seja: aqueles que querem negar a validade do meu discurso (e do discurso contra a religião em geral) sempre arranjam um jeito de desqualificar a argumentação do oponente por meio da crítica à própria pessoa (falácia ad hominen): quando se quer acreditar em algo, aceita-se qualquer argumento. Se eu participei, meus argumentos não têm valor porque eu participei; se eu não participei, meus argumentos não têm valor porque eu não participei. Além disso, e nunca será demais insistir nesse ponto, a verdade NÃO É metodologicamente incompatível ao interesse próprio, de tal forma que me acusar de estar me vingando não é, mesmo que fosse verdade, um argumento eficaz em desfazer o meu discurso.

Não obstante ter eu vivido em um meio neopentecostal, os meus apontamentos serão válidos, creio eu, em sua maioria, também para as seitas pentecostais.

Chamo a corrente (neo)pentecostal de "a mais atroz forma de cristianismo" porque nela a ignorância é elevada à potências infinitas, afirmação que procurarei demonstrar por meio de exemplos que, espero eu, sejam surpreendentes para o leitor (pois isso seria um indicativo da saúde mental de quem me lê). Além disso, essa corrente possui um crescente e preocupante fundamentalismo, o qual se alimenta justamente da própria ignorância (e por isso mesmo tem alimento garantido).


3.2. No Éden


Partamos "do princípio". Estas seitas acreditam que o mito do Jardim do Éden é verdadeiro. Não apenas isso, acreditam na infabilidade da Bíblia e que esta é a fonte de toda a verdade necessária à vida, não faltando nela qualquer coisa de realmente necessário, nem estando qualquer ponto ou vírgula fora do seu divino e eterno lugar.

Pensar que esse mundo existe há apenas 6.000 anos, com todos as incontestáveis e incontáveis provas em contrário, é de uma soberana insensatez e de uma tosquidão abissal.

Nem precisamos ler muito a Bíblia para vermos erros em todo canto. De fato, os primeiros versículos dessa biblioteca, quando encarados como uma descrição do mundo real, mostram-se ridículos para qualquer um que tenha um mínimo, superficial e vulgar conhecimento científico:

* A água existia antes da luz, que é concebida como tendo uma existência à parte em relação ao restante do mundo material.
* A luz tinha um nome antes mesmo de existir, e o nada, ao ouvir e reconhecer as ordens do criador, tirou de si a luz que estava nele estocada (aliás, todo o mundo foi construído mediante um diálogo entre o criador e o nada).
* Há uma clara distinção entre o Sol e as demais estrelas.
* É evidente que o autor desse texto imaginava que as estrelas e todos os demais astros (ou seja: o restante do universo) foram simplesmente "colados" sobre a cúpula do céu.
* A "construção" da Terra e de tudo que nela há levou cinco dias de labor divino. A construção de todo o resto do universo - infinitamente maior e mais complexo que a Terra - levou apenas um dia (o quarto) e ainda por cima fez parte do processo da construção da Terra (o restante do universo não é concebido como tendo uma existência independente da Terra; antes, ele apenas existe para exercer uma função na Terra), isso porque o autor do texto, em sua concepção narcísica e teleológica, imaginou que todo o restante do universo apenas serviria para a iluminação noturna da Terra (leia-se: para a iluminação noturna das pessoas que vivem na Terra - o universo se resume a um abajur para um homem que é a própria imagem e semelhança do criador de tudo).


* No sétimo dia um deus que é onipotente e perfeito e que fez um mundo a partir do nada (sem nenhuma oposição) por algum motivo estava cansado e precisou "descansar".

É claro que tudo isso era razoável e aceitável na época em que foi escrito, e o autor (desconhecido) do texto nunca afirmou que tratavam-se de verdades absolutas; ele apenas escreveu o que, para ele naquele momento, era a melhor explicação disponível. E isso mostra como tivemos progressos incríveis desde então.

A despeito disso, e de muito mais, as autoridades (neo)pentecostais continuam a afirmar que os primeiros capítulos de Gênesis devem ser lidos da mesma forma que todo o restante da Bíblia: como revelações divinas e literais de verdades eternas.



Atenção: Como eu já disse no § 46, esse texto foi escrito em 2002, quando eu tinha 16 anos. Muito do que está escrito aqui já não representa com exatidão a minha atual forma de pensar. Porém creio que o texto ainda pode ser útil para aqueles que atualmente vivem situações (de apostasia) semelhantes às que eu vivi à época em que escrevi isso.


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Tempore, quo cognitio simul advenit, amor e medio supersurrexit.

sábado, 29 de agosto de 2009

LXXVIII - Uma breve crítica ao cristianismo e a sua mais atroz forma: o (neo)pentecostalismo - parte 11 de 16.

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§ 78




2.10. A gênese de Lúcifer


O diabo é, sem dúvida, a figura mais conturbada do cristianismo. Alguns cristãos, inclusive e paradoxalmente, negam a sua existência; outros, ao contrário, - em arroubo de ignorância e fundamentalismo – culpam-no por tudo de ruim que ocorre sobre a face deste pequeno planeta.

A história da origem e da evolução da figura de Lúcifer é a seguinte. No Velho Testamento Satanás é uma espécie de anjo responsável por fazer o “trabalho sujo” de Jeová. Ele é citado em todo Velho Testamento umas três vezes (e sempre de forma mal-explicada), por exemplo em Jó 1:6.

Ocorreu que o povo judeu, após toda a dominação e a ignomínia que já sofrera, é finalmente dominado pelos romanos (dominados são apenas as tribos de Judá, pois as 10 tribos de Israel foram completamente destruídas – não sobrou um único indivíduo – pelos assírios). Com tanto sofrimento passado e presente o povo judeu passou a maximizar a figura de Satanás, na tentativa de encontrar um culpado para o seu infindável opróbrio – uma vez que o velho e bom Jeová não o poderia ser, pois além de justo, ele lutava pelo povo que escolheu (e se este não conseguia lutar contra o Império Romano era como se os deuses romanos fossem mais poderosos que Jeová).

Assim, alçaram lentamente a figura de Satanás de servo a inimigo de Jeová – responsabilizando aquele pelo sofrimento do povo e livrando esse (e o próprio povo) da culpa. Paralelamente, crescia em importância a já criada figura do messias, do salvador, que iria libertar – para sempre – o povo de toda opressão e que, agora, relacionava-se à figura de Lúcifer.

É surpreendente saber que não há na Bíblia (que, rigorosamente falando, não é um livro, mas sim uma biblioteca) uma descrição clara da origem de Satanás (tá legal, na verdade não há na Bíblia descrição clara da origem de qualquer coisa que seja, isso porque a Bíblia não têm nenhum compromisso em provar nada: ela simplesmente teclara verdades acabadas e eternas e ponto final). Certa vez, caiu-me às mãos uma lista que supostamente contém as passagens bíblicas que tratariam da origem de satã. Ei-la: Ezequiel 28:12-19; Isaías 14: 12-15; Apocalipse 12: 7-9.

Os textos que supostamente descreveriam tal origem (e contariam aquela história do anjo vaidoso, que queria ser mais que seu criador) mostram-se metáforas históricas que pouca ligação possuem com Satanás, tampouco com uma explicação plausível da sua origem. Não sei se quem confeccionou tal lista era ignorante e semi-analfabeto (incapaz de interpretar um texto pelo seu contexto histórico) ou hipócrita (que, diante do silêncio bíblico sobre esse assunto, resolveu forçar a barra).

Ao ler apenas as passagens indicadas, pode-se até imaginar que há alguma ligação com a famigerada história de Lúcifer. Entretanto, ao ler-se os textos completos – Ezequiel cap. 26 a 28 e Isaías cap. 13 a 14 (até o versículo 23) – percebe-se que se tratam de profecias e maldições que Jeová lança contra povos opressores dos judeus (Tiro e Babilônia – cidade que escravizou as tribos de Judá quando as tribos de Israel nem existiam mais). Percebe-se, ainda, que os versículos em questão do livro de Ezequiel contém metáforas – a cidade de Tiro é chamada de “querubim”, “perfeito em formosura”. Coisa semelhante sucede na passagem em que a cidade da Babilônia é chamada “estrela da manhã, filha da alva” e até mesmo de “varão”.

No caso da citação do livro de Apocalipse, apenas com um grande esforço imaginativo é possível ligá-la à suposta história da gênese de Lúcifer. Além disso, o que uma narração sobre um passado longínquo e obscuro faz num livro profético, que portanto se dedica a falar sobre o futuro? Mas, mesmo se tal ligação fosse feita, não é no mínimo estranho que um indivíduo que supostamente atua ao longo de todo o texto bíblico tenha sua origem “explicada” (e é claro que o texto não explica nada, não explica, por exemplo, de onde teria vindo a vaidade de Lúcifer senão do seu próprio criador) apenas no último livro do conjunto? Enquanto as personagens humanas são apresentadas em longas e tediosas genealogias, não há nenhuma explicação razoável sobre a origem de Satanás, nem sobre quem são os tais dos “filhos de Deus” mencionados em Gênesis 6:2 e em Jó 1:6 e entre os quais a segunda citação afirma estar Lúcifer.



2.11. A onipotência, a justiça e a bondade de deus


É sabido que o deus dos cristãos, além de onipotente, onisciente e onipotente, é justo e bondoso. E, afirmam os cristãos, não há contradição alguma nisso.

O deus cuja begnidade dura para sempre é o mesmo de Mateus 25, 41 e de versículos já citados no capítulo 2.4. Se isso parece contraditório, então pense nisto: antes de nos criar deus já conhece toda a nossa vida, porque é onisciênte e onipotente - e, por isso, pode saber o futuro (inclusive, para alguns teólogos, deus nem mesmo está subsumido no tempo: ele está fora dele, num eterno presente). Então suponhamos que deus vá criar um indivíduo que, no futuro, repilirá a crença no cristianismo, ou melhor, a crença em qualquer religião. Como deus - sendo onipotente, justo E BENÍGNO - pode criar este indivíduo se ele sabe que terá de condená-lo à danação eterna no futuro (onde haverá choro e ranger de dentes)? Na verdade, deus está condenando o indivíduo por um ato que ele próprio (deus) fez. Que justiça ou benignidade há nisso? Se ele realmente fosse justo e se ele realmente amasse essa pessoa (e nesse casos a justiça se encontra com a benignidade) o melhor que poderia fazer era simplesmente não criar o indivíduo. Se isso pode se aplicar a uma pessoa em particular, aplica-se - antes - a todo gênero humano, iniciado supostamente com a criação voluntária e consciente de Adão e Eva.

A resposta dessa contradição parece passar pela negação de alguma das características exorbitativas atribuidas ao criador: ou ele não é onipotente (e vive sim na linha temporal), ou ele não é justo nem bom. (1)

Um exemplo de como a lógica é repelida pela fé: quando apresentei este argumento a um conhecido ele me repondeu: "Se você está com algum problema de fé, posso te fazer uma oração". o quê? Nega-se argumentos lógicos com fé? Absurdo! Causuísmo!


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(1) Nota para esse blog: Anos depois de escrever isso, pensei na seguinte forma de solucionar essa "contradição": embora a alma provenha de um ato voluntário de deus, que é o legítimo criador (e proprietário) do indivíduo, a criança, na verdade não nasceria sem uma decisão do "livre-arbítrio" dos pais, que supostamente "decidiram" de boa vontade tê-la. Assim sendo, se deus impedisse, por compaixão, o nascimento de alguém ele estaria ferindo o sagrado livre-arbítrio. Mais uma vez o livre-arbítrio é usado para tentar remendar essa concepção de deus tosca e repulsiva. Da minha parte, não deixo de pensar que esse deus, pelo menos, se realmente amasse a cada um de nós, deveria se entristecer pelo mundo que criou, e se arrepender de tê-lo criado (como se arrependeu em Êxodo 32: 14). As pessoas religiosas ignorantes gostam de ficar vendo a mão de deus em tudo, ele está, para elas, sempre interferindo na vida das pessoas (para avisá-las, abençoá-las, castigá-las, etc.). Pergunta: e isso por acaso não interfere no livre-arbítrio? Quando deus arranja um jeito de duas pessoas se encontrarem, ou coisa parecida, ele não teve que manipulá-las para isso? Eles não sabem o que falam...




Atenção: Como eu já disse no § 46, esse texto foi escrito em 2002, quando eu tinha 16 anos. Muito do que está escrito aqui já não representa com exatidão a minha atual forma de pensar. Porém creio que o texto ainda pode ser útil para aqueles que atualmente vivem situações (de apostasia) semelhantes às que eu vivi à época em que escrevi isso.

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Tempore, quo cognitio simul advenit, amor e medio supersurrexit.

sexta-feira, 31 de julho de 2009

LXXIV - Uma breve crítica ao cristianismo e a sua mais atroz forma: o (neo)pentecostalismo - parte 10 de 16.

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§ 74






2.8. À nossa imagem e semelhança


É sabido que os cristãos crêem em um deus onipotente, onisciente e onipresente. Uma breve leitura do sacro livro levanta sérias dúvidas a esse respeito, pois essa visão abstrata (e escolástica) de deus como uma exorbitação conceitual se choca com as descrições bíblicas dos atos desse mesmo deus (principalmente os relatados no Velho Testamento).

Alguém que possui esses atributos não seria capaz de se surpreender, de se irar ou de se equivocar, não é mesmo? Nada para ele seria novidade, ele saberia de tudo, tanto o que já ocorreu quanto o que ainda ocorrerá, ele poderia tudo.

Um dos muitos trechos que não se conciliam com tal concepção de deus é o de Êxodo 32: 9-14. Como pode um ser com todos esses poderes enfurecer-se (versículo 10), esquecer-se (versículo 13) e, mais paradoxalmente, arrepender-se (versículo 14: Então o SENHOR arrependeu-se do mal que dissera que havia de fazer ao seu povo.)? E, pior, ele ainda por cima é corrigido por uma criação sua – Moisés. Depois que alguém supostamente infinitas vezes mais fraco, ignorante e estúpido que ele o corrige, ele MUDA DE OPINIÃO se arrepende do MAL que iria fazer!!

Patético.


2.9. Justificar o injustificável


Na verdade vos digo, que não passará esta geração sem que todas essas coisas aconteçam. (Marcos, 13:30)

São essas supostas palavras de Jesus. Todo este capítulo (intitulado “O sermão profético”) discorre a respeito do fim do mundo (eis os títulos dos sub-capítulos: O princípio das dores; A grande tribulação; A vinda do Filho do Homem; A vigilância). Daí conclui-se: o texto afirma que o fim do mundo (do princípio das dores à vinda do Filho do Homem) ocorreria NAQUELA geração da qual Jesus foi contemporâneo. Mas nada aconteceu nos últimos 2000 anos.

É cômico como estudiosos da Bíblia tentam consertar essa contradição. Só para citar alguns exemplos, afirma-se, por exemplo, que o discurso profético não se refere ao apocalipse, mas sim ao aparecimento da Igreja (católica, deixe-se claro), ou, ainda, à destruição de parte da cidade de Jerusalém (que realmente ocorreu naquela geração); outros, em arroubo absurdo de liberalismo, têm o despudor de afirmar que Jesus pode, simplesmente, TER-SE ENGANADO (e nesse caso ele errou feio!); há, ainda, outros que afirmam que “esta geração” não se refere àquela em que Jesus viveu, mas sim àquela na qual tiver início o princípio das dores: quando ele começar, vai acontecer tudo em uma só geração.

Todas essa afirmações são subterfúgios que tentam justificar o injustificável: a profecia não se realizou, portanto não há valor divinatório nas palavras do homem que a proferiu. Ele não é “filho de Deus”, tampouco possui “escolhidos” que levará ao “paraíso”, após o “juízo final” por ele profetizado: tudo isso é para multidão o que a cenoura é para o cavalo.






Atenção: Como eu já disse no § 46, esse texto foi escrito em 2002, quando eu tinha 16 anos. Muito do que está escrito aqui já não representa com exatidão a minha atual forma de pensar. Porém creio que o texto ainda pode ser útil para aqueles que atualmente vivem situações (de apostasia) semelhantes às que eu vivi à época em que escrevi isso.

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sexta-feira, 19 de junho de 2009

LXVIII - Uma breve crítica ao cristianismo e a sua mais atroz forma: o (neo)pentecostalismo - parte 9 de 16



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§ 68






2.6. A genealogia de Jesus


Nas igrejas onde não reina o fundamentalismo, é comum a saudável idéia de que a história de Adão e Eva é apenas um mito, um texto poético e simbólico.

Em Lucas 3, 23-38 temos a transcrição da genealogia de Jesus Cristo. E qual não é a nossa surpresa - como indivíduos razoáveis e não fundamentalistas - em ler, ao versículo 38, a conclusão da genealogia: "e Cainã, de Enos, e Enos de Sete, e Sete, de Adão, e Adão, de Deus"?

Diante dessa colocação, o indivíduo não fundamentalista, que sabe ser impossível a sustentação factível del cuento de Adão e Eva, e que sabe que seria estupidez sustentar que, também aqui, numa descrição de genealogia, esse texto, também, estaria eivado de "linguagem figurativa", pode fazer duas afirmações: ou o autor desse texto acreditava que a história dos primeiros capítulos de Gênesis era verdadeira - o que é aceitável para a época dele, mas é ridículo atualmente - ; ou ele sabia que era mentira - como realmente é - mas colocou assim mesmo no evangelho para mostrar seu compromisso com o Pentateuco.

As duas hipóteses perfazem uma grave consideração: ou a Bíblia mente descaradamente, ou a Bíblia contém uma mentira lá colocada pela ingenuidade do autor do evangelho de Lucas. Um indivíduo sensato terá que considerar, das duas, uma, o que, invariavelmente, cria dúvidas sobre a veracidade de qualquer afirmação extraordinária do sacro livro (como os milagres e as profecias). Se inventaram isso, por que não teriam inventado, também, outras coisas? Se se enganaram aí, por que não teriam, também, se enganado em outras passagens?


2.7. O livre-arbítrio

Um dos muitos conceitos controvertidos do cristianismo e da teologia é o tal do "livre-arbítrio" (1). Esse conceito ganhou maior destaque com a ascensão do protestantismo, na tentativa de adequar os dogmas religiosos à realidade burguesa.

Não obstante a história de Adão e Eva ser um mito (não para um fundamentalista), há nela um exemplo do suposto livre-arbítrio, o qual, aliás, exerce um papel fundamental na tentativa de dar alguma coerência a essa história mal contada. Se não houvesse livre-arbítrio, não seria possível ter-se cometido o pecado original, o qual consistiu na desobediência a deus.

Observe a contradição de tudo isso: se é livre para obedecer ou não, e se não obedecer haverá castigos horríveis e que se estenderão por milênios (ou mesmo por toda a eternidade). E tudo isso porque deus é perfeito e não admite conviver com o pecado, ou, em outras palavras, porque ele é mimado e não admite ser contrariado. Isso é típico de Jeová: atire nas pernas, depois "ofereça" (isto é: imponha sob ameaças de danação eterna) aulas de sapateado. Além disso, Jeová não explicou quais seriam as terríveis conseqüências do pecado; ele apenas disse "para que não morrais" (lembrando que presumivelmente, Adão e Eva nem mesmo sabiam o que era a morte). Convenhamos, se Jeová tivesse dado uma explicação melhor das conseqüências funestas do pecado da desobediência, se ele tivesse mostrado todo o sofrimento e morte que isso acarretaria, se ele tivesse explicado sobre os planos maquiavélicos de Lúcifer (o qual "se infiltrou" (mas deus não é ONISCIÊNTE?) no Jardim do Éden para cumprir sua missão de levar a humanidade à rebelião contra deus), se tivesse feito tudo isso, dizia eu, é razoável supor que Adão e Eva não seriam estúpidos o bastante para desobedecê-lo. Mas ele não fez nada disso. Para um ser perfeito, esse seu comportamento é bastante negligente e propositadamente ingênuo. (3) E nem venha me dizer que deus estava "testando" a sua criação, porque senão eu vou repetir: mas deus não é ONISCIÊNTE? Um ser onisciente não precisa testar nada nem ninguém, pois ele já sabe tudo ex ante. Jeová já sabia que a sua criação era imperfeita e suscetível à enganação e à rebelião: qualquer imbecil saberia o que o homem faria com seu livre-arbítrio no contexto no qual ele foi posto para viver.


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1 (nota para esse blog) Outros capítulos desse blog que mencionam o livre-arbítrio e a história do pecado original: XXXVI, XXXVII e LXVI.

2 (nota do texto original) Que liberdade há em Êxodo 14:4? O próprio deus "endurece o coração" do faraó (o qual, supunha-se, nem precisaria desse artifício, já que ele era um adorador de Mamon - já por aqui percebe-se que a fundamentação da moral NÃO ESTÁ em Jeová) para depois castigá-lo (e castigá-lo duramente) por ter agido em conformidade com alguém que está com o coração endurecido. Aparentemente, o faraó e todo o povo do Egito apenas serviu de joguete para que Jeová demonstrasse o seu poder para o "povo escolhido", e tudo isso por baixo de uma falsa moralidade, que exige um "pecado" (nem que seja na marra) para depois exigir um castigo.




Atenção: Como eu já disse no § 46, esse texto foi escrito em 2002, quando eu tinha 16 anos. Muito do que está escrito aqui já não representa com exatidão a minha atual forma de pensar. Porém creio que o texto ainda pode ser útil para aqueles que atualmente vivem situações (de apostasia) semelhantes às que eu vivi à época em que escrevi isso.

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sexta-feira, 29 de maio de 2009

LXVI - Uma breve crítica ao cristianismo e a sua mais atroz forma: o (neo)pentecostalismo - parte 8 de 16.

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§ 66





2.5. Céu e paraíso



E sonhou: e eis que era posta na terra uma escada cujo topo tocava nos céus; e eis que os anjos de Deus subiam e desciam por ela. (Gênesis 28:12)

Essa é apenas uma das muitas passagens bíblicas, e qualquer um que lê o "sacro livro" atentamente sabe disso, que apresentam a seguinte idéia: deus vive, LITERALMENTE, no céu. Tal mensagem está por todo texto bíblico, inclusive no Novo Testamento, como se fosse uma verdade consumada. Não é por acaso que, até hoje, "céu" é utilizado por alguns como sinônimo de "paraíso".

Pensar que as divindades viviam no céu é algo extremamente lícito para a época em que foram escritos os textos bíblicos. Mas atualmente as coisas são bem diferentes.

É difícil de acreditar, eu sei, mas mesmo hoje muitos cristãos - aqueles mais ignorantes - ainda têm em seu subconsciente a visão de um céu-paraíso. Isso é testemunha do quanto "a massa" continua ignorante e infantilizada. E mesmo quando
el pueblo é apresentado à educação formal, ele insiste em não aplicar os conhecimentos aprendidos para questionar as "verdades" bárbaras da religião.

Mas o conceito de paraíso, por ser mais difuso e não especificar um local espacial, não deixa de ser problemático: ele nega a própria Bíblia, que todo tempo insinua, não adianta o leitor insistir que não, que deus vive no céu, o que era aceitável na época em que esses textos foram escritos, mas que hoje é, convenhamos, ridículo e estúpido. Novamente a imagem da Bíblia como a fonte da "verdade" fica maculada.

Este paraíso possui localização ignota: ou está nos confins do universo, ou está em um "universo paralelo", ou em "outra dimensão", ou, por fim, em qualquer lugar imaginável onde possa existir uma ordem de coisas diferente daquilo que conhecemos como "mundo material".

É muito fácil empurrar o esconderijo do nosso deus para cada vez mais longe, à medida que a evolução do conhecimento científico prova que eles não se encontravam onde outrora se pensou. Os deuses gregos não viviam no topo de um monte em cujo cume ninguém conseguia chegar (Olimpo)? É claro que você não vai ficar surpreso se eu lhe contar que ninguém mora no topo dessa montanha... Porém, há um problema em tentar levar a localização do paraíso para "outra dimensão" ou para "um universo paralelo". Novamente, a religião tenta se apropriar de conceitos científicos para tentar consertar um erro dela que a própria ciência demonstrou e jogou-lhe na cara.

O conceito científico de dimensões não possui ligação com "outro lugar", mas sim com "outra dimensão". Segundo as teorias físicas recentes baseadas nas p-branas, estas outras dimensões estariam acessíveis APENAS à força gravitacional, e um universo paralelo poderia surgir como resultado da influência dessa força, através dessas outras dimensões, sobre um conjunto de massa amorfo.

A pretensão de colocar o paraíso em uma "outra dimensão" ou em um "universo paralelo" é uma forma estapafúrdia de insistir no mesmo erro, mesmo depois de provada a sua incorreção.

Alguns, por outro lado, negam a existência de "um lugar" onde deus e os eleitos fiquem (perceberam que querer submeter deus ao espaço-tempo é patético): o paraíso seria o conjunto de divindades espirituais benévolas; assim, ele não seria espacial, e portanto não estaria em lugar algum.

De forma análoga, a Igreja Católica afirmou recentemente que o inferno não existe enquanto "um lugar", mas que ele se caracteriza por um estado de sofrimento causado exclusivamente pela "ausência de Deus". Então, imagino que qualquer um que já viva sem deus já esteja, de certa forma, no inferno, ou bem perto dele. O tal do "Deus" seria, pelo jeito, alguém tão ardiloso, arrogante e malvado que nos deu uma certa configuração "espiritual" feita para nos castigar com um grande sofrimento (tão grande que recebe o nome de "inferno") caso nós decidamos usar o nosso "livre-arbítrio" para nos afastarmos dele, que se julga o nosso senhor e legítimo proprietário. Essa "liberdade" com a qual o rapaz nos brindou se assemelha a uma escravidão. Depois não sabem por que Lúcifer teria se rebelado, e teria se rebelado junto com dois terços dos anjos - convenhamos, é improvável que dois terços de todas as criaturas angelicais teriam se voltado contra seu próprio criador se não houvesse motivos legítimos para fazê-lo.

Algo semelhante ocorre com os conceitos de "espírito" e "alma". Se o leitor não sabe, "psicologia" quer dizer estudo DA ALMA. Ocorre que até pouco tempo, a mente e a alma eram entendidas como uma mesma coisa. Mas agora, que os estudo científicos se apropriaram da "mente" enquanto objeto, a religião descobriu (como?) que o ser humano é um ser material, mental E ESPIRITUAL.

Eles não vão desistir tão facilmente da sua ignorância.

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Atenção: Como eu já disse no § 46, esse texto foi escrito em 2002, quando eu tinha 16 anos. Muito do que está escrito aqui já não representa com exatidão a minha atual forma de pensar. Porém creio que o texto ainda pode ser útil para aqueles que atualmente vivem situações (de apostasia) semelhantes às que eu vivi à época em que escrevi isso.

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sábado, 9 de maio de 2009

LXIII - Uma breve crítica ao cristianismo e a sua mais atroz forma: o (neo)pentecostalismo - parte 7 de 16.


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§ 63




2.3. Ilusões sensoriais



Imagine que o leitor já vivenciou, em algum breve momento de sua vida, um dos dois fenômenos, senão ambos, que descreverei. É possível que tenha que se esforçar para lembra-se deles - de tão irrelevantes que eles são atualmente.

Às vezes somos acometidos, em um momento qualquer, por um chiado ou zumbido em nossos ouvidos. Às vezes, também, temos pequenas e sucintas deformações nas imagens que vemos do mundo à nossa volta; luzes fortes (brancas ou coloridas) podem nos fazer "névoas" (cujas cores são o inverso da cor da luz inicial), e manchas, as quais surgem em nosso campo de visão e quando nos movemos para enquadrá-las melhor elas "fogem" (se movem junto conosco).

Atualmente esses fenômenos são irrelevantes; e ninguém civilizado, espero eu, deve duvidar que são respostas fisiológicas à alguma ação do meio (na verdade eu sei que há gente que não sabe disso). Porém, quem garante que, no passado, quando não havia conhecimentos biológicos e tampouco aparelhos audio-visuais - que dissipam, com seu dinamismo e colorido, a nossa atenção a esses pequenos acontecimentos -, estes fenômenos não eram interpretados de forma animista como verdadeiras manifestações de espíritos, como o eram os ventos, a chuva, etc.?


2.4. A imutabilidade de deus


Todo o texto de Deuteronômios capítulo 32 é assustador, com destaque para:

"39. Vede, agora, que eu, eu o sou, e mais nenhum deus comigo; eu mato e eu faço viver; eu firo e eu saro; e ninguém há de escapar da minha mão.
"(...) 41. Se eu afiar a minha espada reluzente e travar do juízo a minha mão, farei tornar a vingança sobre meus adversários e recompensarei os meus aborrecedores.
"42. Embriagarei as minhas setas de sangue, e a minha espada comerá carne; do sangue dos mortos e dos prisioneiros, desde a cabeça, haverá vingança do inimigo."

Qual não é a surpresa do leitor ao saber que quem pronuncia estas palavras é nada mais nada menos do que o velho e bom Jeová? Sim, o mesmo cuja benignidade dura para sempre.

Em todo o Velho testamento é construída a imagem de um deus vingativo, irado, ciumento, e que apenas possui alguma (pouca) compaixão para com o seu povo eleito. Como explicar que, de repente, uma figura transcendental, um ser que existia antes mesmo dele ter criado o tempo e o espaço, mude as suas características como a moça muda de vestido?

Acreditar que o sacrifício de deus a si mesmo trouxe nova esperança é uma coisa. Mas é demais acreditar que esse mesmo deus, para não contrariar os princípios e regras por ele criados e válidos para a sua criação (não para ele), se dividiu em três partes, duas das quais ganharam características que ele não possuía e que esqueciam seu pacto com o povo judeu (advogando uma salvação universal), modificando assim as características de um ser eternos. Como um ser eterno que está fora do tempo pode mudar?




Atenção: Como eu já disse no § 46, esse texto foi escrito em 2002, quando eu tinha 16 anos. Muito do que está escrito aqui já não representa com exatidão a minha atual forma de pensar. Porém creio que o texto ainda pode ser útil para aqueles que atualmente vivem situações (de apostasia) semelhantes às que eu vivi à época em que escrevi isso.


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sexta-feira, 24 de abril de 2009

LX - Uma breve crítica ao cristianismo e a sua mais atroz forma: o (neo)pentecostalismo - parte 6 de 16.

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§ 60




2. Crítica ao cristianismo


2.1. Introdução


"Lida propriamente, a Bíblia é a força mais potente para o ateísmo jamais concebida." (Isaac Asimov)


Obviamente não serei eu quem vai matar e enterrar deus com meus simples argumentos. Afinal, não se pode matar um cadáver. Sim, deus já está morto, e seus algozes foram, apenas para citar alguns nomes, Kant, Sartre, Nietzsche, Dostoiévski, Freud, Sócrates (este último faleceu antes do advento do "salvador", porém seu pensamento é de importante valia para o agnosticismo).




2.2. A alma




Desde o princípio, a maneira mais eficaz de se detectar a morte era a falta de respiração - claramente visível no tronco humano. Desde o princípio, primitivos e crinças ficaram perplexos com a respiração: o encher e esvaziar de nosso interior com "nada" - os conhecimentos da massa e do volume dos gases são relativamente recentes, e, até hoje, por incrível que possa parecer, muita gente ignorante imagina que estamos rodeados por "nada".


É interessante notar que, até o século XVIII, todos os gases eram chamados de "espíritos", na verdade a palavra "espírito" foi empregada como sinônimo do atual "gás" (por que ninguém lhe ensinou isso na escola?). Apenas em 1772 Antoine Lavoisier comprovou que o oxigênio é responsável pela combustão e que, entre outras conclusões, não estamos rodeados por nada (que seria o vácuo atual), mas sim por gases (atmosfera).

Mas antes desta e de outras surpreendentes descobertas era perfeitamente lícito imaginar que "nada" havia ao nosso redor e que era este mesmo nada (invisível) que deixava de nos preencher à hora da morte. Logo, concluia-se: é o invisível que nos dá a vida. Essa noção se formou na mente dos primeiros homens e corresponde à crença no espírito, ou na alma - etmologicamente sinônimos (mas posteriormente foram diferenciados pelas estravagâncias do pensamento humano): espírito, em latim, é "que sopra" ou "vento" e alma, em hebraico, é "sopro" ou "hálito".

Aliando-se isso às fragilidades humanas (necessidades de segurança e proteção contra as adversidades da natureza impiedosa) e a sua completa ignorância de outrora acerca do mundo, da Terra e do Universo, armou-se o palco para o surgimentos das divindades espirituais. E como elas eram, primordialmente, invisíveis, foi possível dar a elas as características que bem se entendesse. (O onipresente vento era considerado manifestação de espíritos ancestrais, entre outros absurdos.)

Mas não é apenas isso, não. Será mera coincidência que as palavras "inspiração" e "aspiração" designem, simultaneamente, funções pisicológicas e fenômenos respiratórios? Os antigos acreditavam que todo conhecimento era transmitido pelo invisível que entrava na cabeça do indivíduo: a "inspiração divina".

Depois de formada a idéia, ela era comunicada aos demais pelas palavras: o invisível (gás) elaborado em som (ondas sonoras), capaz de trazer mensagens. O anjo é, segundo a definição dogmática, um puro espírito (puro ar) que traz uma mensagem de deus (palavra: onda sonora; "angelos" em grego quer dizer mensageiro). Assim, os anjos são representações pictóricas e animistas das palavras.

Desta maneira, um equívoco de nossos antepassados brutos e ignorantes, uma mentira dita mais de um trilhão de vezes ao longo da história humana, tornou-se uma verdade que, não obstante os avanços da ciência e da filosofia, é quase irrefutável, devido à pujança com que se agarra, pelo costume e pelo senso comum, às mentes, aos corações, e às fragilidades humanas. Essa mentira se tornou uma base da maioria, senão de todos, os credos existentes.



Atenção: Como eu já disse no § 46, esse texto foi escrito em 2002, quando eu tinha 16 anos. Muito do que está escrito aqui já não representa com exatidão a minha atual forma de pensar. Porém creio que o texto ainda pode ser útil para aqueles que atualmente vivem situações (de apostasia) semelhantes às que eu vivi à época em que escrevi isso.

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Tempore, quo cognitio simul advenit, amor e medio supersurrexit.

sábado, 4 de abril de 2009

LVII - Uma breve crítica ao cristianismo e a sua mais atroz forma: o (neo)pentecostalismo - parte 5 de 16.


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§ 57







1.3. A educação e os fatores psicológicos




O terceiro tópico, que é mais subjetivo e difuso, ao qual me contentarei em denominar "educação e fatores psicológicos", ataca, principalmente, a maioria dos poucos intelectuais cristãos (e quando digo intelectuais refiro-me aos "verdadeiros", e não à maioria espúria e hipócrita), mas pode atacar, também, qualquer pessoas que, de certa forma, escolheu seguir a vida cristã mesmo tendo conhecimento dos muitos argumentos válidos que existem contra ela – trata-se, portanto, de um ato autêntico (conheceu-se os dois lados, não se fugiu de nenhum, escolheu-se aquele que se julgou o melhor).

Normalmente, tais fatores se desenvolvem na infância. É soberanamente difícil para alguém, por mais culto que se torne, negar o seu credo se, quando infante, viveu em família equilibrada e religiosa (com uma religiosidade igualmente equilibrada e sincera), teve vida pacata e bela, longe de conflitos familiares e sociais, longe de conhecer a miséria e o opróbrio – em suma, longe de qualquer coisa que poderia criar o mais leve vislumbre de negação da fé.

É ainda mais difícil se o infante, além de ter sido criado em um mundo de fantasia, tiver tido, em seus delírios infantis, alguma espécie de visão de anjos, santos, ou qualquer outra coisa análoga. As fantasias e mistificações repugnantes com as quais são educadas a maioria das crianças são, não tenho dúvida alguma, responsáveis pela manutenção de uma visão animista do mundo, mantendo-se assim muitas da crenças; do choque entre o mundo da infância e o mundo adulto morrem papai Noel, coelhinho da páscoa, bruxas e duendes (esses dois últimos, não para todo mundo), mas não morre deus.

A criança, principalmente por causa da educação mistificada que recebe, tem dificuldade de diferenciar o falso do verdadeiro – levando parte dessa dificuldade para a vida "adulta". Além disso, a criança pode ter tido uma série de pequenas experiências rotineiras (algumas, até, muito simples), as quais lhe são apresentadas como obra divina – o que calcifica em sua mente a religião de tal forma que razão alguma de lá a tira.

Muitas pessoas, ao conhecer argumentos que destroem sua fé, recusam-se a acreditar que a família a qual tanto amam tenha vivido, ou ainda viva, uma mentira. Negam-se a acreditar que desperdiçaram sua vida e seu tempo perante uma ilusão, a qual tanta alegria e sofrimentos lhes deu e diante da qual riram, choraram. amaram, imploraram, tremeram, etc.

1.4. Conclusão

Estes três tópicos nos ajudam a entender a permanência da fé na sociedade atual, não obstante os avanços do conhecimento humano. Eles ajudam-nos a compreender porque a maioria lastimosa dos seres humano insiste nas crenças mais tolas e repugnantes. Dessa forma, ajudam-nos a dissipar essa honesta ,porém totalmente falsa, convicção segundo a qual a "verdade" estaria com a maioria.



Atenção: Como eu já disse no § 46, esse texto foi escrito em 2002, quando eu tinha 16 anos. Muito do que está escrito aqui já não representa com exatidão a minha atual forma de pensar. Porém creio que o texto ainda pode ser útil para aqueles que atualmente vivem situações (de apostasia) semelhantes às que eu vivi à época em que escrevi isso.


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Tempore, quo cognitio simul advenit, amor e medio supersurrexit.