sexta-feira, 30 de janeiro de 2009

L - Acerca de um “insight” de publicitários que já havia sido antecipado por Aldous Huxley 76 anos antes. Triste.

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§ 50







E adoraram o dragão que deu à besta seu poder; e a adoraram dizendo: Quem é semelhante à besta? Quem poderá batalhar contra ela? (Apocalipse, 13:4)
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“Artigo 171. Obter, para si ou para outrem, vantagem ilícita, em prejuízo alheio, induzindo ou mantendo alguém em erro, mediante artifício, ardil, ou qualquer outro meio fraudulento.” (Código Penal Brasileiro)


Pane no sistema, alguém me desconfigurou
Aonde estão meus olhos de robô?
Eu não sabia, eu não tinha percebido
Eu sempre achei que era vivo
Parafuso e fluído em lugar de articulação

Até achava que aqui batia um coração
Nada é orgânico, é tudo programado
E eu achando que tinha me libertado
Mas lá vem eles novamente
E eu sei o que vão fazer:
Reinstalar o sistema

Pense, fale, compre, beba
Leia, vote, não se esqueça
Use, seja, ouça, diga
Tenha, more, gaste e viva

Pense, fale, compre, beba
Leia, vote, não se esqueça
Use, seja, ouça, diga...
Não senhor, Sim senhor




Imagino que você já conheça esse comercial nojento do Mercado Livre. Esses publicitários...sempre querendo nos empurrar lixo com aquela onipresente , desprezível e degradante atmosfera feliz , e idealmente ingênua que infecta a mente de quem tem coragem (ou a burrice?) de expor-se à mídia em geral e à televisão em particular. Essa peças publicitárias refletem ideais burgueses de um mundo no qual há circulação de mercadorias sem produção, capital sem trabalho, república sem povo...




Um homem se casando com uma moto? A que nível chegamos?? Um dia desses fiquei sabendo que existem homens que se dedicam seriamente a manter relações sexuais com automóveis! A sexualidade humana é polimórfica, diria Freud. Não, não existem limites.

Os publicitários que fizeram essa propaganda devem ter se achado o máximo, por terem “criado” uma “idéia” dessas, por ter tido um “insight” como esse...Mas quem leu e se interessou pelo profético livro de Aldous Huxley (Admirável mundo novo) certamente não se admirou pelo conteúdo da propaganda, ao contrário, apenas reforçou a sua convicção acerca da imbecilidade e da escravidão humanas, pois todas as “idéias” presentes nessa propaganda foram antecipadas por Huley com 76 anos de antecedência!

As pessoas são tão imbecis que não percebem que são cordeiros e que alegremente se deixaram vigiar pelos próprios lobos! Sinceramente, elas não merecem serem enganadas e escravizadas? Quando entendemos que os cordeiros querem ser enganados é impossível não se solidarizar com os lobos.
Numa sociedade transpassada pela alienação e pela fetichização – num mundo de ilusões e mentiras – , essa peça publicitária surge como um monumento que é, simultaneamente, explicitamente ingênuo e sintomaticamente perverso desses dois fenômenos gêmeos constitutivos das ideologias capitalistas (e cujo apogeu brilha na sociedade de consumo de massas (1)): da personalização das mercadorias e da reificação das relações sociais.



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"Os gentios são um rebanho de carneiros e nós somos os lobos! E vocês sabem o que acontece aos carneiros quando os lobos penetram no redil!... Fecharão seus olhos sobre tudo o mais, porque nós lhes prometeremos restituir todas as liberdades confiscadas, quando se aquietarem os inimigos da paz e os partidos forem reduzidos à impotência. É inútil dizer que esperarão muito tempo esse recuo ao passado." (Os protocolos dos sábios de Sião, XI)


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Admirável mundo novo (1932):

“’Cem repetições, três noites por semana, durante quatro anos’, pensou Bernard Marx, que era especialista em hipnopedia. ‘Sessenta e duas mil repetições fazem uma verdade. Imbecis!” (cap. III)

“Nos berçários, a lição de Consciência de Classe Elementar havia terminado; as vozes adaptavam a futura procura à futura oferta industrial: ‘Como eu adoro andar de avião’, murmuravam, ‘como eu adoro andar de avião, como eu adoro ter roupas novas, como eu adoro...(...) ‘Mas as roupas velhas são horríveis’, continuava o murmúrio infatigável. ‘Nós sempre jogamos fora roupas velhas. Mais vale dar fim que conservar, mais vale dar fim...’” (cap. III)

“- Nunca deixe para amanhã o prazer que puder gozar hoje – disse ela com seriedade.
“- Duzentas repetições, duas vezes por semana, dos quatorze aos dezesseis anos e meio – foi o único comentário dele.” (cap. VI.I)

“- Não pense que eu mantinha relações indecorosas com aquela moça. Nada de emocional, nada que se propagasse indefinidamente. Tudo era perfeitamente sadio e normal.” (cap. VI.II)

“O selvagem lia em voz alta Romeu e Julieta – lia com paixão intensa e fremente, pois via a si mesmo no lugar de Romeu, e Lenina no de Julieta. Helmholltz ouvira com interesse intrigado a cena do primeiro encontro dos dois amantes. A cena do pomar tinha-o encantado por sua poesia; mas os sentimentos expressados fizeram-no sorrir. Chegar a tal estado por causa de uma mulher parecia-lhe ridículo. Mas, examinando os detalhes verbais um por um, que trabalho soberbo de engenharia emocional!
“ – Este bom velho – disse – faz parecerem tolos os nossos melhores técnicos de propaganda.” (cap. XII)

“– É absurdo você se deixar chegar a esse estado. Simplesmente absurdo – repetiu. – E por quê? Por causa de um homem, um homem!” (cap. XIII)

“- (...) Escute, Lenina, em Malpaís as pessoas se casam.
“- As pessoas ...o quê? – A irritação recomeçara a invadir sua voz. De que estaria ele falando agora?
“- Para sempre. Fazem-se a promessa de viverem juntos para sempre.
“- Que idéia horrorosa! – Lenina ficou sinceramente chocada.” (cap. XIII)
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“(...) O século XXI ... será a era dos ‘Controladores do Mundo’... Os ditadores mais antigos caíram porque nunca puderam suprir seus subjugados com bastante pão, bastante circo, quantidades suficientes de milagres e mistérios. Sob uma ditadura científica, a educação vai realmente funcionar – com a garantia de que a maioria dos homens e das mulheres crescerá amando sua servidão, jamais sonhando com atitudes revolucionárias. Não parece existir qualquer boa razão para que uma ditadura, cuidadosamente elaborada com requintes científicos, deva jamais ser descartada.” (Aldous Huxley em Admirado mundo novo revisitado.)

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1 O conceito de sociedade de consumo de massa surgiu no pensamento das ciências sociais na obra do economista do mainstream W. W. Rostow (As etapas do crescimento econômico, publicado em 1959) com o objetivo de descrever a situação de bem-estar gerada pela “economias desenvolvidas”. Eu acho muito importante salientar que a alienação, a reificação, o fetichismo e a mistificação não são – de maneira alguma – características do “subdesenvolvimento”, isto é, não existem apenas nos países pobres e não democráticos. Para mim é vital reconhecer que essa situação também existe – e aliás existe com toda a força – nas sociedades ditas desenvolvidas (as quais são tomadas por nós, do “Terceiro mundo” como exemplos a serem seguidos) nas quais a população é manipulada e explorada tal gado leiteiro (digo leiteiro e não de corte pois nessas sociedades as pessoas estão aprisionadas totalmente num mecanismo parasitário que as manipula para produzir e realizar mais-valia: a mais-valia é extraída e realizada continuamente ao longo da manutenção do processo de vida do indivíduo, o que lembra mais a situação de escravidão do gado leiteiro, e não a do gado de corte). Nós, aqui no Brasil, temos o costume de idealizar as pessoas que vivem nos países do Primeiro mundo, imaginando-as como livres, independentes, inteligentes, dotadas de espírito crítico e participativo, etc. Elas podem até ser tudo isso com relação à situação vigente nos "tristes trópicos"; porém, do ponto de vista mais amplo da emancipação humana, elas não são muito diferentes de nós.



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Tempore, quo cognitio simul advenit, amor e medio supersurrexit.