Atualmente eu trabalho como funcionário de nível médio em área-meio (na qual você não atende diretamente o cliente) de um banco “público de direito privado”
Como já é costume, um dia desses recebi um e-mail sobre a sempre presente ameaça de privatização.
Conversando com um colega (gama I, 25 anos, noivo) ele se manifestou inescrutavelmente perplexo com o fato de eu me preocupar com isso. “Qual é o problema de se trabalhar em um banco privatizado, afinal?”
A seguir a longa resposta que eu lhe forneci:
“Primeiramente, todo o trabalho que é feito aqui no nosso departamento seria terceirizado, e portanto seria executado por trabalhadores que custariam uns quarenta por cento do que cada um de nós custa.
“Segundo, você iria trabalhar em uma agência (isso se não fosse demitido, pois os novos proprietários da empresa iriam, logo ao assumir a diretoria, anunciar um previsível excesso de pessoal), na qual você forneceria, devido ao assédio moral e às metas impossíveis de se cumprir, uma média de duas horas de trabalho não remunerado por dia.
“Você teria apenas quinze minutos para almoçar (conforme prevê o contrato de trabalho de seis horas diárias), e o faria, isso quando o fisesse, em horários completamente irregulares: hoje às 11h, amanhã às 15h, no dia seguinte às 13h, etc. Em pouco tempo, você passaria a cultivar úlceras.
“Você teria que estelionatar os seus clientes a fim de tentar cumprir as sagradas metas.
“Tudo isso para ganhar praticamente a mesma coisa que você já ganha agora, senão um pouco menos.
“Todas as regalias que você perdesse seriam instantaneamente convertidas em lucro adicional para o capital que comprou a sua força de trabalho. Esse ganho se chama ‘eficiência econômica’, ou ainda ‘aumento da produtividade’, e redunda em ‘aumento do bem-estar econômico’ pois reduz os custos marginais e isso pode, em um mercado competitivo, eventualmente respingar na forma de tarifas e juros menores para os consumidores (entre os quais você hipoteticamente se incluiria).
“Assim, em nome da eficiência econômica e do progresso – pois o caminho é sempre em frente – e em honra da acumulação de capital, você perderia regalias em detrimento do aumento do lucro, e, portanto, do aumento da concentração de renda nesse país que hoje já é o mais desigual da galáxia.
E que regalias você perderia? Você perderia a regalia de usar camiseta e calça jeans enquanto trabalha; você perderia a regalia de ter uma hora diária para almoçar; você perderia a regalia de não ter que cultivar úlceras; você perderia a regalia de não ter que engolir um marmitex em quinze minutos, a cada dia em horário diferente; você perderia a regalia de não ter que fornecer horas diárias de trabalho gratuito ao empregador; você perderia a regalia de não ter que, sempre em mangas bem passadas de camisa dentro da calça e com cinto e com sapatos bem engraxados, mentir e estelionatar o cliente (antes ele que você, não é?); por fim, você perderia a regalia de não ter que, sempre com um sorriso amarelo e encardido (pois você não teria tempo para o privilégio de escovar os dentes), empurrar exaustivamente, de novo e de novo, para os clientes (justamente os supostos beneficiários de tudo isso) produtos nos quais você não confia e os quais você mesmo não compraria em hipótese alguma.”
Será que eu exagerei?
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Tempore, quo cognitio simul advenit, amor e medio supersurrexit.
