.
.
.
§ 53
.jpg)
"Se a gente parasse para pensar no custo, a gente não tinha filhos." (Dito a mim por uma bela garota gama de 23 anos, feliz e de bem com a vida, na noite de 05/08/2008)
"Se você for pensar racionalmente, você não teria um filho." (Professor doutor em economia ministrando aula sobre a teoria microeconômica da fertilidade na cadeira de desenvolvimento econômico do curso de ciências econômicas da UFPR, na data de 16/09/2008)
"Você nunca perde a esperança de recuperar 'o investimento' que você fez [no filho]." (Idem)
"A sociedade, ou mal ou bem, acaba impondo determinados padrões os quais se é discriminado quando se foge deles" (Idem, referindo-se à coerção social para que o indivíduo tenha filhos)
"Essa teoria microeconômica da fertilidade é, também ela, um retrato do princípio de prazer (as 'preferências', ou os 'gostos') curvando-se ao princípio de realidade (no caso, uma realidade econômica, na qual tudo é quantificável em dinheiro)." (Eu, nas minhas anotações dessa aula)
***
Flashback # 5 - Iconoclastia reloaded - 19/05/2007
"Minha filhinha está cantando: 'ah-ah-ah-ah'. Não compreendo o que significa, mas sinto o que ela quer dizer. Ela quer dizer que tudo...não é horror, mas alegria." (O Diário de Vaslav Nijinsky, citado no final do capítulo IV do lvro O outsider - o drama moderno da alienação e da criação, de Colin Wilson.)
Estava eu, tranqüilo, almoçando, sozinho, em um restaurante vegetariano, como costumava fazer todos os sábados, quando adentraram ao recinto um pai, uma mãe, e a pequena filha, que tinha algo entre 2 e 4 anos. O espetáculo estava prestes a começar.
Enquanto o pai fazia o prato da pequena monarca, a mãe paparicava aquele ser desprezível, com as lorotas de sempre. O pai, passos rápidos, chega; a refeição é apresentada à criança, que com gestos de nojo a rejeita veementemente. A mãe ausenta-se para fazer seu prato, pois ela também tem direito à alimentação. Enquanto tentava, sempre em vão, convencer a cria a comer aquela colorida e saborosa comida, o pai, de vez em quando, ingeria um pouco do alimento destinado àquele macroaglomerado celular - não sei se buscando com isso "dar o exemplo" ou apenas aliviar sua fome.
A mãe, prato feito, chega; não para comer, mas para alimentar a fera. Tenta, também ela em vão, alimentar o bicho, o qual reage como se estivesse diante da coisa mais nojenta do mundo e que, não obstante a opulência alimentar que tinha diante de si, exigia unicamente o que não havia à sua frente: queria suco, e queria i-me-di-a-ta-men-te. Império dos sentidos.
Enquanto o pai, que se ausentara da sacra presença do animal, tentava escolher algo para alimentar o seu carcomido corpo, a criança - obviamente não se importanto com o ouvido dos outros que lá almoçavam, como eu, e que absolutamente nada têm a ver com a sua vida torpe de infante - gritava-lhe a exigência do atendimento imediato dos seu desejo supérfluo. O pai chega correndo com a bebida (ele certamente não teve tempo de escolher com calma e parcimônia os alimentos que iria ingerir - toda opulência do restaurante em vão): ele é obrigado a descuidar da própria alimentação; a criança, é claro, não quer nem saber: só ela importa, os outros que se fodam. Princípio de individuação. Pronto, chegou o suco, meu deus! Princípio do prazer. Nem por isso foi fácil fazer a menina simplesmente comer, coisa que deveria ser simples e óbvia - mas não é.
A rainha ficava olhando o mundo em redor, se mexendo, se pegando, fazendo qualquer coisa, menos comer. Apenas assisti até aí, já estava enojado, passando mal.
Como é que desgraçados e hipócritas têm a coragem de afirmar que as crianças são "puras" e "sem pecado"? Já estava, diante de meus olhos inescrutavelmente perplexos e dos pobres e atônitos pais, toda a merda de sempre: a mesquinhez, o egoísmo, o imediatismo, a animalidade, e o resto.
Para quê tudo isso, meu deus? Na melhor das hipóteses, caso a criança sobreviva e "vença" na vida, ela apenas conseguirá repetir o velho estribilho: casar, ter filhos...e assim o ciclo recomeça. Isso é o melhor que ela poderia ser, isso é o melhor que ela poderia fazer, isso é o máximo que a vida poderá lhe oferecer. E ache bom.
***
"Então, a serpente disse à mulher: Certamente não morrereis." (Gênesis, 3:4)
Ora, essa suposta virtude que as pessoas querem ver nas crianças (chegando à petulância de as verem como "anjinhos") é decorrente, no que concerne às próprias crianças, principalmente da sua ignorância. Elas para um olhar desatento e superficial parecem virtuosas pelo simples fato que elas não possuem, ainda, o discernimento para perceber: (i) quais são exatamente seus interesses (refiro-me àqueles interesses menos imediatos, que estão escondidos por detrás duma corrente causal ainda desconhecida pela criança) e (ii) que esses seus interesses estão necessariamente em conflito com o de outros indivíduos (como o interesse de comer qualquer ser vivo se opõe ao interesse desse ser de viver e se multiplicar). Se a criança fosse capaz de perceber isso, ela seria a primeira a passar por cima dos outros, indiferentemente.
Contra essa ilusão da virtuosidade infantil, a verdade disponível à experiência nos indica que qualquer adulto, por mais rasteiro e mesquinho que seja, é menos egoísta que uma criança. Como eu já disse antes, com o processo de educação (domesticação) o animal selvagem que todos nós somos ao nascer é condicionado à vida social, esse condicionamento inclui a diminuição do seu egoísmo e a modelagem desse egoísmo aos interesses sociais (da "coletividade"). A visão de que as pessoas se tornam mais egoístas na vida adulta é totalmente falsa (pois a verdade é exatamente a oposta): é que elas, agora que são adultas, percebem muito mais claramente quais são seus interesses e que esses estão em conflito com os de outrem. A criança ainda não viveu o bastante para aprender a ser hipócrita, embora já minta tão logo seja capaz de perceber a utilidade desse artifício.
Essa ilusão da virtuosidade da criança também se vincula à ilusão de que o ser humano - e a vida em geral - é "essencialmente bom" e de que é vida e esse mundo (os quais por alguma fatalidade - como o logro da serpente sobre Eva - temporariamente são "maus") que corrompem-no. Dessa forma, mantém-se em aberto a vã esperança de que uma configuração mais adequada e feliz desse mundo poderia corresponder ao desabrochar da bondade humana, supostamente presente na "pureza" da criança, levando-nos enfim a uma improvável e inacreditável conciliação entre o egoísmo e a virtude.
De forma análoga ao que já foi dito, é apenas a ignorância infantil (e não uma bondade legítima) que livra a criança de ser hipócrita e mentirosa: é que ela, que, em seu egoísmo, apenas vê a si mesma e não percebe os interesses alheios, simplesmente não percebe que precisa muitas vezes utilizar-se desses artifícios para obter o que quer. Mas com o seu "amadurecimento" a criança aprende, na marra (pois a vida a ensinará), como deve se portar em um mundo como esse.
***
"E Deus os abençoou e lhes disse: Frutificai, e multiplicai-vos, e enchei a terra, e sujeitai-a; (...)" (Gênesis, 1:28) [Esse é o único mandamento que os humanos pecadores nunca tiveram dificuldade alguma em respeitar.]
Não é difícil perceber que uma das razões pelas quais as pessoas são condicionadas a idealizar as crianças reside na necessidade de procriação, para a qual tanto a sociedade quanto a natureza, de mãos dadas, preparam e coagem o indivíduo, essa marionete a qual é sua (da natureza e da sociedade) criação e legítima propriedade, sob todos os aspectos.
Afinal, se as pessoas de forma geral vissem as crianças com maus olhos, ou pelo menos com uma visão mais justa, científica e imparcial que a atual, certamente aí teriam um motivo adicional - e são tantos! - para não terem filhos. Como já disse Schopenhauer (O Mundo como vontade e como representação, § 60, Parerga e Paralipomena, § 156 e § 167, etc.) e como eu já ouvi - não sem surpresa - da boca de muita gente que absolutamente não conhece o filosofo do pessimismo, se pararmos para pensar se devemos ter filhos, se pesarmos os custos e os benefícios, tanto para nós quanto para o indivíduo que nascerá, nós muito provavelmente não teríamos filhos.
***
"Então disse o Senhor Deus: Eis que o homem é como um de nós, sabendo o bem e o mal; ora, pois, para que não estenda a sua mão, e tome da árvore da vida, e coma, e viva eternamente, a Senhor Deus, pois, o lançou fora do jardim do Éden, para lavrar a terra, da qual fora tomado." (Gênesis, 3:22-23)
Outra idealização hipócrita associada a essa questão das crianças e de ter filhos é aquela que afirma, ou insinua, que os pais "decidem" ter filho(s) por algum tipo de virtude e desprendimento moral. O quê?!
Sim, por mais sofrido que seja ter um filho, por mais ingrata que seja essa tarefa, por mais decepcionante e desiludido que seja o resultado, a verdade é que as pessoas são convencidas, pelo processo de educação e pela eterna polícia do pensamento da coerção social, de que poderão se "realizar pessoalmente", como "ser humano", tendo filho(s). Ou seja, o sujeito se reproduz movido por motivos egoísticos (que surpresa, hã?): para satisfazer sua vaidade com a paternidade/maternidade, para tentar, por meio do(s) filho(s), realizar alguma pretensão pessoal frustrada, para ganhar o respeito da sociedade e da família (que primeiro coagem ao namoro, depois ao casamento, depois ao primeiro filho, depois ao segundo filho...), como "garantia" (?) de que haverá alguém para cuidar dele na velhice, etc.
É claro que o comportamento virtuoso seria o da abnegação e o da renúncia, e é coerentemente a isso que a ideologia popular tenta falsificar, para aqueles que são tolos o bastante para acreditar, em desprendimento e abandono do ego um ato que é totalmente egoístico e mesquinho.
Mentiras análogas são contadas acerca do amor romântico e do amor materno: eles são pintados como sendo virtuosos, quando na verdade são (surpresa de novo!) mesquinhos e egoísticos: o indivíduo apenas busca satisfazer o seu ego faminto através do reconhecimento e da admiração do outro. O prazer feminino em servir é o prazer de se reconhecer útil, portanto necessário e "importante" (e o livro Ensaio sobre a cegueira, de Saramago, é esclarecerdor nesse sentido).
Com relação às promessas de realização pessoal, o indivíduo precisa acreditar que vai ganhar algo com o serviço que presta á espécie (reproduzir-se), pois em caso contrário, preso que está em seu egoísmo (ou mesmo, caso raro, consciente das conseqüências morais do ato), jamais se prestaria a tal tarefa.
É um mundo cheio de mentiras.
+invert.jpg)
***
Tempore, quo cognitio simul advenit, amor e medio supersurrexit.
