O fato fundamental aqui é que fixamos regras, uma técnica, para um jogo e que quando seguimos as regras as coisas não se passam como havíamos suposto. Que, portanto, nos aprisionamos, por assim dizer, em nossas próprias regras.
Este aprisionamento em nossas regras é o que queremos compreender, isto é, aquilo de que queremos ter uma visão panorâmica. (Wittgenstein, Investigações filosóficas, cap. 125)
There's so many different worlds
So many different suns
And we have just one world
But we live in different ones
(Dire Straits, Brothers In Arms)
Uma rápida pesquisa na internet sobre o sudário de Turim reascendeu em mim inquietações acerca da “cacofonia na Torre de Babel”, acerca das limitações e presunções da mundidivisão cultivada por cada um de nós.
Em mais um programa acerca do Santo Sudário, o Discovery Chanel trouxe revelações que para mim foram surpreendentes. Fiquei tão surpreso quanto ficara ao conhecer Ram Bonjon no mesmo canal de televisão.
Depois de 17 anos refutando argumentos de “fanáticos” que tentavam reiteradamente negar a validade da datação por carbono-14 realizada no sudário em 1988 (a qual estabelecera a sua idade como sendo de aproximadamente 800 anos), o até então cético Raymond Rogers finalmente se convenceu quando tomou conhecimento dum artigo publicado por Joseph Marino e Sue Benford, os quais não se consideram “fanáticos” (embora tenham – pela fé na legitimidade do sudário – lutado durante anos para arranjar alguma forma de prová-la). O artigo se baseia na análise de imagens de raio-x do sudário e argumenta basicamente que as amostras utilizadas nos testes de datação (retiradas do canto inferior esquerdo do tecido) seriam inválidas pois exatamente nessa parte ocorrera (provavelmente no século XVI) – sem que ninguém até então percebesse isso (mesmo depois de exaustivos e intermináveis exames científicos) – um sofisticado processo de restauração baseado num entrelaçamento de tecido novo (da Idade Média) com o "tecido original" (supostamente mais antigo), processo esse conhecido como tecelagem francesa. A princípio Rogers achou o argumento ridículo, como todos os seus antecessores. Porém, quando foi analisar a amostra de controle do teste de datação que estava ao seu alcance, Rogers subitamente mudou de idéia, declarando em um artigo científico e em um vídeo que as amostra utilizadas não eram válidas. (1)
O programa do Discovery Chanel termina em um tom animador para aqueles que acreditam na veracidade do sudário. Para mim, as coisas não foram tão felizes assim. Além de não acreditar na história, ainda tenho repulsa por essas discussões sem fim alimentadas pela mídia (Discovery Chanel, revista superinteressante, revista Galileu, Dans Browns da vida e da morte, etc.) em torno da figura de Jesus Cristo. Por isso, na minha sempre renovada ingenuidade, fiquei cho-ca-do com o que vi e fui pesquisar mais sobre o assunto (adivinhe onde? na Biblioteca Pública do Paraná é que não foi). Após um périplo pela internet, passando pelas mais diversas e divergentes opiniões sobre esse assunto, meu desespero arrefeceu ao ler o seguinte parágrafo do Dicionário do cético:
Naturalmente, o tecido poderia ter 3.000 ou 2.000 anos de idade, como especula Rogers, mas a imagem nele poderia datar de um período muito posterior. Qualquer que seja a data correta, tanto para o pano quando para a figura, não prova em nenhum grau de probabilidade razoável que o tecido seja o sudário em que Jesus foi envolvido e que a imagem seja de alguma forma milagrosa. Acreditar nisso sempre será uma questão de fé, não de provas científicas.
Passeando, agora mais tranqüilo, pelo referido dicionário, entre artigos sobre fadas, zumbis, código da Bíblia, crianças índigo, etc., encontrei um artigo sobre a psicanálise, no qual, para a minha surpresa, ela não recebe um tratamento muito mais respeitoso que os seus companheiros ali criticados. Para um psicanalista que se considere um “ateu”, ou ainda um “ateu materialista”, deve ser ainda mais surpreendente ver a psicanálise assim resumida a um placebo místico e verborrágico.
Pareceu-me claro que para o autor desse dicionário (Robert Todd Carroll), os limites que separam Ram Bonjon, cristianismo, metafísica schopenhauriana, teoria miasmática, e, entre outros, psicanálise são tênues e quase inexistentes: ele compara tudo isso com os métodos das ciências exatas e assim descarta todos no lixão comum dos contos de fadas.
Quanto ao Discovery Chanel, percebi que seu objetivo é alimentar os mitos, e não decifrá-los (com exceção dos mitos amenos e pirotécnicos do Myth Busters).
Isso me fez novamente refletir sobre a limitação humana. Temos a tendência egoística de querer que todos os demais sejam como nós somos, ou como nós gostaríamos de ser. Será que Robert Todd Carroll não é capaz de perceber em que tipo de mundo horrível (mais horrível que o atual, que já é uma bosta) nós viveríamos se fossemos guiados unicamente pelo método científico das ciências naturais, em detrimento de todo o resto do cabedal cultural humano? Ele realmente acredita que uma sociedade assim poderia funcionar, e funcionar melhor que a atual?
Sinto-me irresistivelmente tentado a afirmar quase com certeza que Robert Todd Carroll é alguém cuja área de atuação profissional se dá em alguma disciplina das ciências exatas. Alguém que trabalha na área de humanas, ou mesmo na biológica, provavelmente não teria uma mente tão "limitada" assim, apesar dos seus louváveis serviços prestados na luta contra as superstições (no que diz respeito a essa luta, recomendo também os sites Ceticismo aberto, Ateus.net e Projeto Ockham).
Obviamente que os céticos e cientificistas não são os únicos que estão errados (aliás, são um dos que estão menos errados; mas vou perder meu tempo criticando-os por que para mim isso é novidade; criticar cristianismo e new age é para mim chover no molhado). O erro está em todos nós. Se Robert Todd Carroll não mentiu sobre a psicanálise, então os psicanalistas tinham, nos anos 1950-60, a pretensão de curar até mesmo a esquizofrenia (e se isso for verdade, não ficarei surpreso em saber que alguns psicanalistas acreditem nisso até os dias atuais). Também eles, na sua limitação, não pararam para pensar séria e criticamente em como seria um mundo no qual o método científico tradicional e a por eles criticada “lógica aristotélica” não pudessem, por algum motivo dogmático, meter-se no estudo e no tratamento dos problemas relacionados à mente humana. O poder corrompe. (Eu mesmo me senti muitas vezes ofendido pela presunção do meu psicanalista: parecia-me ridículo ele ter a coragem de fazer aquelas declarações como se fossem verdades absolutas e indestrutíveis.)
Parafraseando a Bíblia, poderíamos dizer (e isso serve para todos nós, talvez com a exceção dos agnósticos – aliás, como essa é uma postagem agnóstica, não é surpresa que o agnosticismo seja aqui vendido como a opção mais adequada e inteligente disponível no mercado das mundivisões): (...) em seus discursos se desvaneceram, e o seu coração insensato se obscureceu. Dizendo-se sábios, tornaram-se loucos (2). (Romanos 1: 21-22)
Já é comum para mim a noção de que a quantidade de anos de estudo é capaz de tornar a mundivisão das pessoas mais abertas e sofisticadas (porém dentro de certos limites). Como disse Wittgenstein (3), os limites da minha linguagem são os limites do meu mundo (uma interpretação mais fluida de Schopenhauer permite interpretar de modo análogo a frase com a qual abre sua obra máxima). O conceito divide, separa; e, assim, quanto mais ampla a minha linguagem, em mais partes o meu mundo estará dividido, e mais complexas (e menos lineares e “aristotélicas”) serão as suas relações. Por fim, o indivíduo que busca obstinadamente "a verdade" por meio dos estudos das mais diversas e heterogêneas manifestações do pensamento humano acaba saturado de linguagem, obnubilado pelo excesso de informações, e assim naufraga tragicamente no mar do caos, no qual se fala muito mas se diz muito pouco: o mundo é desconstruído e se transforma num amontoado amorfo de escombros, de fragmentos isolados e dessignificados. A tão sonhada verdade mostra-se enfim uma utopia, e a própria realidade, antes tão certa e óbvia, desmorona e mostra-se uma ilusão. A complexidade do mundo não é compreensível para nenhum indivíduo humano tal como ele existe na atualidade, ou existiu no passado.
Voltando à questão dos anos de estudo. Todavia, recentemente eu percebi que o papel do estudo nas mundivisões não deve ser entendido apenas no seu aspecto quantitativo, mas também no qualitativo. Nossos cérebros possuem sofisticados mecanismos de busca e de seleção e, desta maneira, nós sempre achamos aquilo que queremos encontrar. Assim, um “crente” ou um beato verão a mão de deus (e a do diabo) em toda a parte, um comunista verá em tudo presságios do colapso final e definitivo do capitalismo, um neoliberal verá equilíbrio e "racionalidade" espalhados por toda parte, autores de manuais de auto-ajuda verão em tudo sinais de que o universo conspira a nosso favor, Schopenhauer via em toda parte a trágica dissonância do em-si do universo consigo mesmo, enquanto um biólogo evolucionário verá a evolução em todo o lugar (vide Richard Dawkins). Quando o cérebro (especificamente o hemisfério esquerdo) não têm determinada informação necessária para compor um certo cenário que ele julga coerente, ele simplesmente a inventa (e ele faz isso com bastante frequência). A mente mente.
Ficar cinco anos estudando biologia, ou economia, ou filosofia, ou engenharia química certamente implica numa mundivisão diferente. Há, na verdade, um mecanismo de determinação e outro de sobredeterminação: pessoas com determinadas personalidades e mundivisões decidem estudar determinada área do conhecimento humano, mas o aprofundamento desse estudo certamente aprimora e solidifica essas mesmas características que levaram o indivíduo a escolhê-lo. Assim o indivíduo se especializa. E quanto mais especializada (profunda) a sua visão, menos abrangente (ampla) ela será. Quanto menos ele souber do todo, mais estará preso a preconceitos e discriminações (ou, na melhor das hipóteses, numa desiludida e reconhecida ignorância); por outro lado, as “ciências da razão pura” do senso-comum e da metafísica estão aí para comprovar quão equivocadas e burlescas podem ser as conclusões tiradas por meio duma visão abrangente que não conhece detalhadamente as partes do todo. Conceitos amplos dão margem às mais variadas distorções. Conceitos restritos demais aprisionam o pensamento.
Como Einstein (4) admitiu, qualquer área do conhecimento é grande o bastante para devorar todos os esforços de um indivíduo, por mais genial que ele seja. Na minha fantasia, a única forma de tentar superar essa limitação seria por meio desse mito pós-moderno: a tecnologia. Seria necessário, primeiro, colocar todo o conhecimento humano já produzido num único banco de dados; depois, seria a hora de criar uma interface neuro-computacional que permitisse ao cérebro de um humano (ou trans-humano, de preferência) genial acessar toda essa informação. Mesmo assim, tenho dúvidas quanto à certeza de se obter com isso algum resultado apreciável. Creio que essa seria uma forma de recriar a figura dos grandes filósofos, que conseguiam ter um conhecimento profundo de todas as áreas do conhecimento existentes na sua época de vida, o que hoje é humanamente impossível. (Fiquei sabendo que em um dos livros do Mochileiro das galáxias ocorre algo parecido: só que a fé é nesse caso depositada toda nas máquinas, retirando-se por completo o elemento humano da trama. Após processar toda a informação, o supercomputador chega a um resultado vazio no seu formalismo matematizante (provavelmente “linear” e “aristotélico”), irracional na sua racionalidade que desconhece a si própria: “42”. Creio que é impossível desenvolver qualquer conhecimento novo sem alguma forma de emoção (pois essa teria um papel chave na atribuição de significado às palavras). Assim sendo uma inteligência artificial não seria suficiente: seria necessário, também, desenvolver uma emoção artificial. De um erro análogo pecam aquelas ficções científicas nas quais as máquinas superinteligentes resolvem nos escravizar: como o egoísmo não surge da inteligência ou da razão (e eu demorei muito tempo para entender isso), seria necessário, para tal macabro fim, criar não somente inteligência artificial, mas também egoísmo (interesse próprio) artificial.)
Dessa forma, embora as pessoas que possuem ensino superior estudem basicamente a mesma quantidade de tempo, suas visões de mundo não são semelhantes , e elas (as pessoas) ficam, em geral, presas dentro do “mundinho” desenhado pelas teorias estudadas por cada carreira profissional. Ao que parece, aqueles que estudam mais, como médicos e engenheiros, são, inclusive, mais bitolados que os demais. Acreditam que esse “mundinho” representa fielmente o “mundo real” (seja lá o que isso for).
Mas aquele que se especializa em uma visão mais abrangente (sic), o filosofo, parece que não consegue ganhar vantagem alguma com isso: nas suas generalidades metafísicas, não é capaz de compreender realidades científicas há muito estabelecidas. De que adiante entender em profundidade a concepção kantiana da idealidade transcendental do espaço e do tempo sem entender a visão einsteiniana, bem como seus desdobramentos até os dias atuais? E quanto ao modelo quântico? Um filósofo não sabe nada sobre isso, e embora Einstein fosse leitor de Kant e Schopenhauer, entre outros, um físico obviamente não tem tempo nem disposição de sê-lo.
O aprofundamento da divisão acadêmica do trabalho e a consequente especificação crescente do conhecimento alimentam o reducionismo e a fragmentação cognitivos, impedindo a construção dum conhecimento abrangente e coerentemente articulado da realidade, cujos processos de (des)construção não são mediados apenas pelo aprendizado e pelo conhecimento, mas, também, pelo esquecimento e pelo desconhecimento.
Destarte, cada carreira profissional cria o seu “mundinho”, no qual existe um ideal implícito: o de que o mundo seria melhor se todos pensassem e agissem tal qual agem e pensam os indivíduos de categoria profissional em questão (5) . No indivíduo, o processo é análogo: em nosso conselhos e críticas (que dizem mais a nosso respeito do que a respeito da pessoa aconselhada ou criticada) transparece a arrogância de recriar o mundo a nossa imagem e semelhança: “Vi que todos se tornaram iguais a mim, e compreendi que o mundo estava salvo”. A realidade, infelizmente, é bem mais complicada do que isso.
De alguma forma (imagino que a psicanálise tenha uma boa "explicação" para isso) as crenças individuais tornam-se parte do mecanismo psíquico do indivíduo (são “introjetadas” por ele), de tal forma que ofendê-las se torna uma questão de auto-defesa. Ofender uma crença de alguém é ofender esse mesmo alguém, que reagirá em defesa própria.
De todas as classes profissionais, biólogos, sociólogos e economistas parecem, para mim, os que mais imunes estão a esse erro (de criar um "mundinho" e se trancar nele). Os estudos acerca das dinâmicas ecológica, evolucionária, ideológica, de divisão do trabalho social, e de concorrência no mercado são capazes de nos ensinar o valor da diversidade e o fato de que todo sistema dinâmico homogêneo está fadado ao colapso.
Do ponto de vista da Economia Política (tão esquecida no currículo dos cursos de economia, que estão voltados aos "interesses do mercado de trabalho") , podemos observar que uma sociedade economicamente diversificada como a nossa repousa sobre a divisão do trabalho, a qual, por sua vez, exige (e alimenta, num processo de determinação e sobredeterminação) uma diversidade de personalidades e, portanto, de mundivisões.
Achar que o mundo seria um lugar melhor se todos fossem como eu, ou como freiras, ou como ameríndios, ou como budistas, ou como o homo economicus, ou como minha avó, ou como Carl Sagan, etc., todos esses pensamentos caem no mesmo erro: ignoram o papel fundamental da diversidade na manutenção dum equilíbrio dinâmico (aquele que permite ao sistema evoluir sem colapsar sobre si mesmo) dos sistemas sociais. Da mesma forma, se fossemos todos clones, poderíamos morrer todos rapidamente por causa de uma única doença: é a diversidade que viabiliza a seleção natural, assim como que sem ela não haveria divisão do trabalho (pelo menos não no grau de eficiência por nós conhecido, sem o qual nossas “maravilhosas” e “evoluídas” sociedades não existiriam). (Talvez seja interessante confrontar isso com o imperatico categórico kantiano.)
Do ponto de vista do agnóstico, tanto ateus (aqueles que afirmam que não há deus), quanto céticos, quanto cientificistas cometem o mesmo erro: acreditam que sabem demais. Eles, é claro, vangloriam-se de, com seus métodos, obter um conhecimento o mais preciso possível. Muitos dos nossos sentimentos de epifania são ilusões, e ateus, céticos e cientificistas também não estão imunes a isso. Enquanto isso, o agnóstico é socrático: sabe que não sabe.
O pensamento do cientificista se pauta não apenas pela fé na razão (na lógica), mas também pela fé nos números (na matemática) (6): sob esse aspecto, o cientificismo aparece-nos como uma exorbitação do senso comum criado pelo iluminismo, e cuja desconstrução iniciou-se com o kantismo e teve sua conclusão com o pós-estruturalismo francês. Daí que, para o cientificista, qualquer construção teórica que ouse fugir da modelagem adotada pelas ciências naturais deva ser imediatamente denunciada como mística e desprovida de qualquer validade epistemológica. O cientificista vive num mundo que não é mediado pela simbolização: num mundo onde o verdadeiro e o falso são completamente discerníveis (num mundo no qual o princípio do terceiro excluído é incontestável), desde que mediante a aplicação da metodologia científica utilizada pelas ciências naturais. Eis o seu artigo de fé, o seu dogma.
Presas em seus “mundinhos”, as pessoas percebem muito pouco que vá além daquilo do que seus cérebros estão programados para perceber (7). E o pouco que é percebido, geralmente é tratado na base do deboche e do desdém (ou seja, na defensiva). Os resultados são esses debates e controvérsias sem fim (desagradáveis para o ingênuo amante da “verdade”), e provavelmente insolúveis, como esses que giram em torno do sudário de Turim ou da psicanálise (8).
Contraditoriamente, é justamente essas crenças egoísticas que alimentam a diversidade no sistema, a qual se enfraqueceria sem ela (depois não me acusem de criticar o egoísmo). Novamente temos um mecanismo dialético, que se retroalimenta (um processo interativo, cumulativo e bidirecional): assim como a dinâmica do sistema depende da diversidade, a diversidade depende da convicção grupal e individual de que, no fim, o grupo e o indivíduo em questão têm razão, em detrimento do resto; sem essa convicção a diversidade arrefeceria e, junto com ela, o sistema por ela alimentado. O erro individual (crença egoística) determina o acerto coletivo (equilíbrio dinâmico), mas é por ele sobredeterminado, garantido, assim a perpetuidade do sistema e a sua evolução (vale lembrar que não há um pressuposto teleológico nessa evolução: não se sabe onde ela vai levar; as coisas nem sempre mudam para melhor). Essa necessidade da diversidade poderia ser arrefecida caso fosse possível à pessoa média absorver uma quantidade de conhecimentos e habilidades muito maior do que é, na atualidade, humanamente possível.
Voltando à querela em torno da psicanálise. A revista CartaCapital de 10/10/2005, p. 10, nos informa que acabara de ser lançado na França um livro, com mais de 800 páginas, dedicado a criticar a psicanálise (Le Livre Noir de la Psychanalyse: vivre, penseret aller mieux sans Freud - O Livro Negro da Psicanálise: viver, pensar e se dar melhor sem Freud). Aproveitando esse assunto, Flávio Lobo apresenta, nas páginas 16 e 17 da mesma edição, o texto "Ciência ou Ideologia?", do qual eu cito essa esclarecedora passagem:
Mesmo com essas ressalvas, há quem rejeite as tentativas de aproximar a psicanálise da neurologia. Como o neurologista e psiquiatra Daniele Riva, do Hospital Sírio-Libanes, de São Paulo. Riva considera a ligação direta entre as duas áreas uma forma equivocada de responder a questão sobre a validade ou não da psicanálise, algo que, segundo ele, é "uma querela essencialmente filosófica e ideológica".
Riva, que foi um crítico feroz da psicanálise, não se converteu ao "freudismo", mas hoje prefere apontar suas baterias para os que se encontram do lado oposto de tal "querela".
"Atualmente o pensamento é o 'biologizante', cientificista e positivista, segundo o qual as neurociências são capazes de dar conta de todo psiquismo humano, o que, além de ser uma bobagem, é tão ideológico quanto a defesa mais dogmática da psicanálise", alerta o neurologista.
Essa tendência atual de reduzir todos os problemas psíquicos a desequilíbrios bioquímicos para os quais há ou surgirá um remédio é vista por Rivera como o maior perigo:
"Vivemos numa era de um antiintelectualismo assustador, que inclui essa obsessão pela comprovação quantitativa. Se a psicanálise só tiver valor se comprovada pelos critérios da neurobiologia, teremos que jogar fora todos os discursos interpretativos dos quais é feita a história e a maior parte das ciências humanas. Mas a humanidade não pode perder essas riquezas."
Poderá um dia a tecnologia calar a cacofonia da Torre de Babel? Será que a verdade um dia enfim nos libertará? Se sim, para onde iremos, afinal?

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1. http://en.wikipedia.org/wiki/Shroud_of_Turin (Chemical properties of the sample site)
2. Certa vez li num dicionário filosófico que alguns hegelianos refutam toda a filosofia schopenhauriana com base em um único parágrafo do primeiro capítulo da Fenomenologia do Espírito...ou seja, não fazem muito diferente do que faz Robert Todd Carroll, refutando com poucas palavras a psicanálise (e com a mesma facilidade ele certamente refutaria as metafísicas em geral, inclusive a hegeliana).
3. Se não me engano, isso está nas “Investigações filosóficas”; caso contrário, está no Tractus logico-philosophicus.
4. Também não sei apontar exatamente onde encontra essa referência. Procurar em “O pensamento vivo de Albert Einstein”, ou então em “Como vejo o mundo”, escrito por ele.
5. Vejamos o que diz Feyerabend no Apêncice 1 de Contra o método:
Finalmente, permitam-me repetir que, para mim, o chauvinismo da ciência é um problema muito maior do que o problema da poluição intelectual. Pode até ser uma de suas maiores causas. Os cientistas nãos e dão por satisfeitos em organizar seus próprios cercadinhos de acordo com o que consideram ser as regras do método científico, mas querem universalizar essas regras, querem que ela se torne parte da sociedade em geral e usam de todos os meios à sua disposição – argumento, propaganda, táticas de pressão, intimidação, práticas de lobby – para atingir seus objetivos. Os comunistas chineses reconheceram os perigos inerentes nesse chauvinismo e procederam de modo que o removesse. No decurso disso, restauraram partes importantes da herança intelectual e emocional do povo chinês, bem como aperfeiçoaram a prática da medicina. Seria vantajoso se outros governos seguissem esse exemplo.
6. A expressão mais ridícula dessa fé nos números é, sem sombra de dúvidas, o pensamento do mainstream econômico. Para você ter uma idéia, um dos últimos caras a ganhar o Nobel de Economia (afinal de contas, por que existe um Nobel de Economia?!) foi premiado pois “demonstrou matematicamente a necessidade de se ter um Banco Central independente”!
7. Certa vez, quando eu tinha 17 anos, eu estava conversando com um professor doutor (de uns 60 anos de idade) da minha faculdade (economia - ele era professor da cadeira de História do Pensamento Econômico (HPE)). Eu lhe disse que a incompatibilidade entre as duas teorias do valor (trabalho e utilidade) lembravam as antinomias da ciência da razão pura kantiana. Foi quando ele me respondeu, para a minha surpresa e total perplexidade, que NÃO SABIA DO QUE EU ESTAVA FALANDO. Maldita especialização do pensamento! O mais ridículo de tudo é que esse professor, enquanto professor de HPE, teve (e ainda deve ter) a petulância de querer "ensinar" aos alunos o que é "idealismo", por ocasião da introdução do "materialismo dialético" de Marx na análise econômica e histórica. É claro que a concepção de idealismo dele é ridiculamente ingênua.
8. Segundo dizem alguns pensadores, vários conceitos da psicanálise (id, recalque, retorno ao inorgânico, princípio do desejo, entre outros) teriam sido plagiados impunemente das obras de Schopenhauer!
Sobre esse tema, recomendo a leitura do seguinte livro (que eu ainda não li, mas que já está na minha pilha de leitura esperando a sua vez): "O sono dogmático de Freud - Kant, Schopenhauer, Freud" de Pierre Raikovic, Jorge Zahar Editor, 1996, volume 50 da coleção "Transmissão da Psicanálise".
Eu dei uma folheada no livro e, para mim que sou fã de Schopenhauer, ele me pareceu bastante convincente...
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Tempore, quo cognitio simul advenit, amor e medio supersurrexit.

