sábado, 8 de maio de 2010

CIV - Acerca de consideração sobre o conceito de natureza no filme Avatar e de como fica anulada qualquer "lição de moral" pretendida pelo filme

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§ 104




Dando seqüência à discussão sobre a indústria cultural iniciada no capítulo 100, teceremos, no presente capítulo, breves considerações sobre o filme Avatar (2009), de James Cameron.

Não é minha intenção apresentar os furos do roteiro melodramático estereotipado do filme, pois creio que isso, inclusive, já foi feito bastante por outras pessoas. Por isso vou fazer aqui somente as observações que eu não encontrei em outros textos, ou seja, somente a minha contribuição original.

Eu assisti a esse filme numa das duas únicas salas IMAX 3D disponíveis no país (essa está em Curitiba, a outra em São Paulo), e afirmo que fiquei inescrutavelmente perplexo e deslumbrado com o que vi. A orgia sensorial promovida pela experiência de imersão foi suficiente para calar o meu senso crítico, e eu saí do cinema maravilhado, lamentando ter que voltar ao “mundo real”, e não apresentando cansaço mesmo depois de três horas de projeção. Eu tinha, durante a projeção, percebido que o roteiro era fraco: mas o que isso importa? Que diferença faz a história diante de tão avassaladora experiência de imersão? A propósito, lembrei do livro Admirável Mundo Novo (Audous Huxley). Para quem lembra, não é difícil perceber seu caráter profético: ele descreve a massa se alienando em cinemas que afetam todos os cinco sentidos, mas que apresentam enredos simplórios, praticamente inexistentes: tudo o que importa é a sensação. Algo parecido ocorre no longa metragem Idiocracy (2006).

(O vídeo abaixo foi indicado pelo Thomaz nos comentários desse capítulo; achei-o tão pertinente à temática aqui discutida que o incorporei ao corpo do texto.)


Essa potência sensorial ("vertigem audiovisual") de Avatar me fez questionar (isso semanas depois, quando consegui pensar algo crítico sobre o filme): porque essa compulsão da indústria cultural em produzir simulacros cada vez mais perfeitos? Ora, qual é a função do simulacro na indústria cultural? Qual é a função de uma experiência de “imersão” numa irrealidade realista e espetacularizada? A resposta que eu pensei foi a seguinte: a função é a de promover o auto-esquecimento, a auto-alienação, a alienação duma cotidianidade medíocre e mecânica. E, para o establishment, qual é a importância dessa alienação? É que, assim, mediante um escapismo, as pessoas efetuam uma catarse da sua insatisfação, evitando-se que essa seja canalizada para uma transformação política do real. Ou seja, a auto-alienação e a catarse propiciadas pela indústria cultural exercem uma função política conservadora do establishment, da realidade social concreta vigente, com suas estruturas de exploração, dominação e autoritarismo. Se não houvesse escapismo, catarse e auto-alienação as pessoas iriam questionar o establishment; mas é claro que a ordem capitalista criou mecanismos muito eficazes para evitar esse questionamento por meio de um amortecimento de corações e mentes. A indústria cultural é um lubrificante social, um instrumento de alienação, uma muleta existencial.

A invenção de mundos imaginários como forma (ineficaz) de crítica (implícita ou explícita) do mundo real (como ocorre n’O pequeno príncipe, no filme Avatar e em tantas outras mercadorias da indústria cultural) é uma tentativa dos autores dessas histórias de sublimar sua culpabilidade por serem cúmplices da realidade social vigente. Tomemos o caso do filme Avatar. Qualquer “lição de moral”, “mensagem”, que o roteirista pretendesse passar com esse filme cai por terra quando percebemos que o mundo idealizado de Pandora é, em sua essência, qualitativamente diferente do nosso.

Em Pandora não há, tal como no nosso mundo, uma separação básica, primordial, entre a ordem natural e a ordem social; pelo contrário, a ordem social é totalmente natural: não há história, há apenas biologia. Isso fica patente quando observamos que os animais de montaria são naturalmente adaptados para serem domesticados (ou seja, a rigor, essa domesticação nem existe, porque já estava “prevista” pela teleologia natural – não é uma domesticação, mas sim uma simbiose), tendo, como sinal dessa adaptação, uma “porta USB” natural, de fábrica, para poderem ser controlados pelos Na’vi.

O conhecimento acumulado pelos antepassados dos Na’vi não precisa ser registrado em livros, já que ele é acessado em tempo real mediante processos biológicos: “conexão USB” com uma árvore sagrada (trata-se de uma espécie de Registro Akáshico, o qual supostamente, segundo místicos e esotéricos, existe e pode ser acessado por humanos). A religião dos Na’vi não exige de ninguém a fé, pois a existência da deusa e dos antepassados está comprovada e é verificável empiricamente por qualquer um a qualquer hora (de forma análoga, o paraíso da Terra Média é acessível por navio, ou Harry Potter, no final do quarto livro, é salvo pelos fantasmas do seus pais – a certeza empírica de que existe vida após a morte elimina uma grande angústia existencial que está presente na vida das pessoas no mundo real).

É evidente que a natureza que existe no planeta Pandora é fundamentalmente diferente da natureza do planeta Terra, assim como é evidente que a nossa realidade aqui seria totalmente diferente da atual (e histórica) se a natureza (ou seja, nossa realidade concreta básica) existente na Terra fosse análoga à de Pandora. Diferentemente do nosso destino como humanidade, os Na’vi não superaram seu conflito com a natureza, pelo simples motivo que esse conflito nunca existiu. Fica, assim, desconstruída qualquer “sabedoria” que esse povo imaginário pudesse nos ensinar: a nossa realidade concreta é diferente da de Pandora, e seria equivocado (seria ideologia) pretender impor a nós os valores vigentes para os Na’vi. Dessa forma, qualquer crítica que o roteirista pretendesse fazer ao mundo real é invalidada e se mostra contraproducente ao implicitamente confirmar, mediante uma crítica vazia, a inevitabilidade histórica da ordem social vigente, da qual James Cameron é obviamente cúmplice e beneficiário (afinal ele é um multimilionário que produziu o filme mais caro de todos os tempos).

Acusar Avatar (um filme da mais alta tecnologia que "defende" no seu texto o retorno à natureza) de hipocrisia (como fazem alguns em seus blogs) é um pensamento reducionista. Não se trata de mera hipocrisia, mas sim de uma função social conservadora da indústria cultural: a de realizar uma ultrapassagem simbólica do real, para que a mesma não precise ser realizada de fato; noutras palavras, a função de realizar uma catarse da sensação de culpa pela cumplicidade com o establishment, bem como da pulsão de morte, a qual poderia ser canalizada para uma transformação política do status quo. A transformação é realizada simbolicamente (e, inclusive, num planeta distante) justamente como purgação (catarse) das pulsões transformadoras da realidade social concreta vigente.

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[Parte acrescentada em 13/02/2011]

O que choca ao se analisar Avatar é a convivência da alta tecnologia com abslutamente nenhuma inovação de conteúdo ou estrutura narrativa: o enredo é a mesma história melodramática, maniqueísta e previsível de sempre. Assim, o progresso técnico - sempre a arrancar suspiros - caminha lado a lado com a decadência e miséria do conteúdo produzido no mainstream hollywodiano. A desfaçatez foi tão grande que o filme acabou recebendo apenas Oscars técnicos (melhor fotografia, melhores efeitos visuais e melhor direção de arte): nem a Academia de Artes e Ciências Cinematográficas teve coragem de laurear Cameron como fizera com Titanic.

O mundo colorido e espetacular de liberdade aparentemente crescente esconde uma prisão existencial de limites cada vez mais estreitos e sufocantes. Por traz do paraíso deslumbrante, o látego: a fantasia esconde, sob uma cortina de fumaça, o deserto da realidade sem horizontes. Quanto maior e mais intrincados são os esforços para produzir o simulacro, menos intrincados e mais grotescos são os esforços do consumidor para se auto-alienar e escapulir efemeramente da sua cotidianidade medíocre e mecânica - da prisão reificada na qual arrasta-se diariamente, sem perspectivas de real emancipação (apenas é permitido o simulacro de emancipação pelo consumo da fantasia industrializada).

Com relação à "teia da vida" relatada no auge de "intelectualidade" e "esclarecimento" do enredo e desacreditada pela intelligentzia dos vilões, é surpreendente que uma civilização, em pleno ano 2154 d. C., que consegue viajar rapidamente de um sistema solar até outro (e que, portanto, arranjou um jeito de viajar mais rápido que a velocidade da luz) não seja capaz de ter assimilado um conhecimento já popularizado, em 1997, por Fritijof Capra em um livro chamado...A teia da vida, o qual trata de se trata de uma variação da hipótese de Gaia. Sim, trata-se, em Avatar, de mera pasteurização espetacular e mitificada de algo essencialmente já conhecido há muito tempo. Sem novidades.

Também surpreende que seja mais eficiente usar Jake do que simplesmente ter feito um backup da mente de seu irmão e depois ter reconstruído seu corpo em laboratório (ou ter transferido a mente diretamente para o avatar)...afinal a tecnologia usada para criar os avatares também serviria para esse propósito: efetuar uploads mentais e substituição de corpos humanos...Mas os fatos precisam ser destruídos para sustentar o enredo melodramático com o qual o público se identifica tão previsivelmente.

A caricaturização do intelectual até a sua completa e burlesca descaracterização é típico dos produtos do mainstream burguês, como quando Dan Brown transforma , em Anjos e Demônios (eu apenas perdi - pela última vez - meu tempo vendo o filme, não sei se isso ocorre no livro também), a "partícula de Deus" (Bóson de Higgs) não na derrocada vergonhosa da religião para a ciência, mas sim na fusão harmônica e gloriosa de ciência e religião. Ridículo.

Mas o cinema de massas sempre faz isso: vulgariza o intelectual para tornar-se digerível à multidão, que não quer pensar, mas apenas esquecer da própria miséria por algumas horas. E mais: com essa vulgarização ainda finge-se de educativo, enquanto o público finge que aprendeu alguma coisa sobre a vida e que saiu do cinema mais sábio maduro do que nunca.

Um outro exemplo grotesco dessa vulgarização é a citação que o mesmo James Cameron faz de Nietzsche como epígrafe do filme O segredo do abismo: "Quando você olha para o abismo ele também olha para você". Ou seja, as palavras trágicas do filósofo do martelo são pasteurizadas e transformadas em enfeite de um enredo melodramático no qual o mocinho abnegado salva a humanidade de si mesma com a ajuda se angelicais alienígenas...Aliás, com poucas alterações, esse enredo se transforma em Avatar: o mocinho abnegado salva da humanidade os alienígenas angelicais. Como se um único parágrafo de Nietzsche não tivesse mais sabedoria que todos os filmes de Cameron juntos.




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Tempore, quo cognitio simul advenit, amor e medio supersurrexit.