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Caímos finalmente, com isso, na pior das transgressões: atrever-se a por em dúvida a imaginação infantil, quer dizer, horror!, questionar o direito das crianças a consumir uma literatura sua, que as interpreta tão bem, fundada e cultivada para elas.
Não há dúvidas que a literatura infantil é um gênero como outro qualquer, acobertada por subsetores especializados dentro da divisão do trabalho “cultural”. Outros se dedicam às novelas de cowboy, às revistas eróticas, às de mistério, etc. Mas pelo menos estas últimas se dirigem a um público diversificado e sem rosto, que compra anarquicamente. No caso do gênero infantil, pelo contrário, o público foi adstrito de antemão, especificado biologicamente.
Esta narrativa, portanto, é executada por adultos, que justificam seus motivos, estrutura e estilo em virtude do que eles pensam que deve ser uma criança. Chegam, inclusive, a citar fontes científicas ou tradições arcaicas (“é a sabedoria popular e imemorial”) para estabelecer quais são as exigências do destinatário. O adulto dificilmente poderia propor para sua descendência uma ficção que colocasse em xeque o futuro que ele deseja que o pequeno construa e herde.
Antes de tudo, a criança – para estas publicações – deve ser um adulto em miniatura. Por intermédio destes textos, os maiores projetam uma imagem ideal da dourada infância, que, com efeito, não é outra coisa que sua própria necessidade de fundar um espaço mágico alijado das asperezas e conflitos diários. Arquitetam sua própria salvação, pressupondo uma primeira etapa vital dentro de cada existência, à margem das contradições que quiseram apagar por intermédio da imaginação evasiva. A literatura infantil, a imaculada espontaneidade, a bondade natural, a ausência de sexo e de violência, a uterina terra de mina garantem a sua própria redenção adulta: enquanto existirem crianças, existirá o pretexto e meios para auto-satisfazer-se com o espetáculo de seus auto-sonhos. Nos textos destinados aos filhos, se teatraliza e se repete até a saciedade um refúgio interior supostamente sem problemas. Ao se deleitarem com sua própria lenda, caem na tautologia: olham-se a si mesmos num espelho crendo que é uma janela. Essa criança que brinca aí no jardim é o adulto que está olhando, que está se purificando.
Assim, o grande produz a literatura infantil, a criança consome. A participação do aparente ator, rei deste mundo não-contaminado, é ser público ou marionete do seu pai ventríloquo. Este último corta a voz de sua progênie, arroga-se o direito, como em toda a sociedade autoritária, a erigir-se seu único intérprete. A forma pela qual o pequenino colabora é emprestando ao adulto sua representação
Mas, um momento, senhores! As crianças por acaso não são assim?
Com efeito, os maiores mostram aos mais jovens como uma prova que essa literatura é essencial, corresponde ao que a mesma criança pede, o que considera gostoso. Não obstante, trata-se de um circuito fechado: as crianças foram geridas por essa literatura, e – para se integrarem à sociedade, receberem recompensa e carinho, serem aceitas, crescerem em direitos – devem reproduzir diariamente todas as características que a literatura infantil jura que elas possuem. O castigo e a gratificação sustêm este mundo. Por trás do açucarado Disney, o látego. E como não se lhes apresenta outra alternativa (que no mundo dos adultos existe, mas que por definição não é matéria para os pequeninos), que elas mesmas pressintam a naturalidade de seu comportamento, acatando felizes a canalização de sua fantasia num ideal ético e estético que lhes aparece como o único projeto possível de humanidade. Essa literatura se justifica com as crianças que engendrou: é um círculo vicioso.
Assim, os adultos criam um mundo infantil onde possam reconhecer e confirmar suas aspirações e concepções angelicais; segregam esta esfera, fonte de consolo e esperança, garantia de que amanhã tudo será melhor (e igual) e, ao isolar essa realidade, ao dar-lhe autonomia, tramam a aparência de uma divisão entre mágico e o cotidiano.
Os valores adultos são projetados, com se fossem diferentes, nas crianças, e protegidos por elas sem réplica. Os extratos (adulto e criança) não seriam antagônicos: resumem-se num só abraço, e a história se faz biologia. Desmorona-se, ao serem idênticos pais e filhos, o fundamento de um conflito geral verdadeiro. A criança-pura substituirá o pai corrompido, com os valores desse progenitor. O futuro (a criança) representa o presente (o adulto) que, por sua vez, retransmite o passado. A independência que o pai outorga benevolente a esse pequeno território é a mesma forma que assegura seu domínio.
Há, porém, algo mais: essa divisão territorial simples, plana, translúcida, formosa, casta, pacífica, que se promoveu como salvação, na realidade importa, de contrabando e involuntariamente, o mundo adulto conflitante e contraditório. O desenho deste mundo transparente não faz senão permitir o encobrimento e a expressão subterrânea de suas tensões reais e cansadamente vividas. O engendrador sofre esta cisão de sua consciência em ter completa consciência deste dilaceramento dentro da pele. Apropria-se do “fundo natural” da infância, que é sua nostalgia, para ocultar as fontes do que presume ser seu próprio afastamento do paraíso perdido, sua própria queda no mundo. É o preço que deve pagar para subsistir junto à sua depravação castigada. Em função desse modelo divinizado, julga-se e acha-se culpado: necessita desse espaço encantado-salvador, mas jamais poderá ser imaginado com a pureza indispensável, jamais poderá converter-se ele mesmo em seu próprio filho. A forma da evasão implica apagar mas ao mesmo tempo expressar seus problemas.
A literatura infantil é, por isso, talvez o foco onde melhor se pode estudar os disfarces e verdades do homem contemporâneo, porque onde menos se pensa encontra-los. E esta é a mesma razão pela qual o adulto, carcomido pela monotonia cotidiana, defende essa fonte de eterna juventude: penetrar esse mundo é destruir seus sonhos e revelar sua realidade.
Assim concebido, o imaginário infantil é a utopia passada e futura do adulto. Precisamente por constituir-se no reino interior da fantasia, é aí, porém, nesse modelo de sua Origem e de sua Sociedade Futura Ideal, que se reproduzem com liberdade todas as características que o afligem. Pode, desta maneira, beber seus próprios demônios, sempre que tenham sido açucarados em calda de paraíso, sempre que viagem com o passaporte da inocência, sempre que sejam apresentados como ingênuos e sem segundas intenções adultas. Todo homem tem a obrigação constante de imaginar sua própria situação, e a cultura de massas concedeu ao homem contemporâneo a possibilidade de alimentar-se de seus problemas sem ter que passar pelas dificuldades e angústias temáticas e formais da arte e literatura da elite contemporânea. É um conhecimento sem compromisso, a autocolonização da imaginação adulta: por meio do domínio da criança, o grande se domina a si mesmo. Tal como a relação sadomasoquista de Donald com seus sobrinhos, o paroquiano desta literatura encontra-se apanhado entre sua utopia e seu inferno, entre seu projeto e sua realidade. Pretende evadir-se a outro mundo, santificado, e em cujo solo viaja cada vez mais dentro de seus próprios traumas, uma volta sem parafuso e um parafuso sem volta.
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(Ariel Dorfman e Armand Mattelart, “Para ler o Pato Donald: comunicação de massa e colonialismo”, uma parte da introdução.)

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